Resumo da notícia
- Cooperativas financeiras lideraram o crédito rural no início do Plano Safra 2026/27, liberando R$ 18,5 bilhões, enquanto bancos públicos e privados reduziram significativamente as concessões.
- O crédito rural tradicional caiu 31% nos dois primeiros meses, totalizando R$ 49,2 bilhões, e o montante somado com CPRs chegou a R$ 81,6 bilhões, uma redução de 22,8% em relação ao ciclo anterior.
- Grandes produtores foram os mais afetados, com queda de 39% no crédito, enquanto a agricultura familiar teve retração menor, de 5%; a renegociação de dívidas ainda depende da implementação de medidas provisórias.
As cooperativas financeiras assumiram, ao menos momentaneamente, a liderança das linhas tradicionais de crédito rural do Plano Safra 2026/27. Nos dois primeiros meses da temporada, elas liberaram R$ 18,5 bilhões aos produtores e mantiveram o ritmo registrado no mesmo período de 2025.
O resultado chama atenção porque segue na direção oposta à dos bancos. Em meio ao aumento do endividamento e da inadimplência no campo, instituições públicas e privadas ficaram mais seletivas na aprovação de novos financiamentos.
Os bancos públicos, que lideravam os desembolsos, reduziram as concessões pela metade. O volume passou de R$ 32,7 bilhões para R$ 16,1 bilhões. Já os bancos privados liberaram R$ 12,4 bilhões, queda de 24% diante dos R$ 16,5 bilhões registrados um ano antes.
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Crédito rural cai 31% no início da safra
Pequenos, médios e grandes produtores contrataram R$ 49,2 bilhões pelas linhas tradicionais do Plano Safra em julho e agosto. O resultado representa uma queda de 31% em relação aos R$ 71,3 bilhões liberados no mesmo período de 2025.
Os números foram extraídos do sistema do Banco Central em 7 de setembro. Como a base passa por atualizações, os valores ainda podem mudar conforme a data da consulta.
O levantamento não inclui as emissões de Cédulas de Produto Rural, conhecidas como CPRs. Esses títulos permitem que o produtor antecipe recursos tendo como compromisso a entrega futura da produção ou a liquidação financeira da operação.
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, as CPRs movimentaram R$ 32,4 bilhões nos dois primeiros meses desta safra, ante R$ 34,4 bilhões no ciclo anterior.
Ao reunir os títulos e as linhas tradicionais, o crédito rural alcançou R$ 81,6 bilhões no bimestre. O montante ficou 22,8% abaixo dos R$ 105,8 bilhões registrados no início da safra passada.
Grandes produtores tiveram a maior queda
A retração foi mais intensa entre os grandes produtores. As concessões pelas linhas tradicionais destinadas a esse grupo caíram 39%, para R$ 22,8 bilhões.
No Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural, o Pronamp, os financiamentos recuaram 34% e chegaram a R$ 11,7 bilhões.
A agricultura familiar apresentou uma redução menor. O segmento acessou R$ 14,6 bilhões, queda de 5% na comparação anual.
Esse cenário indica que a restrição atingiu diferentes perfis de produtores, mas pesou principalmente sobre operações de maior valor e propriedades mais expostas ao endividamento acumulado.
Renegociação de dívidas pode mudar os números
A demora na implementação das linhas de renegociação previstas pela Medida Provisória 1.376/2026 também ajuda a explicar o início mais lento do Plano Safra.
A medida autorizou a criação de financiamentos voltados à liquidação ou amortização de dívidas rurais e de CPRs. Parte dessas operações deverá ser contabilizada nos desembolsos do Plano Safra porque os bancos poderão utilizar as mesmas fontes de recursos destinadas ao crédito rural.
Além disso, a regularização dos débitos pode devolver capacidade de contratação aos produtores que conseguirem reorganizar seus passivos e permanecer adimplentes.
Outro fator foi o atraso na liberação das linhas com juros equalizados pelo Tesouro Nacional. As contratações começaram somente no fim de julho. Até agora, foram desembolsados cerca de R$ 14 bilhões dos quase R$ 142 bilhões programados para a temporada.
Cooperativas ampliaram oferta para a safra
O desempenho registrado até agora acompanha os sinais apresentados no lançamento do Plano Safra. Enquanto os bancos demonstraram maior cautela, os três principais sistemas cooperativos anunciaram uma oferta superior à do ciclo anterior.
O Sicredi prevê conceder R$ 72,1 bilhões, crescimento de aproximadamente 5%. O Sicoob projeta liberar R$ 70 bilhões, avanço de 17,6%. Já a Cresol estima alcançar R$ 18 bilhões, alta de 7%.
Ainda é cedo para afirmar que as cooperativas encerrarão a temporada na liderança. Entretanto, o espaço ocupado por elas vem crescendo há mais de uma safra.
Desde o ciclo 2024/25, a participação dos bancos públicos nos financiamentos do Plano Safra recuou 29%. Entre os privados, a redução foi de 25%. No mesmo intervalo, a fatia das cooperativas financeiras avançou 15%.
Proximidade ajuda na análise do produtor
Para Marco Aurélio Almada, diretor-presidente do Sicoob, a proximidade com os cooperados, a presença regional e o conhecimento técnico das equipes ajudam a explicar o desempenho.
“Esse relacionamento próximo e de longo prazo proporciona uma compreensão mais ampla da atividade produtiva, dos ciclos de cada região e das necessidades específicas de cada produtor”, afirmou.
Segundo ele, esse conhecimento permite uma avaliação mais conectada à realidade de cada propriedade.
“Conseguimos realizar uma análise de crédito mais contextualizada e oferecer soluções financeiras mais adequadas à realidade de cada cooperado”, acrescentou.
Gustavo Freitas, diretor-executivo de Crédito e Negócios do Sicredi, lembra que as cooperativas costumam ampliar sua atuação em momentos de crise, como ocorreu durante a pandemia e na recessão econômica de 2015.
Na avaliação do executivo, enquanto bancos adotam restrições amplas e aumentam as garantias exigidas, as cooperativas conseguem avaliar parte dos pedidos individualmente.
“Essa decisão produz um efeito abrangente. Já as cooperativas mudam suas regras, mas tomam mais decisões individuais e com julgamento específico do quadro. Isso faz com que o crédito delas avance mais, pela natural proximidade”, avaliou.