Resumo da notícia
- A Casa Marques Pereira testa variedades de uvas em Monte Belo do Sul por até três safras, avaliando sanidade, ciclo de maturação, cachos e qualidade para garantir adaptação na Serra Gaúcha.
- O período de maturação é crucial, pois chuvas no fim do ciclo podem prejudicar a sanidade e a qualidade das uvas, influenciando a escolha das variedades a serem cultivadas.
- A experiência com Nebbiolo e Marzemino busca explorar a expressão dessas uvas na Serra Gaúcha, sem tentar reproduzir os estilos tradicionais italianos, valorizando a adaptação local.
Em Monte Belo do Sul (RS), a Casa Marques Pereira utiliza uma área experimental para observar o comportamento das variedades antes de ampliar o cultivo. O processo pode levar três safras e considera fatores como sanidade das plantas, período de maturação, características dos cachos e qualidade das uvas.
A estratégia busca responder a uma questão decisiva para o produtor: uma variedade consagrada em outro país consegue completar seu ciclo com qualidade e segurança nas condições de solo e clima da Serra Gaúcha?
Antes da implantação dos vinhedos, entre 25 e 50 mudas de cada variedade seguem para a área de testes. A equipe acompanha as plantas durante três safras.
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“O primeiro ponto que a gente observa é a sanidade. É uma uva que você consegue começar e terminar o ciclo dela com poucos problemas? Depois vem o período do ciclo. Uma uva que tem um ciclo precoce, uma uva que tem um ciclo mais longo, tudo tem diferença”, explica Felipe Marques Pereira, da Casa Marques Pereira.
Chuva no fim do ciclo pesa na escolha das uvas
O período necessário para a maturação está entre os principais critérios de avaliação.
Na Serra Gaúcha, uma variedade de ciclo muito longo pode chegar à fase final de maturação em um período com maior ocorrência de chuvas. Essa condição pode aumentar a pressão de problemas sanitários e interferir na qualidade das uvas.
Por isso, os testes não analisam apenas se a videira produz.

A equipe também observa o formato dos cachos, sua compactação, a espessura da casca e o comportamento das frutas durante a maturação.
“Uma uva estar adaptada são essas condições. Uma uva que a gente consiga colher dentro de um período mais seguro, que tenha poucos problemas de sanidade, que tenha uma boa concentração e qualidade de fruta”, afirma Felipe.
Avaliações de adaptabilidade de cultivares viníferas não são novidade na viticultura brasileira. Trabalhos técnicos já consideraram fatores como produtividade e teor de açúcar das uvas para comparar o desempenho de variedades em diferentes regiões produtoras do Rio Grande do Sul.
Nebbiolo não precisa virar um Barolo brasileiro
A Nebbiolo está fortemente associada ao Piemonte, no norte da Itália, onde participa da elaboração de vinhos como o Barolo. A experiência em Monte Belo do Sul, porém, não tenta reproduzir as mesmas características encontradas no território italiano.
O objetivo é descobrir como a variedade se expressa nas condições da Serra Gaúcha.
“Quando a gente plantou o Nebbiolo aqui, a gente não plantou esperando produzir Barolo. A gente estava apostando numa uva de qualidade para se produzir aqui, mas diferente das tradicionais”, diz Felipe.
A Marzemino segue a mesma lógica.
“A gente não estava buscando copiar o estilo do vinho Marzemino da Itália. Porque nós sabemos que nós temos condições aqui diferentes de cultivo”, afirma.
A avaliação também continua depois da colheita. As uvas seguem para a vinificação, etapa que permite analisar como as características observadas no campo aparecem no vinho.
Esse processo ajuda a determinar se a variedade apresenta características agronômicas e enológicas que justifiquem sua implantação em áreas maiores.
Melhores plantas fornecem material para novos vinhedos
Depois da fase de avaliação, a propriedade utiliza a seleção massal para identificar plantas de melhor desempenho.
Na viticultura, a técnica permite selecionar videiras com características consideradas desejáveis para fornecer material propagativo. A Embrapa descreve a seleção massal positiva como a marcação das melhores plantas de um vinhedo para posterior coleta desse material.

“Utilizamos esta técnica tanto na implantação de novas cepas como no melhoramento de áreas já existentes, ano a ano há alguma muda que se destaca e vira doadora do seu material genético para melhoras outras mudas com desempenho que não esteja satisfatório”, afirma Felipe.
O acompanhamento por mais de um ciclo ajuda a evitar que uma planta seja selecionada apenas por um desempenho excepcional em determinada safra.
Alvarinho já chegou com referências brasileiras
Nem todas as variedades começam os testes com o mesmo nível de informação disponível.
A Alvarinho, de origem portuguesa, já possui histórico de cultivo no Brasil. Segundo Felipe, isso permitiu trabalhar com referências obtidas anteriormente em regiões produtoras brasileiras.
“Então, daí veio a aposta nela. Já era conhecido o perfil de vinho que ela costuma produzir na Serra, na Campanha. Então, foi mais fácil optar por ela”, explica.
Nebbiolo e Marzemino exigiram uma etapa maior de observação antes da implantação definitiva nos vinhedos.
As duas variedades já chegaram à produção comercial da propriedade, mostrando que a experiência ultrapassou a fase inicial dos testes.
Encruzado entrou no vinhedo comercial em 2025
Outra variedade que percorreu esse caminho foi a Encruzado, uva branca originária da região portuguesa do Dão.
Depois dos testes, a vinícola implantou uma área comercial da variedade em 2025.
“É uma uva branca de grande potencial para a serra gaúcha, traz um enorme frescor e uma paleta de aromas diferente dos habituais brancos brasileiros com notas de lima, rosas e violetas além de uma marcante nota mineral”, afirma Felipe.
A experiência mostra como a introdução de uma nova casta vai além da escolha de uma variedade reconhecida internacionalmente. Antes da expansão do vinhedo, o comportamento da planta precisa ser observado durante diferentes safras para verificar como ciclo, sanidade, maturação e qualidade das uvas respondem às condições encontradas no novo território.