Resumo da notícia
- Governo da Bahia e Emirados Árabes firmam parceria de US$ 4 milhões para cultivo de tamareiras no semiárido, com plantio inicial de 10 mil mudas importadas para produção local de tâmaras.
- A cooperação técnica inclui transferência de tecnologia, treinamento e assistência para estruturar cadeia produtiva nacional e futura exportação da fruta.
- Clima semiárido da Bahia favorece o cultivo da tamareira, que exige irrigação controlada e resiste a secas, alinhando-se a estudos da Embrapa e a outras iniciativas no Nordeste.
O governo da Bahia e os Emirados Árabes Unidos assinaram uma parceria de cooperação técnica para viabilizar um novo cultivo no semiárido baiano: o de tamareiras, palmeira que produz as tâmaras, fruta típica do Oriente Médio. O acordo prevê investimento estimado de US$ 4 milhões ao longo de cinco anos.
O plano prevê o plantio inicial de cerca de 10 mil mudas de Phoenix dactylifera, espécie cultivada tradicionalmente no norte da África e no sudoeste da Ásia e que já avança na Bahia graças ao clima quente e seco da região. Municípios como Juazeiro, Uauá, Casa Nova e Riachão das Neves devem concentrar a produção, com ciclo médio de três anos até a primeira colheita.
Os produtores vão importar as mudas diretamente dos Emirados Árabes. Cada palmeira madura pode gerar até 70 kg de tâmaras por ano.
Quem está por trás do projeto
A Secretaria da Agricultura da Bahia (Seagri) e a Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab) assinaram o acordo em parceria com a Fundação Zayed, entidade que reúne organizações filantrópicas de sustentabilidade dos Emirados, e com a Al Foah Company, estatal de Abu Dhabi especializada na produção de tâmaras e considerada uma das maiores produtoras globais do setor.

A cooperação técnica inclui a transferência de tecnologia, treinamento de agricultores e assistência contínua, com base na experiência acumulada pelos Emirados na produção da fruta. O objetivo imediato é estruturar uma cadeia produtiva capaz de abastecer o mercado nacional. E no médio prazo, a Bahia pretende transformar as tâmaras em produto de exportação.
Clima semiárido favorece a adaptação da espécie
Estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostram que a tamareira se desenvolve melhor em regiões com temperaturas elevadas, baixa umidade relativa do ar, alta incidência solar e irrigação controlada, condições que o oeste e o norte da Bahia reúnem. A palmeira exige bastante água durante o desenvolvimento dos frutos, mas seu sistema radicular profundo permite que ela resista a longos períodos de seca.
Outras iniciativas semelhantes já avançam pelo Nordeste, com projetos e testes de adaptação também em estados como Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. Todos com clima quente e seco favorável à cultura.
Primeiras mudas chegam ao Brasil e passam por quarentena
Em julho de 2026, o Brasil recebeu as primeiras 100 mudas importadas dos Emirados Árabes, com 12 variedades diferentes da espécie. A Embrapa enviou o material para quarentena no Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), em Brasília. Uma etapa que pode durar meses e que visa proteger os futuros plantios de pragas e doenças exóticas, seguindo protocolos rigorosos de manejo sanitário.
Dados do Ministério da Agricultura mostram que as importações brasileiras de tâmaras saltaram de 776 toneladas para mais de 4,3 mil toneladas anuais na última década, alta superior a 450%. Hoje, países árabes como os próprios Emirados, a Tunísia, Israel, a Arábia Saudita e o Egito atendem praticamente toda a demanda nacional. O Egito, aliás, lidera a produção mundial da fruta, com cerca de 1,8 milhão de toneladas por ano.
A tâmara reúne alta longevidade de cultivo e alto valor agregado, características que despertam o interesse do agronegócio brasileiro em internalizar essa produção.
Conheça melhor a tamareira e a tâmara
A tamareira (Phoenix dactylifera) pertence à família Arecaceae e tem origem no norte da África e no Oriente Médio, onde produtores cultivam a espécie há pelo menos 8 mil anos. A planta pode atingir até 20 ou 30 metros de altura na fase adulta e viver por mais de 60 anos, com folhas longas e pinadas de até 5 metros. Trata-se de uma espécie dióica, ou seja, existem plantas macho e fêmea separadas, e a polinização cruzada é necessária para a frutificação.

O fruto, a tâmara, concentra carboidratos na forma de açúcares naturais (glicose, frutose e sacarose). Além de fibras, vitaminas do complexo B e vitamina K, e minerais como potássio, magnésio, cobre e manganês. Compostos antioxidantes presentes na fruta também despertam interesse nutricional. Além do consumo in natura, a indústria utiliza a tâmara na produção de doces, barras energéticas e outros alimentos.
Se os testes agronômicos confirmarem o bom desempenho das variedades introduzidas, a Bahia poderá inaugurar a primeira cadeia produtiva de tâmaras em escala comercial do Brasil. Um passo que pode reposicionar o país, hoje importador, como futuro fornecedor da fruta árabe também para outros mercados.