Abic projeta queda de até um quinto na produção recorde esperada, enquanto calor excessivo e chuvas irregulares atrasam a colheita e comprometem a qualidade dos grãos
pé de café
Foto: divulgação - ApexBrasil

O El Niño ameaça reduzir em até um quinto a safra recorde de café que o Brasil esperava colher neste ano, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). O calor excessivo e as chuvas irregulares já comprometem lavouras em diversas regiões produtoras do país.

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A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma produção total de 66,7 milhões de sacas de 60 quilos de café arábica e canephora, categoria que inclui variedades como robusta e conilon. Mas a deterioração das condições climáticas durante o ciclo do El Niño pode derrubar drasticamente esse número, alerta o diretor-executivo da Abic, Celírio Inácio da Silva.

“Estamos falando agora de uma perda de safra entre 15% e 20%, o que em um ano normal estaria dentro do esperado. Mas, no cenário atual, isso é uma notícia muito ruim”, afirmou Silva em entrevista.

Produtores enfrentam o fenômeno com mais preparo

Apesar do cenário desfavorável, os cafeicultores brasileiros chegam a este ciclo de El Niño mais preparados do que em episódios anteriores. Avanços tecnológicos tornaram a cultura mais resistente às variações climáticas, segundo Silva.

“Fizemos avanços significativos e hoje conseguimos plantar e colher com mais eficiência”, destacou o executivo da Abic.

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Nos últimos anos, os produtores reforçaram a capacidade de mitigar riscos climáticos ao expandir rapidamente os sistemas de irrigação. O setor investiu fortemente nessa tecnologia para reduzir a dependência de chuvas cada vez mais irregulares. Um efeito direto das mudanças climáticas.

Florada desuniforme preocupa cooperativas mineiras

Ainda assim, especialistas esperam que o El Niño afete o ciclo biológico do café, especialmente durante o período de florada no segundo semestre de 2026. O calor excessivo e as chuvas irregulares podem provocar floradas desuniformes e mal-sucedidas.

“A maturação irregular gera problemas de qualidade e torna a colheita mais desafiadora”, explicou Wellis Caixeta, gerente de compras de café da cooperativa Expocacer, em Minas Gerais.

O precedente preocupa o setor. O El Niño de 2023/24, combinado a ondas de calor e chuvas irregulares, reduziu a safra brasileira de café de 2024: a estimativa inicial do governo, de 58,8 milhões de sacas, caiu para 54,2 milhões. Apesar do ciclo bienal positivo do arábica, a produção cresceu apenas 0,2%, enquanto a produtividade do conilon recuou 5,9%.

O fenômeno já pode explicar algumas anomalias observadas neste ano, como as chuvas incomuns registradas no Sudeste do Brasil no último mês. A Expocacer estima que precipitações superiores a 50 milímetros nas regiões produtoras de arábica, cerca de 40 dias atrás, atrasaram a colheita e derrubaram uma quantidade significativa de frutos no chão, o que prejudicou a qualidade dos grãos.

Espírito Santo teme prolongamento da seca até 2027

O Espírito Santo, maior produtor brasileiro de café canephora, também registrou clima irregular neste ano. Intervalos maiores entre chuvas se combinaram com precipitações mais curtas e intensas, segundo Luiz Carlos Bastianello, presidente da Cooabriel, maior cooperativa de canephora do país.

Os produtores capixabas temem que o El Niño prolongue os períodos de seca e calor excessivo até janeiro de 2027, o que prejudicaria o enchimento dos grãos, afirmou Bastianello.

A produção de conilon no estado já deve cair 15% neste ano por causa do ciclo bienal natural da cultura, que alterna entre anos de alta e baixa produtividade. Ainda assim, Bastianello considera cedo para prever o impacto real do El Niño em 2027.

“O calor é o maior risco para perdas severas na safra. Acima de 27°C, o canephora reduz seu metabolismo, e a 35°C ele para completamente. Os danos muitas vezes superam os causados pela falta de água em si”, acrescentou o presidente da Cooabriel.

Rondônia projeta safra recorde de robusta

O cenário muda no Norte do Brasil, onde temperaturas e chuvas permaneceram, em grande parte, dentro dos padrões sazonais neste ano. Em Rondônia, os produtores projetam uma safra recorde de 3 milhões de sacas de 60 kg. Um volume que supera a previsão da Conab, de 2,77 milhões de sacas.

O calor e a seca associados ao El Niño provavelmente não atingirão o robusta de Rondônia com a mesma intensidade que afeta as regiões produtoras de arábica, avaliou Juan Travain, presidente da associação estadual Caferon.

“O café é altamente sensível às variações de temperatura, mas praticamente todas as lavouras de robusta são irrigadas, e algumas também utilizam sistemas de resfriamento com água. Muitas propriedades de arábica, por outro lado, ainda não possuem irrigação”, explicou Travain.