Temperatura de até 40 °C ameaça o queijo Parmigiano Reggiano e eleva custos em 30% na Itália
Parmigiano Reggiano
Foto: Doug Davey/Flickr

As ondas de calor que atingem a Itália em 2026 já afetam diretamente a produção do Parmigiano Reggiano, queijo com mais de 800 anos de história e um dos símbolos gastronômicos mais conhecidos do país.

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Parmigiano Reggiano
Foto: Gelisite/Flickr

Temperaturas acima de 40 °C fazem as vacas comerem menos, permanecerem mais tempo deitadas e produzirem menos leite. Essa combinação preocupa produtores, fabricantes e administradores dos armazéns responsáveis pelo envelhecimento do queijo.

A indústria do Parmigiano Reggiano movimenta cerca de 4,5 bilhões de euros por ano e sustenta milhares de empregos na Itália. A Reuters mostrou, em reportagem publicada em 13 de julho de 2026, como o calor extremo passou a pressionar toda a cadeia produtiva, da fazenda ao armazém.

Calor acima de 40 °C reduz em até 10% a produção de leite

Há cerca de 50 anos, os agricultores da região da Emília-Romanha abriam as janelas dos celeiros apenas durante as noites de verão. Hoje, essas mesmas janelas permanecem abertas 24 horas por dia para proteger o gado das temperaturas recordes que atingem a região.

Parmigiano Reggiano
Foto: Crissy Terawaaki/Flickr

Nicola Bertinelli, presidente do Consórcio do Parmigiano Reggiano, afirma que o calor compromete tanto a qualidade quanto a quantidade do leite. As vacas passam mais tempo deitadas nos períodos mais quentes e reduzem o consumo de alimento, o que pode derrubar a produção de leite em até 10%.

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O impacto preocupa porque o Parmigiano Reggiano usa apenas três ingredientes:

  • Leite cru de vaca
  • Sal
  • Coalho

Portanto, qualquer redução na oferta de leite interfere diretamente no ritmo da fabricação.

Produtores só podem fabricar o autêntico Parmigiano Reggiano em cinco províncias italianas, a maioria delas na Emília-Romanha, e precisam alimentar as vacas exclusivamente com capim e feno cultivados dentro dessa área autorizada. Períodos prolongados sem chuva representam, portanto, outra ameaça à cadeia produtiva: sem água, o capim não cresce, o que compromete a produção de feno e reduz ainda mais a quantidade de leite disponível para o queijo.

Ventiladores e nebulizadores fazem os custos dispararem

Para reduzir a temperatura dentro dos celeiros, os produtores instalaram ventiladores e sistemas de nebulização de água, medidas que ajudam a proteger os animais, mas que também aumentam significativamente o consumo de energia elétrica.

Os gastos também cresceram nos depósitos onde as rodas de queijo permanecem durante a maturação, processo que dura pelo menos 12 meses e que, em alguns casos, se estende por três anos ou mais. Durante todo esse período, as instalações precisam manter temperatura e umidade controladas.

Mais de 500 mil rodas aguardam maturação em depósitos climatizados

Dois grandes depósitos especializados guardam mais de 500 mil rodas de Parmigiano Reggiano, em um estoque avaliado em mais de 300 milhões de euros. A Magazzini Generali delle Tagliate, unidade ligada ao banco Credito Emiliano, opera as estruturas, localizadas nas províncias de Reggio Emilia e Modena.

Segundo o diretor Giancarlo Ravanetti, o consumo diário de energia aumentou cerca de 30% durante os picos de calor de 2026. Para conter os custos, a empresa modernizou os sistemas de refrigeração e as caldeiras, melhorou o isolamento dos edifícios e ampliou a geração de energia renovável.

Tecnologia e tradição protegem a qualidade do queijo

Produtores e especialistas apelidaram coletivamente esses armazéns climatizados de “Banco do Parmigiano”. As instalações combinam tecnologia moderna e métodos tradicionais de inspeção. Assim, cada roda passa por controles rigorosos de qualidade durante a maturação, incluindo exames de raio X que ajudam a identificar defeitos internos.

Parmigiano Reggiano
Foto: Scott Dickey/Flickr

Além disso, especialistas também batem pequenos martelos nas peças e analisam o som produzido, técnica que permite detectar falhas surgidas durante o envelhecimento. Ravanetti reforça que o trabalho humano continua essencial para garantir a qualidade final do produto.

Tarifas dos EUA agravam o cenário para as exportações

As exportações responderam por mais de 50% das vendas globais do Parmigiano Reggiano em 2025, com os Estados Unidos como principal mercado internacional. Mas esse mercado ficou mais instável: no fim de 2025, novas tarifas elevaram a carga tributária total sobre o queijo importado nos EUA para 25%, com possibilidade de novos aumentos.

Diante da incerteza regulatória, importadores americanos suspenderam pedidos no início de 2026 para avaliar o impacto das tarifas e das pressões econômicas. Assim, essa decisão ajudou a derrubar em 10% o volume de vendas da Itália em 2025.

Paolo Ganzerli, diretor internacional de vendas da GranTerre, que registrou receita consolidada de 1,87 bilhão de euros em 2025, afirma que eventos climáticos mais intensos podem elevar ainda mais os custos e afetar a quantidade e a qualidade do leite nos próximos anos.

O que pode acontecer com o Parmigiano Reggiano nos próximos anos?

O Parmigiano Reggiano existe há mais de 800 anos e representa uma das tradições alimentares mais conhecidas da Itália. As ondas de calor mostram que até processos preservados por séculos podem enfrentar dificuldades diante de temperaturas extremas, secas e agora também de barreiras comerciais.

Portanto, produtores precisam equilibrar tradição, tecnologia e custos crescentes para manter a fabricação do queijo. Ganzerli resumiu a preocupação do setor com uma declaração direta:

“Não queremos ser a última geração a comer esse queijo.”