Animais atravessam clandestinamente a fronteira entre México e Estados Unidos e escapam de inspeções criadas para conter a bicheira-do-Novo-Mundo
Agentes buscam cavalos de trabalho para protegê-los da bicheira em Tamaulipas
Imagem: Reprodução - Milenio MX

Seis cavalos cruzaram o Rio Grande clandestinamente. Saíram do México e entraram nos Estados Unidos sem passar por exames veterinários. O caso poderia ser apenas mais uma ocorrência de contrabando na fronteira. Desta vez, porém, um pequeno parasita aumentou a preocupação das autoridades e dos pecuaristas.

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Trata-se da bicheira-do-Novo-Mundo, causada pelas larvas da mosca Cochliomyia hominivorax.

Ao contrário de muitas larvas que consomem matéria morta, elas atacam tecido vivo de animais de sangue quente. Geralmente, entram por feridas e podem provocar lesões graves. Sem tratamento, a infestação pode até matar o animal.

Os seis cavalos encontrados não estavam infectados. Ainda assim, o episódio expôs uma brecha importante: animais contrabandeados conseguem escapar justamente das barreiras sanitárias montadas para detectar o parasita.

Cavalos atravessam rio clandestinamente

Cavalos recuperados
Imagem: Reprodução – Milenio MX

Agentes encontraram os animais perto de Redford, uma pequena comunidade do Texas próxima à fronteira mexicana. Antes disso, os cavalos haviam cruzado o Rio Grande por uma rota clandestina.

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Quem importa cavalos legalmente do México precisa cumprir uma série de exigências. Os animais devem apresentar certificado oficial de saúde, passar por exames veterinários e cumprir quarentena.

Além disso, as autoridades americanas exigem uma inspeção específica contra a bicheira pouco antes do embarque.

No contrabando, todas essas barreiras desaparecem.

Há também uma explicação econômica para o comércio clandestino. Cavalos levados ilegalmente para os Estados Unidos podem alcançar US$ 30 mil no mercado paralelo.

Os destinos variam. Parte segue para propriedades rurais, enquanto outros animais podem acabar em corridas, rodeios e na charrería, tradicional esporte equestre mexicano.

O problema não parece isolado. Somente uma unidade policial do Condado de Presidio encontrou mais de 50 cavalos contrabandeados em dois anos.

Por que a bicheira preocupa a pecuária?

Coleta de material de cavalo
Imagem: Reprodução – Debate Sinaloa MX

Tudo começa quando a mosca adulta deposita seus ovos, geralmente em um ferimento. Depois que eles eclodem, as larvas entram na lesão e passam a consumir o tecido vivo.

Bovinos, cavalos, suínos, ovinos e caprinos estão entre os animais vulneráveis. Além deles, espécies silvestres e animais domésticos também podem sofrer infestações.

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Por isso, a movimentação clandestina preocupa os especialistas. Se um animal infectado percorre grandes distâncias, o parasita viaja junto e chega a lugares que talvez demorasse muito mais para alcançar naturalmente.

“Esse tipo de movimento representa um risco porque permite que a mosca viaje muito mais rápido do que conseguiria naturalmente”, explicou Oscar Rico, pesquisador da Universidade Nacional Autônoma do México.

Rico participou de um estudo que analisou como a movimentação de animais pode contribuir para a disseminação da bicheira.

México já registrou milhares de casos

As bicheiras do Novo Mundo são a forma larval carnívora de Cochliomyia hominivorax, uma espécie de mosca varejeira — Foto: Michael Miller/Texas A&M

E o risco não é apenas teórico.

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Desde o início do atual surto, em 2024, a agência sanitária mexicana contabilizou mais de 2 mil casos de bicheira em equinos. Ao considerar diferentes espécies, o México já confirmou dezenas de milhares de ocorrências.

Diante do avanço do parasita, os Estados Unidos restringiram por mais de um ano a entrada terrestre de animais mexicanos.

Apesar do alerta, há uma distinção importante.

Até agora, as autoridades americanas não atribuíram os casos confirmados de bicheira nos Estados Unidos a cavalos contrabandeados. Portanto, não há evidência de que os animais levados ilegalmente pela fronteira tenham provocado a chegada do parasita.

A preocupação está em outro ponto: a falta de controle sanitário.

Cavalos legais passam até por quarentena

As exigências para a entrada legal ajudam a mostrar o tamanho do cuidado.

Cavalos importados do México precisam permanecer em quarentena por pelo menos sete dias, apresentar certificado de saúde e passar por exames.

No caso da bicheira, veterinários também precisam inspecionar os animais até 24 horas antes do embarque. Além disso, qualquer ferida visível deve receber o tratamento indicado pelas autoridades sanitárias.

Já um cavalo que cruza o rio clandestinamente passa longe de todo esse processo.

Moscas estéreis viraram arma contra o parasita

Os Estados Unidos conhecem bem esse inimigo. O país conseguiu eliminar a bicheira de seu território na década de 1960.

Para isso, adotou uma estratégia que parece contraditória: combater moscas com mais moscas.

Especialistas produzem machos em grande quantidade, esterilizam esses insetos e depois os soltam no ambiente. Quando eles cruzam com fêmeas selvagens, não geram descendentes. Assim, a população do parasita diminui gradualmente.

Agora, essa velha estratégia voltou a ganhar escala. As autoridades americanas chegaram a reorganizar a liberação de cerca de 100 milhões de moscas estéreis por semana para reforçar a proteção da fronteira.

O tamanho da operação tem uma explicação.

No Texas, especialistas calculam que uma disseminação ampla da bicheira poderia provocar até US$ 1,8 bilhão em prejuízos.

Um surto não significa apenas animais doentes ou mortos. Ele também aumenta os gastos com tratamento e manejo, além de ameaçar o transporte e o comércio de animais.

Por isso, os cavalos encontrados às margens do Rio Grande representam apenas a parte visível do problema.

Para a pecuária, a maior preocupação está justamente nos animais que conseguem cruzar a fronteira sem que ninguém perceba.