Créditos de carbono, pagamento por serviços ambientais e ativos de natureza ampliam possibilidades, mas dependem de regularidade, dados e comprovação
Foto: Reprodução/ Divulgação

O produtor rural pode encontrar novas fontes de receita na conservação ambiental, na recuperação de áreas e na adoção de práticas sustentáveis. Créditos de carbono, pagamento por serviços ambientais (PSA) e ativos ligados à biodiversidade estão entre os instrumentos que buscam transformar resultados ambientais em valor econômico. Para acessar essas oportunidades, porém, é necessário organizar as informações da propriedade, cumprir exigências legais e comprovar os benefícios gerados.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Além de influenciar a produtividade e os riscos da atividade, o clima e a conservação dos recursos naturais passaram a ter peso nas decisões de financiamento e nas exigências de mercado. Nesse cenário, a gestão ambiental deixa de se limitar ao cumprimento de obrigações e passa a integrar o planejamento econômico da fazenda.

Segundo Ana Luci Grizzi, especialista em governança de clima e natureza, o primeiro passo é conhecer a situação da propriedade e reunir informações confiáveis sobre o uso da terra e as práticas adotadas.

“Clima e natureza já estão entrando na conta do produtor. Isso aparece no acesso ao crédito, nas condições de financiamento, nas exigências de mercado e também em novas possibilidades de geração de valor. O ponto é que essas oportunidades não começam na venda de um crédito ambiental, mas na organização da propriedade, na qualidade dos dados e na capacidade de comprovar as práticas adotadas”, afirma.

Crédito rural incorpora critérios ambientais

Uma das conexões entre sustentabilidade e resultado financeiro está no crédito rural. O Plano Safra 2026/27 prevê desconto de até um ponto percentual nas taxas de custeio, combinando a regularidade do Cadastro Ambiental Rural (CAR) com a adoção de práticas sustentáveis, conforme as condições estabelecidas para o benefício.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Também existem linhas de financiamento voltadas a iniciativas como recuperação de pastagens e adequação ambiental. Ao mesmo tempo, a situação ambiental do imóvel pode influenciar a análise de acesso a recursos financeiros.

Por isso, manter a documentação em ordem e acompanhar as condições ambientais da fazenda pode ajudar o produtor a avaliar as alternativas disponíveis.

“O produtor que conhece a situação ambiental da fazenda, mantém seus dados organizados e consegue demonstrar as práticas adotadas está mais preparado para acessar os instrumentos que começam a surgir. Governança passa a funcionar não apenas como proteção contra riscos, mas também como uma condição para capturar oportunidades”, explica Ana Luci.

Carbono tem potencial, mas não garante receita

O mercado de carbono é uma das frentes que despertam interesse no agronegócio. Estudo da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) estima que o setor agropecuário brasileiro tenha potencial para ofertar até 314 milhões de créditos de carbono até 2035.

No cenário conservador considerado pelo levantamento, a receita potencial é estimada em R$ 3,85 bilhões. Os valores são projeções, e não receitas já contratadas ou garantidas. A concretização desse potencial depende de fatores como demanda, preços, metodologias aplicáveis e cumprimento dos requisitos de certificação.

Na prática, um produtor não gera créditos comercializáveis apenas por adotar uma prática considerada sustentável. É necessário verificar se a atividade atende aos critérios do programa ou da metodologia escolhida, se os resultados podem ser mensurados e se há condições para comprovar que os benefícios ambientais foram efetivamente alcançados.

“Existe um potencial relevante, mas carbono não pode ser tratado como receita automática. É preciso avaliar metodologia, adicionalidade, capacidade de mensuração, certificação e demanda. Antes de pensar em vender um crédito, o produtor precisa saber se a prática adotada efetivamente reúne as condições necessárias para gerar esse ativo”, ressalta a especialista.

A adicionalidade é um dos conceitos centrais desse processo. Em termos simples, significa demonstrar que o benefício ambiental atribuído ao projeto vai além do que ocorreria sem a iniciativa. As exigências variam conforme a metodologia utilizada.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Pagamento por serviços ambientais remunera conservação

Outra possibilidade é o pagamento por serviços ambientais (PSA). O mecanismo prevê a remuneração de pessoas ou organizações que contribuem para manter, recuperar ou melhorar serviços prestados pelos ecossistemas.

Na propriedade rural, essas iniciativas podem estar relacionadas à conservação da vegetação nativa, à proteção de recursos hídricos e à recuperação de áreas degradadas, desde que atendam aos critérios do programa ou contrato correspondente.

O funcionamento depende, contudo, das condições de cada iniciativa. É preciso verificar quem financia os pagamentos, quais ações são elegíveis, como os resultados serão avaliados e quais compromissos o proprietário deverá assumir.

“O PSA ajuda a construir uma lógica em que conservar também pode gerar valor. Mas, para isso funcionar na prática, precisamos de mecanismos acessíveis ao produtor, critérios claros e capacidade de demonstrar o serviço ambiental que está sendo prestado”, afirma Ana Luci.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Dessa forma, o PSA pode aproximar a conservação da natureza da atividade econômica rural. Isso não significa, porém, que toda área preservada gere automaticamente um pagamento. A remuneração depende da existência de um mecanismo aplicável e do atendimento às suas regras.

Biodiversidade amplia a discussão no campo

Além do carbono e dos serviços ambientais, os ativos ligados à natureza começam a ganhar espaço nas discussões sobre financiamento e conservação. A proposta é reconhecer resultados positivos associados à biodiversidade, aos ecossistemas e aos serviços que eles oferecem.

Esse mercado ainda está em desenvolvimento. Por isso, a avaliação de projetos exige atenção às metodologias, aos critérios de mensuração e à credibilidade das certificações. A existência de benefícios ambientais, por si só, não garante que eles possam ser convertidos em um ativo comercial.

Para Ana Luci, o tema merece atenção do agronegócio brasileiro porque a produção depende diretamente de recursos naturais, como solo, água e vegetação.

“Os créditos de natureza ainda estão em construção e precisam ser tratados com cautela. Mas existe um movimento importante para reconhecer economicamente resultados positivos para a biodiversidade. Para o Brasil, que reúne uma parcela significativa do capital natural global e tem no agronegócio uma atividade diretamente dependente desses recursos, acompanhar essa discussão é ação estratégica”, avalia.

Organização da fazenda vem antes da receita

Apesar das diferenças entre crédito rural com critérios ambientais, créditos de carbono, PSA e ativos de natureza, essas alternativas têm um requisito em comum: o produtor precisa conhecer a situação da propriedade e demonstrar as práticas adotadas.

Isso envolve verificar a regularidade do imóvel e do CAR, acompanhar o histórico de uso da terra, identificar riscos climáticos e manter registros de manejo. Também é importante estabelecer referências que permitam comparar os resultados ambientais ao longo do tempo.

Essas informações ajudam a avaliar quais iniciativas são viáveis para cada propriedade. Também permitem identificar exigências que precisam ser atendidas antes da adesão a um projeto ou programa.

“Não adianta o produtor olhar para carbono, PSA ou biodiversidade apenas quando surgir uma oportunidade de receita. A preparação precisa vir antes. Quem estrutura hoje sua governança de clima e natureza, ou seja, seus dados, conhece seus riscos e mantém a propriedade regular terá mais condições de acessar crédito, atender às exigências de mercado e avaliar quais dessas novas fontes de receita realmente fazem sentido para o negócio”, conclui Ana Luci.

O avanço desses instrumentos abre possibilidades para o campo, mas exige análise individual de cada oportunidade. Antes de investir em um projeto ambiental, o produtor precisa conhecer os custos, as obrigações envolvidas, os critérios de validação e a existência de compradores ou financiadores. A viabilidade econômica depende da combinação desses fatores, e não apenas do potencial ambiental da propriedade.