Holding com forte atuação no agronegócio enfrenta crise de liquidez e aciona Justiça para reestruturar passivo bilionário e proteger mais de 10 mil empregos

A holding financeira Fictor protocolou neste domingo (1º) pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), revelando um passivo de R$ 4 bilhões. A medida atinge diretamente a Fictor Holding e a Fictor Invest, braços financeiros de um conglomerado que opera em setores estratégicos da economia brasileira, com destaque especial para o agronegócio, além de gestão de recursos, pagamentos, energia e imóveis.

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Fundada em 2007, a Fictor construiu um império empresarial diversificado que soma cerca de 30 empreendimentos avaliados em mais de US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 5,2 bilhões). No setor de alimentos e agronegócio, o grupo possui participação relevante através da Fictor Alimentos S.A., empresa listada na B3, que representa um dos principais ativos do conglomerado.

A subsidiária dedicada ao agronegócio deve manter suas operações normalmente, segundo comunicado oficial da empresa. Contratos com produtores rurais, fornecedores e clientes do setor alimentício não serão afetados pelo processo de recuperação judicial, que se concentra exclusivamente nas holdings financeiras do grupo.

Crise de liquidez após tentativa frustrada de comprar o Banco Master

A situação financeira da Fictor deteriorou-se drasticamente após o episódio envolvendo o Banco Master. Em novembro de 2024, a holding anunciou a compra da instituição financeira, comprometendo-se a injetar mais de R$ 3 bilhões na operação. O anúncio ocorreu apenas um dia antes de o Banco Central decretar a liquidação do Master.

A operação foi barrada pelo BC, e o Banco Master, juntamente com Will Bank e Letsbank, entraram em processo de liquidação. O movimento deixou a Fictor exposta financeiramente e desencadeou uma série de questionamentos judiciais sobre atrasos no pagamento de dividendos a investidores.

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Bloqueio judicial e problemas de garantias

No dia 27 de janeiro, o TJSP determinou o bloqueio de R$ 150 milhões das contas da Fictor após uma operadora de meios de pagamento denunciar a retirada irregular de recursos de uma conta de garantia. Segundo o contrato, a holding deveria manter esse montante como proteção contra inadimplência.

A decisão judicial reconheceu o risco de que a crise do Banco Master tivesse comprometido a liquidez da Fictor, especialmente considerando possíveis aquisições de ações do banco antes da conclusão oficial do negócio.

Pedido de recuperação judicial e proteção aos credores

No pedido protocolado, a Fictor solicitou tutela de urgência para suspender execuções e bloqueios por 180 dias. A medida visa, segundo a empresa, “reduzir o risco de corridas individuais que pressionem ainda mais a liquidez e prejudiquem uma solução coletiva e equânime”.

A maior parte dos credores é composta por sócios participantes dos negócios oferecidos pela holding. Segundo o advogado Carlos Deneszczuk, do Dasa Advogados, o objetivo é evitar que empresas economicamente viáveis — como a operação no agronegócio — sejam prejudicadas por restrições típicas de processos recuperacionais.

Reestruturação e proteção de empregos

Em comunicado oficial, a Fictor afirmou que a recuperação judicial “busca criar um ambiente de negociação estruturada e com tratamento isonômico, que possa garantir a continuidade das atividades de forma sustentável”. A empresa destaca que mais de 10 mil empregos diretos e indiretos estão em jogo, incluindo trabalhadores do setor de alimentos e agronegócio.

A holding já iniciou um plano de reestruturação que inclui redução da estrutura física e do quadro de colaboradores. A empresa afirmou que tomou essas medidas antes do pedido de recuperação judicial “para proteger os direitos dos colaboradores e agilizar o recebimento das indenizações trabalhistas”.

Versão da empresa sobre a crise

Até o dia 14 de janeiro, a Fictor negava cenário de insolvência e prometia regularizar os pagamentos aos investidores até 12 de fevereiro. A empresa atribuiu a crise a um “desafio temporário de liquidez e de timing operacional”, agravado pela tentativa frustrada de comprar o Master e por ajustes em relações com fornecedores estratégicos.

Segundo a holding, a repercussão negativa da operação com o Banco Master gerou “especulações de mercado” e um volume de notícias que prejudicaram ainda mais a liquidez do grupo. Na manhã desta segunda-feira (2), o site da Fictor chegou a sair do ar, retornando horas depois.

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Perspectivas para o agronegócio

Apesar da turbulência financeira nas holdings, analistas apontam que as operações da Fictor no agronegócio podem ser um dos ativos mais valiosos para a reestruturação. A Fictor Alimentos S.A., listada em bolsa, possui contratos de longo prazo e uma base de clientes consolidada, o que pode atrair interesse de investidores durante o processo de recuperação judicial.

A continuidade das atividades no setor alimentício e agrícola será crucial para manter o fluxo de caixa do grupo e viabilizar o plano de reestruturação da dívida de R$ 4 bilhões nos próximos meses.