Resumo da notícia
- A lula possui uma estrutura interna chamada gládio, que sustenta o manto e é resultado da concha ancestral dos moluscos, permitindo movimentos rápidos e precisos na água.
- O nome popular "pena" vem do uso antigo da ponta fina do gládio para escrever com a tinta da lula, não por semelhança com penas de aves.
- A lula tem três corações e sangue azul, além de ser um recurso importante para a pesca em São Paulo, monitorada para garantir a sustentabilidade dos estoques.
Quem limpa uma lula em casa esbarra numa estrutura fina, transparente e rígida escondida no dorso do animal. Muita gente chama essa peça de “pena” ou, informalmente, de “coluna“. Mas ela não é osso nem coluna vertebral.
Na verdade, a estrutura vem da concha dos ancestrais dos moluscos. Ao longo da evolução, essa concha foi parar dentro do corpo da lula.
Por que a lula tem essa estrutura interna
A lula é um molusco chamado “univalve”: possui uma única peça equivalente a uma concha. Ostras, mexilhões e vieiras, parentes próximos das lulas, têm duas valvas externas. A lula, porém, internalizou e modificou essa estrutura ao longo do tempo.
Fábio Sussel, pesquisador do Instituto de Pesca (IP-APTA), compara a peça a uma coluna. Segundo ele, a estrutura sustenta o manto, o “canudo” que forma o corpo do animal. Sem ela, o manto ficaria mole demais e perderia a sustentação necessária.
De onde vem o nome “pena”
O nome técnico da estrutura é gládio. Já “pena” é apenas o apelido popular, e a origem dele é curiosa.
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A ponta do gládio é fina e pontiaguda. Antigamente, as pessoas usavam essa ponta com a própria tinta da lula para escrever cartas, como fariam com uma caneta de pena. Por isso a estrutura ganhou esse nome, e não porque lembra a pena de uma galinha, explica Sussel.
Uma solução da evolução
O gládio resulta de milhões de anos de mudanças nos moluscos. Em diferentes grupos de cefalópodes, a concha ancestral foi reduzida, modificada, internalizada ou desapareceu por completo.
Nas lulas, o gládio permaneceu como suporte interno do manto. Essa solução evolutiva sustenta o corpo sem o peso de uma concha externa rígida. Por isso, os cefalópodes conseguem unir um corpo mole a movimentos rápidos e precisos na água.
Três corações e sangue azul
A “pena” é só uma das curiosidades na anatomia da lula. A mais surpreendente talvez seja o número de corações: são três ao todo.
Dois deles, chamados branquiais, bombeiam sangue até as brânquias. O terceiro, o coração sistêmico, distribui o sangue pelo resto do corpo. O sangue da lula também chama atenção: em vez de hemoglobina, ela usa hemocianina, uma proteína com cobre que deixa o sangue azulado quando oxigenado.
Importância para a pesca em São Paulo
Não existe cultivo comercial de lula hoje. Ainda assim, o animal tem peso relevante para a pesca.
O Instituto de Pesca monitora os estoques pesqueiros do Estado de São Paulo, e a lula aparece como um recurso importante nesse levantamento. Segundo Sussel, acompanhar esses estoques é essencial para garantir sua manutenção ao longo do tempo.
Conhecer melhor a anatomia da lula ajuda a entender o que está por trás desse alimento. Esse tipo de informação também tende a despertar interesse por espécies menos convencionais, mas saborosas e nutritivas.