Companhia suíça fecha unidades na Alemanha e na Hungria para reduzir custos, enquanto amplia fábricas e investimentos no Brasil
Foto: Divulgação

A Nestlé avança em uma ampla reestruturação global que elimina cerca de 16 mil postos de trabalho até o fim de 2027. Isso é o equivalente a 5,8% do quadro mundial de 277 mil colaboradores da companhia. Ao mesmo tempo, a multinacional suíça mantém o Brasil como prioridade estratégica e reserva R$ 7 bilhões em investimentos no país entre 2025 e 2028.

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O CEO Philipp Navratil anunciou o plano em outubro de 2025, meses depois de assumir o comando da empresa. “O mundo está mudando, e a Nestlé precisa mudar mais rápido”, declarou o executivo, ao justificar a decisão como parte de um esforço para recuperar a confiança dos investidores e melhorar o desempenho financeiro do grupo.

Cortes atingem principalmente áreas administrativas

Do total de vagas eliminadas, 12 mil pertencem a funções administrativas e profissionais espalhadas por diferentes países. Enquanto outras 4 mil concentram-se em fabricação e cadeia de suprimentos. A empresa também elevou a meta de economia do programa de reestruturação para 3 bilhões de francos suíços (cerca de R$ 20,5 bilhões) até o fim de 2027. Um valor superior à projeção inicial de 2,5 bilhões de francos.

Além das demissões, a Nestlé encerra a produção em duas unidades europeias. Na Alemanha, a fábrica de Neuss, próxima a Düsseldorf, parou de fabricar itens como óleo, maionese e mostarda da marca Thomy depois de mais de um século de operação, afetando 145 trabalhadores. Já na Hungria, a unidade de Diósgyőr,especializada em chocolates sazonais das marcas KitKat e Smarties, encerra as atividades em dezembro por causa da queda na demanda por produtos de datas comemorativas. A empresa negocia a venda do complexo húngaro para tentar preservar empregos locais e garante que o KitKat continuará disponível nas prateleiras.

Reorganização segue turbulência na liderança

A reestruturação chega em meio a um período conturbado para a multinacional. Em setembro de 2025, a Nestlé demitiu o então CEO Laurent Freixe após uma investigação apontar que ele não havia divulgado um relacionamento com uma subordinada, em violação ao código de conduta da empresa. Navratil, executivo de longa data da companhia e ex-diretor da Nespresso, assumiu o cargo logo em seguida. O então presidente do conselho, Paul Bulcke, também deixou a função antecipadamente.

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Apesar da crise de governança, os resultados operacionais surpreenderam positivamente: as vendas do terceiro trimestre de 2025 cresceram 4,3% em base orgânica, superando as expectativas do mercado, e as ações da empresa saltaram cerca de 8% após o anúncio da reestruturação, a maior alta diária desde 2008. No primeiro semestre de 2026, a companhia registrou 43,1 bilhões de francos suíços em vendas e lucro líquido de 3,47 bilhões de francos.

Brasil recebe fábrica de R$ 2,5 bilhões enquanto Europa corta vagas

Enquanto reduz a estrutura na Europa, a Nestlé consolida o Brasil como polo estratégico de crescimento. Em março de 2026, a companhia inaugurou em Vargeão, no Oeste de Santa Catarina, a maior fábrica já construída pela Nestlé Purina no país. Uma unidade de R$ 2,5 bilhões dedicada à produção de alimentos úmidos (sachês) para cães e gatos. A planta usa tecnologias de Indústria 4.0 e opera com energia 100% renovável. E já exporta para o Chile, com expansão prevista para Colômbia e México até o fim de 2026.

A fábrica gera 140 empregos diretos, 44 indiretos e cerca de 200 terceirizados, além de ter mobilizado 7,2 mil trabalhadores durante a construção. Segundo o CEO da Nestlé Brasil, Marcelo Melchior, o investimento reforça a relevância do país “como um dos mercados mais promissores para o crescimento do negócio pet”.

A companhia não detalhou até agora se o Brasil será atingido pelo plano global de cortes. O país é hoje o segundo maior mercado da Nestlé fora da matriz suíça, com mais de 30 mil funcionários e produtos presentes em 99% dos lares brasileiros.

Além dos custos internos, a Nestlé enfrenta desafios como o aumento do preço do cacau e do café, elevação das tarifas de importação nos Estados Unidos e mudanças no comportamento de consumo, com consumidores cada vez mais atentos à saúde. Esses fatores reforçam a estratégia de concentrar recursos em categorias consideradas prioritárias, como petcare, café premium e nutrição. Ao mesmo tempo em que a empresa enxuga áreas de menor competitividade.