Resumo da notícia
- O custo de produção do alho em São Gotardo (MG) chegou a R$ 13,30/kg, superando em quase 21% o preço de venda médio de R$ 11,00/kg, gerando prejuízos de R$ 70 mil por hectare aos produtores.
- A crise na cadeia produtiva do alho, agravada por condições climáticas adversas e importações subcotadas da Argentina e China, levou o município a decretar situação de emergência econômica no setor.
- A Associação Nacional dos Produtores de Alho (ANAPA) enviou mais de 70 ofícios ao governo alertando sobre a crise e exige ação imediata para proteger os mais de 250 mil empregos sustentados pela cadeia produtiva do alho no Brasil.
Um dos principais polos produtores de alho do Brasil, o município de São Gotardo (MG), decretou situação de emergência econômica no setor agropecuário diante do agravamento da crise que atinge os produtores rurais da região. Para a Associação Nacional dos Produtores de Alho (ANAPA), a medida confirma oficialmente um cenário que a entidade vem denunciando ao Governo Federal há meses, e a associação agora exige uma reação imediata das autoridades.
O Decreto nº 263, publicado em 17 de agosto, reúne números que dimensionam a gravidade da crise na cadeia do alho. O custo de produção da cultura chegou a R$ 220 mil por hectare na safra de 2026, enquanto adversidades climáticas reduziram a produtividade média da safra precoce para 13,5 toneladas por hectare.
Preço de venda não cobre o custo de produção
Além dos problemas climáticos, o produtor enfrenta forte deterioração das condições de comercialização. Com base na Nota Técnica nº 01/2026 da ANAPA, o decreto registra que o alho mineiro tem sido vendido, em média, a R$ 11,00 o quilo na propriedade. Ou seja, abaixo do custo de produção, que soma R$ 13,30 o quilo. A conta resulta em um prejuízo líquido estimado em R$ 70 mil por hectare.
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O texto do decreto também aponta a pressão que as importações exercem sobre o mercado nacional. Entre os fatores que o município considerou estão as importações massivas e subcotadas provenientes da Argentina, com margem de dumping de 88,2%, além de questões relacionadas ao compromisso de preços aplicado ao alho chinês e decisões judiciais que permitem a entrada do produto estrangeiro sem o devido recolhimento do direito antidumping.
ANAPA afirma ter enviado mais de 70 ofícios ao Governo
O presidente da ANAPA, Rafael Cursino, afirma que a entidade vem apresentando sistematicamente ao Poder Executivo dados e propostas para evitar o agravamento da crise.
“Somente neste ano, a ANAPA encaminhou mais de 70 ofícios ao Executivo alertando sobre o que estava acontecendo. Mostramos o impacto dos juros elevados, a dificuldade financeira dos produtores e a concorrência predatória que estamos enfrentando com o alho importado. As autoridades foram avisadas de que poderíamos chegar a uma situação como esta”, afirma.
O próprio decreto municipal reconhece a gravidade das informações que a entidade apresentou. Entre os documentos que fundamentam tecnicamente a declaração de emergência estão o Ofício ANAPA nº 053/2026 e o respectivo Memorando Técnico sobre a cadeia produtiva do alho.
Para Cursino, o decreto de São Gotardo representa um sinal concreto de que a crise já não atinge apenas as propriedades rurais e começa a produzir consequências sobre toda a economia das regiões produtoras.
“Quando o produtor perde sua capacidade financeira, o impacto chega ao comércio, às revendas de fertilizantes e defensivos, às máquinas agrícolas, aos prestadores de serviços e aos trabalhadores. Existe todo um ecossistema econômico dependente da produção agrícola. É isso que estamos vendo ser colocado em risco”, alerta.
O Decreto nº 263 reforça essa relação ao apontar que a economia urbana, o setor de serviços, o comércio varejista e parte das receitas municipais dependem diretamente do fluxo de renda e do poder de compra que a agropecuária regional gera.
Associação cobra medidas de defesa comercial
Uma das principais cobranças da ANAPA mira uma resposta mais rápida dos órgãos federais responsáveis pela defesa comercial brasileira. A entidade afirma ter apresentado ao Governo Federal levantamentos sobre a concorrência que o alho brasileiro enfrenta, incluindo as condições de entrada dos produtos vindos da Argentina e da China, e cobra a conclusão das análises e a adoção das medidas cabíveis.
“Nós apresentamos os problemas e também apontamos caminhos para melhorar as condições do mercado e enfrentar a concorrência desleal. O setor produtivo fez a sua parte. Agora precisamos que os órgãos responsáveis analisem essas demandas e tomem as decisões necessárias com a urgência que a situação exige”, afirma Rafael Cursino.
Além das medidas de defesa comercial, a associação considera indispensável avançar em instrumentos de renegociação e alongamento das dívidas rurais, além de mecanismos de crédito capazes de preservar a capacidade produtiva dos agricultores.
O decreto de São Gotardo prevê articulação com a União, o Governo de Minas Gerais, instituições financeiras, cooperativas e entidades representativas. E estabelece como um de seus objetivos ampliar o acesso dos produtores a mecanismos de prorrogação, alongamento, renegociação e reestruturação de suas obrigações.
Crise ameaça mais de 250 mil empregos no país
A ANAPA alerta que a crise não deve ser tratada como um problema restrito a São Gotardo. A entidade acompanha dificuldades em outras regiões produtoras e teme que a deterioração econômica se espalhe pelos principais polos de produção de alho do país.
Levantamentos do setor relacionam a cadeia do alho a mais de 250 mil empregos. Isso somando os postos de trabalho diretos e indiretos vinculados à produção e às atividades que dependem dela.
“Estamos falando de uma cultura que gera muito emprego e renda e que foi construída ao longo de décadas no Brasil. Se não houver medidas urgentes, teremos produtores deixando a atividade, redução da produção brasileira e perda de empregos. O decreto de São Gotardo precisa ser entendido como um alerta para o país”, ressalta Cursino.
Segundo a associação, o momento exige uma atuação coordenada dos ministérios e órgãos federais responsáveis pela agricultura, comércio exterior, defesa comercial e política econômica.
“O produtor brasileiro não pede proteção contra a concorrência legítima. O que queremos é concorrência justa e condições para continuar produzindo no Brasil. Os estudos chegaram, os alertas foram emitidos e agora um município importante decreta emergência econômica. É hora de transformar os diagnósticos em medidas concretas”, conclui o presidente da ANAPA.