Semelhante a uma minhoca, espécie foi identificada no Rio de Janeiro após análises genéticas, morfológicas e de tomografia; nome homenageia uma mulher escravizada ligada ao reflorestamento da Floresta da Tijuca
As cecílias vivem debaixo da terra, cavando com a cabeça túneis e câmaras, onde depositam os ovos. Têm visão limitada e percebem o ambiente por órgãos sensoriais na cabeça
Foto: Miguel Relvas Ugalde/Fapesp

Uma nova espécie de anfíbio ampliou o conhecimento sobre a fauna brasileira. Batizada de Siphonops maria, a cecília vive principalmente sob o solo do Rio de Janeiro e passou a integrar oficialmente a lista de espécies conhecidas pela ciência.

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Embora tenha aparência semelhante à de uma minhoca, o animal pertence ao grupo dos anfíbios. Seu corpo alongado, os olhos reduzidos e os hábitos subterrâneos fazem com que ele passe grande parte da vida longe da superfície.

Análises revelaram uma linhagem diferente

A descoberta começou com a revisão de exemplares que haviam recebido outra classificação. Durante a análise, Adriano Oliveira Maciel, do Museu Paraense Emílio Goeldi, identificou diferenças no número de anéis corporais e na dentição.

Depois disso, a equipe comparou o material genético dos animais. Os resultados confirmaram que os exemplares pertenciam a uma linhagem distinta.

Os cientistas também analisaram características externas e estruturas internas. Para observar o crânio em detalhes, utilizaram tomografia computadorizada, técnica que permite examinar o material sem destruí-lo.

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O estudo ainda recuperou exemplares antigos. Um deles havia sido coletado em 1902, na Serra dos Órgãos. Naquele momento, ninguém havia identificado que o animal pertencia à linhagem posteriormente reconhecida como Siphonops maria.

Cecília passa a maior parte da vida no solo

As cecílias possuem hábitos fossoriais e passam grande parte do tempo enterradas. Elas utilizam o corpo e a cabeça para se deslocar pelo solo e raramente aparecem na superfície.

Esse comportamento dificulta o estudo do grupo. Além disso, espécies diferentes podem apresentar aparência muito semelhante, o que torna análises anatômicas e genéticas importantes para a identificação.

Embora por fotos possam se parecer com minhocas, as cecílias são vertebrados, ou seja, possuem esqueleto, além de serem muito maiores
Foto: Miguel Relvas Ugalde/Fapesp

A cecília-maria pode atingir cerca de 19 centímetros de comprimento. Seus olhos são pequenos e ficam cobertos pela pele. Na cabeça, estruturas sensoriais ajudam o animal a perceber o ambiente ao redor.

Por isso, a aparência não deve causar confusão: apesar de lembrar uma minhoca, o animal possui esqueleto e pertence ao grupo dos anfíbios.

Nome presta homenagem a Maria

O nome científico carrega também uma referência à história brasileira. Os pesquisadores escolheram maria em homenagem a uma mulher escravizada que participou do plantio de mais de 100 mil árvores na região da Floresta da Tijuca entre 1861 e 1874.

Maria integrou um grupo formado por 11 pessoas escravizadas envolvidas no reflorestamento da área.

Com o tempo, a região passou a fazer parte do Parque Nacional da Tijuca, uma das áreas protegidas de Mata Atlântica mais conhecidas do Rio de Janeiro.

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A escolha também ganhou um significado simbólico. Maria está entre os nomes femininos mais populares do Brasil, permitindo que a denominação científica faça referência à memória de mulheres que tiveram participação importante na história do país.

Pesquisa pode revelar outros animais

A investigação ainda levantou novas possibilidades. Durante as comparações, os cientistas encontraram outras linhagens que podem representar espécies ainda não descritas.

Uma delas reúne exemplares associados a Ubatuba, no litoral de São Paulo. Outra aparece em materiais coletados em Castelo e Domingos Martins, no Espírito Santo.

Por enquanto, a equipe precisa estudar mais exemplares para confirmar essas hipóteses. Ainda assim, o resultado mostra como coleções científicas podem preservar informações importantes durante décadas.

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A descoberta de Siphonops maria reforça, portanto, a importância de investigar ambientes pouco explorados. Mesmo em regiões conhecidas, animais que vivem sob o solo podem revelar novos capítulos da biodiversidade brasileira.

Fonte: Agência FAPESP.