Nova unidade de conservação no Rio de Janeiro busca preservar ecossistemas costeiros, contribuir para a recuperação dos estoques pesqueiros e valorizar comunidades tradicionais
pescadores com rede
Foto: GOV

O litoral do Rio de Janeiro ganhou uma nova área de proteção ambiental com a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual Marinha Urupirá, na Zona Oeste da capital. Com cerca de 3 mil hectares, a unidade busca conservar a biodiversidade marinha, proteger espécies ameaçadas e contribuir para a continuidade da pesca artesanal, atividade importante para as comunidades tradicionais da região.

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Criada por decreto estadual em outubro de 2026, a reserva se estende da Ilhota do Frade, em Barra de Guaratiba, até a Pedra do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes. A área reúne ilhas, costões rochosos e ambientes marinhos que oferecem abrigo, alimento e condições de reprodução para diferentes espécies.

Além de ampliar a proteção dos ecossistemas costeiros, a iniciativa procura conciliar a conservação ambiental com atividades econômicas que dependem da qualidade do mar. Dessa forma, a unidade também contempla o turismo sustentável e a valorização dos conhecimentos das populações que vivem da pesca.

Biodiversidade marinha reúne espécies de interesse pesqueiro

A importância ecológica da região aparece em levantamentos técnicos realizados para embasar a criação da reserva. Os estudos identificaram 102 espécies de peixes associadas aos recifes, incluindo três endêmicas do Brasil, ou seja, encontradas naturalmente apenas no país.

Desse total, 39 espécies têm interesse para a atividade pesqueira. Entre elas estão garoupas, corvinas, sargos, robalos e xaréus, peixes que contribuem para a diversidade marinha e integram a atividade econômica das comunidades locais.

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O levantamento também registrou 143 espécies de organismos bentônicos, grupo formado por animais que vivem no fundo do mar ou mantêm uma relação direta com esse ambiente. Entre os exemplos estão polvos e lagostas, que possuem importância ecológica e valor comercial.

Além disso, a região abriga espécies ameaçadas, como o coral-cérebro (Mussismilia hispida), a estrela-do-mar Astropecten brasiliensis e o ouriço-lilás (Lytechinus variegatus).

Esses ambientes desempenham funções essenciais para a vida marinha. Afinal, os recifes, as áreas rasas e os costões rochosos oferecem locais de alimentação, abrigo, crescimento e reprodução. Por isso, proteger esses espaços ajuda a manter a diversidade de espécies e os processos naturais que sustentam os ecossistemas.

Proteção pode contribuir para a recuperação dos estoques pesqueiros

A conservação dos habitats marinhos também tem relação direta com o futuro da pesca artesanal. Quando os ambientes de reprodução e crescimento permanecem em boas condições, as espécies encontram melhores condições para completar seus ciclos de vida.

Nesse contexto, a reserva busca contribuir para a conservação e a recuperação dos estoques pesqueiros, além de enfrentar ameaças como a pesca predatória e ilegal, o descarte inadequado de resíduos e a chamada pesca fantasma, causada por equipamentos de pesca perdidos ou abandonados no ambiente.

Entretanto, a criação da unidade, por si só, não comprova uma recuperação imediata das populações de peixes. Os resultados dependerão da implementação das medidas de proteção, do monitoramento ambiental e da participação das comunidades na gestão da área.

Por esse motivo, o acompanhamento científico será importante para avaliar as condições dos ecossistemas, identificar mudanças na presença das espécies e orientar as decisões de manejo.

Ao mesmo tempo, a participação dos pescadores pode aproximar o conhecimento tradicional das pesquisas científicas. Essa integração ajuda a reconhecer as características locais, os períodos de maior atividade pesqueira e as áreas utilizadas pelas comunidades ao longo do tempo.

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Comunidades tradicionais terão participação na gestão

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável é uma categoria de unidade de conservação que busca proteger a natureza sem desconsiderar os modos de vida das populações tradicionais. Assim, a proposta da Urupirá prevê a participação de representantes dessas comunidades nas decisões relacionadas ao território.

A unidade contará com um Conselho Deliberativo, formado por representantes do poder público, da sociedade civil, das populações tradicionais beneficiárias e de outros usuários cadastrados, conforme as regras estabelecidas para a gestão.

Entre as ações previstas estão o monitoramento participativo dos recursos pesqueiros, o incentivo à pesquisa científica, a educação ambiental e o fortalecimento da fiscalização. Além disso, a reserva deverá orientar o desenvolvimento do ecoturismo e da visitação pública de maneira compatível com os objetivos de conservação.

Na prática, esse modelo busca equilibrar a proteção da biodiversidade com as necessidades de quem depende diretamente do mar. Para isso, a participação social e a definição de regras de uso serão fundamentais para reduzir conflitos e tornar a gestão mais efetiva.

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Nome Urupirá resgata a história da região

A denominação da nova unidade também carrega um significado cultural. Urupirá é uma designação indígena ancestral atribuída à atual Ilha das Palmas, em Guaratiba, associada à expressão “cesto do peixe”.

O nome remete à relação histórica entre o território e a pesca, atividade que contribuiu para a identidade das comunidades locais. Dessa maneira, a reserva pretende reconhecer não apenas o valor ecológico da região, mas também os conhecimentos e as práticas tradicionais ligados ao ambiente marinho.

A criação da unidade ainda se relaciona aos compromissos internacionais de conservação da biodiversidade, incluindo a meta conhecida como 30×30, que prevê a proteção de pelo menos 30% das áreas terrestres e marinhas do planeta até 2030.

No entanto, para transformar essa iniciativa em resultados concretos, será necessário manter a fiscalização, acompanhar os indicadores ambientais e assegurar a participação das comunidades nas decisões.

Assim, a Reserva Marinha Urupirá representa um passo para integrar a proteção dos ecossistemas costeiros, a valorização da pesca artesanal e o uso sustentável dos recursos naturais. O avanço dependerá, sobretudo, da aplicação das medidas de gestão e da capacidade de conciliar a conservação do mar com as atividades de quem depende dele.