Pesquisa do Instituto de Pesca mostra que variedade amarela atingiu 300 gramas, contra 237 gramas da truta tradicional
Foto: Douglas Bete

Uma variedade amarela de truta-arco-íris apresentou peso 26,6% maior que o da linhagem comum em um experimento conduzido pelo Instituto de Pesca, em Campos do Jordão (SP). Ao final de 270 dias, os peixes amarelos atingiram aproximadamente 300 gramas, enquanto os de coloração tradicional chegaram a 237 gramas.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE
Foto: Agência Fapesp

O resultado surpreendeu os pesquisadores porque, normalmente, os peixes que preservam a coloração original da espécie apresentam melhor desenvolvimento do que aqueles com alterações genéticas associadas à pigmentação.

O estudo, que recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e saiu na revista científica Aquaculture Reports, aponta novas possibilidades para a produção comercial de trutas e para a pesca esportiva.

Truta amarela supera variedade comum após seis meses

Os pesquisadores acompanharam quatro variedades de truta-arco-íris (Oncorhynchus mykiss): selvagem, amarela, branca albina e azul-cobalto. Todas receberam a mesma alimentação e permaneceram em tanques com condições semelhantes de temperatura e qualidade da água.

Durante os primeiros quatro meses, a variedade selvagem, que apresenta coloração parda e pintas pretas, liderou o crescimento. Aos 120 dias, os animais dessa linhagem pesavam, em média, 54 gramas. Os albinos, que tiveram o pior desempenho durante todo o experimento, alcançaram apenas 33 gramas.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

A situação começou a mudar aos 180 dias. Nesse momento, as trutas amarelas atingiram 123 gramas, ultrapassando os 119 gramas registrados pela variedade comum.

A diferença aumentou até o encerramento do estudo, aos 270 dias. Enquanto os peixes amarelos chegaram a aproximadamente 300 gramas, os selvagens alcançaram 237 gramas e os albinos, 145 gramas.

“O desempenho do fenótipo amarelo foi uma surpresa, porque o selvagem é normalmente o que cresce mais. Os animais albinos geralmente têm uma menor eficiência na conversão de alimento em músculo e em outros parâmetros. A selvagem até cresceu mais no início do experimento, mas o crescimento desacelerou após 120 dias”, conta Vinicius Vasconcelos Silva, primeiro autor do estudo, realizado durante seu doutorado no Instituto de Pesca e na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (FZEA-USP), em Pirassununga.

Como os cientistas fizeram o experimento

A equipe realizou os testes no Núcleo Regional de Pesquisa em Salmonicultura Dr. Ascânio de Faria, em Campos do Jordão, unidade especializada no cultivo de espécies que precisam de temperaturas mais baixas.

Os pesquisadores cruzaram cinco machos albinos com 80 fêmeas da linhagem selvagem. A reprodução ocorreu em laboratório, por meio da mistura controlada de óvulos e esperma.

Experimento avaliou filhotes resultantes do cruzamento de fêmeas do fenótipo selvagem (à esquerda) com machos albinos brancos. Foto: Vander Bruno dos Santos/IP-Apta

Desse cruzamento nasceram aproximadamente 8.200 peixes, distribuídos de maneira equilibrada entre as quatro colorações.

Para acompanhar o desenvolvimento, os cientistas selecionavam 90 animais de cada variedade e realizavam pesagens aos 60, 120, 180 e 270 dias.

O peso final das trutas amarelas também chamou a atenção por ultrapassar os cerca de 250 gramas que representam um tamanho comercial comum para o consumo individual desse pescado no Brasil.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Maior peso pode abrir oportunidades para produtores

A diferença de crescimento sugere que a variedade amarela pode oferecer vantagens produtivas, mas os resultados ainda não permitem afirmar que sua criação seja economicamente mais rentável.

O peso de abate representa apenas um dos fatores que influenciam a atividade. O consumo de ração, a conversão alimentar, a sobrevivência dos animais e os custos de produção também determinam a rentabilidade.

No alto, da esq. para a dir., fenótipos selvagem e branco albino. Abaixo deles, amarelo e azul-cobalto: em experimento, o amarelo superou os outros três em desempenho. Foto: Vinicius Vasconcelos Silva/IP-Apta

Além do desempenho produtivo, os pesquisadores enxergam oportunidades comerciais na aparência dos peixes.

“A diferença na coloração tem potencial para aquicultura, podendo gerar diferentes produtos a partir da mesma espécie, mas principalmente para a pesca esportiva. Existe uma demanda por peixes diferentes em estabelecimentos de pesque e pague”, afirma Santos.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

A possibilidade de oferecer trutas com colorações distintas pode interessar especialmente aos estabelecimentos que procuram atrair pescadores por meio de espécies e variedades menos comuns.

Genes ligados à coloração podem influenciar crescimento

Os cientistas ainda investigam por que determinadas variedades de truta apresentam diferenças tão expressivas de desenvolvimento.

Além disso, pesquisas anteriores indicam que características genéticas associadas à pigmentação podem influenciar funções importantes do organismo, incluindo o metabolismo e o crescimento.

Um estudo apoiado pela FAPESP e publicado em 2020 na revista PLOS ONE identificou uma hipófise menor nas trutas brancas e azul-cobalto, em comparação com outras variedades.

Essa glândula participa da regulação hormonal e exerce funções relacionadas ao crescimento, ao metabolismo e à atividade de outras glândulas.

“Outros trabalhos sugerem que os genes ligados à cor podem afetar negativamente tanto o crescimento quanto as defesas do organismo”, lembra Santos.

Estudos também investigam possíveis relações entre a produção de melanina, a resposta ao estresse, o apetite e a imunidade dos peixes. Esses mecanismos, porém, ainda não explicam completamente as diferenças observadas no experimento.

Pesquisa busca ampliar o potencial comercial da truta

A produção brasileira de trutas gira em torno de 1,6 mil toneladas anuais, conforme os dados apresentados pelos pesquisadores. A atividade atende a um mercado específico, com consumidores que valorizam as características desse pescado.

Portanto, além de investigar diferenças de crescimento entre linhagens, a equipe do Instituto de Pesca trabalha em alternativas para aumentar o valor nutricional da espécie.

Uma das possibilidades envolve a chamada truta salmonada, que recebe alimentação específica para desenvolver coloração semelhante à do salmão.

A pesquisa com as variedades de truta integra o projeto “Avaliação do crescimento muscular de linhagens de trutas-arco-íris”, coordenado por Vander Bruno dos Santos, pesquisador do Instituto de Pesca.