Resumo da notícia
- Pesquisadores brasileiros e americanos criaram uma língua eletrônica capaz de detectar resíduos de cloxacilina, tetraciclina e estreptomicina em leite de vaca e cabra, mesmo com múltiplos antibióticos na mesma amostra.
- O sensor utiliza fibras de náilon revestidas com nanomateriais MXenes, que produzem sinais elétricos distintos para cada substância, permitindo identificar e diferenciar os antibióticos presentes no leite.
- A tecnologia ainda está em fase de testes laboratoriais, precisando de mais desenvolvimento antes de ser aplicada comercialmente em fazendas, laticínios ou órgãos de fiscalização.
Uma “língua eletrônica” desenvolvida por pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos detectou resíduos de cloxacilina, tetraciclina e estreptomicina em amostras de leite de vaca e de cabra. Além disso, o sistema identificou os antibióticos quando mais de uma substância estava presente na mesma amostra.
A pesquisa reuniu cientistas da Embrapa Instrumentação, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Drexel University, nos Estados Unidos. Os resultados foram publicados na revista científica ACS Omega. “Por meio de um dispositivo de baixo custo, cujos sensores são formados por fibras de náilon revestidas com diferentes MXenes, conseguimos detectar pequenas quantidades de antibióticos em leite e fazer a diferenciação entre amostras de leite de vaca e leite de cabra”, explica Murilo Facure, professor da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP) e primeiro autor do estudo.
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Como funciona a língua eletrônica
Apesar do nome, o equipamento não funciona como uma língua humana. Na prática, ele reúne diferentes sensores que reagem de maneiras distintas aos componentes presentes no leite. Em seguida, o sistema transforma essas reações em sinais elétricos, que os pesquisadores analisam com métodos estatísticos para reconhecer padrões relacionados aos antibióticos.
Nos testes, a equipe utilizou três sensores revestidos com diferentes tipos de MXenes.
O que são os MXenes
Os MXenes são uma família de nanomateriais bidimensionais formados por estruturas extremamente finas que combinam metais de transição com carbono, nitrogênio ou ambos. Eles apresentam boa condutividade elétrica e grande área de superfície. Além disso, sua composição pode variar, permitindo obter materiais com propriedades diferentes.
Essa característica ajuda os sensores a produzirem respostas distintas quando entram em contato com as substâncias presentes no leite. A combinação dos sinais, então, permite identificar os resíduos de antibióticos.
Fibras de náilon ajudam a simplificar o sensor
Outro diferencial está no material usado na fabricação. Em pesquisas anteriores, os cientistas utilizavam eletrodos de ouro. Desta vez, porém, empregaram fibras de náilon revestidas com MXenes.
A combinação de diferentes sensores permite analisar a amostra sem depender de um único sensor para cada antibiótico. Além disso, a estratégia pode contribuir, futuramente, para a criação de dispositivos mais simples e potencialmente mais acessíveis.
Tecnologia ainda está em fase de testes
Apesar dos resultados, a língua eletrônica ainda não está disponível comercialmente para uso em fazendas, laticínios ou órgãos de fiscalização. Os pesquisadores realizaram os experimentos em laboratório e sob condições controladas. Portanto, novas etapas de desenvolvimento e validação ainda serão necessárias antes de uma eventual aplicação em situações reais.
Mesmo assim, a capacidade de detectar três antibióticos e identificar amostras com mais de uma substância indica potencial para futuras ferramentas de análise de resíduos no leite. Além dessa aplicação, os pesquisadores estudam os MXenes em áreas como armazenamento de energia, remoção de poluentes e desenvolvimento de nanogeradores.