Estudo da PUC-SP em Sorocaba testou o material em laboratório e obteve resultados positivos contra infecção, inflamação e perda óssea nos dentes
Jaca na arvore
Foto: Cícero R. C. Omena/Flickr

Pesquisadores brasileiros desenvolveram um biomaterial que combina látex de jaca, extrato de casca de romã e sinvastatina, medicamento à base de estatinas. Em testes de laboratório, a formulação demonstrou potencial para tratar a periodontite, doença que compromete os tecidos de sustentação dos dentes.

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A equipe conduziu o estudo na Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde (FCMS) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em Sorocaba, com apoio da FAPESP (projetos 23/17083-8 e 23/12039-0). A revista Polymer Bulletin publicou os resultados.

O que é a periodontite

A periodontite é uma doença inflamatória crônica de origem infecciosa. Ela destrói progressivamente os tecidos que sustentam os dentes, provoca reabsorção óssea e pode levar à perda dentária.

Os tratamentos convencionais controlam a infecção e a inflamação, mas raramente promovem a renovação efetiva dos tecidos periodontais. Por isso, apresentam resultados limitados a longo prazo. Técnicas como a regeneração tecidual guiada e o enxerto ósseo já tentaram resolver esse problema, porém seus efeitos clínicos ainda variam de forma imprevisível entre os pacientes.

Por que o látex de jaca chamou a atenção dos pesquisadores

Para superar essas limitações, a equipe decidiu explorar biomateriais naturais e bioativos capazes de atuar de forma integrada sobre o problema. O látex extraído da jaca despertou interesse por sua característica adesiva.

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“Começamos a ver o látex extraído da jaca como uma alternativa interessante, pois ele apresenta uma característica adesiva. Isso nos fez pensar que ele poderia permanecer mais tempo no local afetado pela periodontite, favorecendo a liberação mais direcionada dos compostos terapêuticos e, potencialmente, reduzindo a necessidade do uso sistêmico de antibióticos”, explica a professora Eliana Aparecida de Rezende Duek, do Departamento de Cirurgia da FCMS, que coordenou a pesquisa.

Como funciona a combinação dos três ingredientes

Os cientistas combinaram o látex com dois outros componentes ativos. O extrato de casca de romã contribui com reconhecido potencial antimicrobiano para aplicação local. Já a sinvastatina oferece atividade anti-inflamatória e estimula a formação óssea, propriedade amplamente estudada pela ciência.

Essa combinação resultou em uma matriz mucoadesiva, ou seja, um material capaz de aderir às mucosas do corpo e atuar diretamente no local da lesão.

A aplicação local também aumenta a eficácia da sinvastatina. Quando administrado por via oral, o fármaco fica predominantemente retido no fígado, e apenas uma fração pequena atinge a circulação sistêmica. Essa limitação exige doses mais altas, que elevam o risco de efeitos adversos, incluindo degeneração muscular aguda. A aplicação direta no local afetado evita esse entrave.

Como os pesquisadores testaram o material

A equipe extraiu manualmente o látex de jacas recém-colhidas e o submeteu a um processo de purificação. Em seguida, incorporou o extrato de casca de romã à matriz. Ao longo do estudo, os pesquisadores realizaram uma série de caracterizações físico-químicas e biológicas para compreender a estrutura e o comportamento do material.

Para avaliar a eficácia do biomaterial, a equipe conduziu um ensaio in vitro com células-tronco derivadas de tecido adiposo humano. Os testes usaram três concentrações diferentes de sinvastatina (0,3%, 0,6% e 1,2%), que não alteraram a estrutura do gel e se mostraram tecnicamente seguras.

Todas as concentrações aumentaram a osteoindução, processo em que as células-tronco se diferenciam em osteoblastos, as células responsáveis pela formação de novo tecido ósseo. Os pesquisadores observaram esse efeito após 14 dias, e ele se tornou ainda mais pronunciado após 21 dias, o que reforça o potencial do material para tratar a periodontite.

Próximos passos da pesquisa

“De forma geral, os resultados foram bastante animadores para nós. Observamos que o biomaterial desenvolvido apresenta um grande potencial para aplicações futuras no tratamento da periodontite e até em outras áreas, especialmente por envolver um material ainda pouco explorado na literatura científica para uso biomédico”, afirma Duek.

Apesar dos resultados promissores, a pesquisadora pondera que a equipe ainda precisa vencer etapas importantes antes de levar o biomaterial à prática clínica, como testes em animais e, posteriormente, em

Thais Szegö | Agência FAPESP