Pesquisadores do Kew Gardens germinam sementes coletadas em penhasco de difícil acesso na Ilha Robinson Crusoé
Foto de árvore Dendroseris neriifolia ameaçada de extinção
Foto: Flavien Saboureau / Flickr

Na Ilha Robinson Crusoe, no arquipélago chileno de Juan Fernández, no Pacífico Sul, uma árvore se agarra precariamente à encosta de um penhasco íngreme. Ela representa o último indivíduo conhecido em estado selvagem de Dendroseris neriifolia. Para evitar a extinção total da espécie na natureza, conservacionistas coletaram recentemente sementes da árvore e iniciaram testes de cultivo.

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O gênero Dendroseris reúne 11 espécies, todas exclusivas do arquipélago de Juan Fernández. As árvores produzem flores marcantes em tons de amarelo, laranja ou branco, mas a degradação intensa do habitat, a presença de plantas invasoras e os danos causados por mamíferos introduzidos, como cabras e roedores, quase dizimaram a população do gênero.

Segundo Paulina Hechenleitner, pesquisadora associada do Royal Botanic Gardens, Kew, no Reino Unido, apenas um indivíduo selvagem de D. neriifolia, classificada como criticamente ameaçada, ainda resiste na Ilha Robinson Crusoe, uma das três principais ilhas do arquipélago.

Essa árvore, que os pesquisadores estimam ter cerca de 150 anos, ocupa um penhasco remoto. “É extremamente difícil de acessar, exigindo trabalho de campo especializado e planejamento cuidadoso para evitar qualquer dano”, explicou Hechenleitner por e-mail.

Uma coleta de sementes contra o tempo

Todos os anos, conservacionistas locais tentam coletar sementes dos frutos da árvore, que produzem apenas uma semente cada. A frutificação, no entanto, é irregular: em algumas temporadas, os frutos geram poucas ou nenhuma semente viável, segundo Hechenleitner.

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Neste ano, a equipe coletou cerca de 400 sementes. Desse total, 29 apresentaram potencial de viabilidade e seguiram para o Millennium Seed Bank (MSB), em Kew, o maior programa de conservação de sementes de plantas silvestres do mundo. Ali, pesquisadores usaram imagens de raio-X para confirmar que 24 sementes tinham embriões em desenvolvimento.

A equipe do MSB dividiu essas 24 sementes viáveis em três grupos de oito. “Testamos as primeiras oito para germinação, para verificar se tínhamos as condições adequadas”, contou Alice Hudson, responsável por parcerias do MSB em Kew, à Mongabay por e-mail. “Agora que sabemos que a metodologia funciona, planejamos germinar outras oito sementes. As oito restantes ficarão armazenadas no MSB para conservação de longo prazo.”

Mudas vão reforçar coleções e futuras reintroduções

Jardins botânicos do Reino Unido vão receber as mudas para aprimorar e otimizar métodos de cultivo e propagação sob diferentes condições, afirmou Hechenleitner. “Aumentar a produção de sementes é fundamental para fortalecer as coleções em bancos de sementes e gerar material que possa, no futuro, ser repatriado ao Chile para restauração de habitats. A coleta contínua de sementes da última árvore selvagem, sempre que houver produção viável, ajudará a preservar a diversidade genética remanescente.”

O projeto tem como objetivo final restaurar populações selvagens da espécie. Para isso, porém, os pesquisadores precisarão investir a longo prazo em restauração de habitat, controle de espécies invasoras, monitoramento e reintroduções cuidadosamente planejadas, destacou Hechenleitner.

Um elo essencial na cadeia ecológica

A sobrevivência das árvores do gênero Dendroseris importa também para as espécies que dependem delas, como o beija-flor-de-fogo-de-Juan-Fernández (Sephanoides fernandensis), também criticamente ameaçado, que se alimenta do néctar produzido pelas flores dessas árvores.

“Esse gênero [Dendroseris] ocorre apenas nas Ilhas Juan Fernández; se for perdido, desaparece todo um grupo de espécies com diversidade única”, concluiu Hudson.