Resumo da notícia
- O bloqueio do estreito de Ormuz ameaça a produção global de fertilizantes, podendo reduzir até 10 bilhões de refeições semanais, segundo o CEO da Yara.
- Regiões vulneráveis como África, Ásia e América Latina serão as mais afetadas, com aumento da fome e queda significativa na produção agrícola.
- A alta nos preços dos fertilizantes e alimentos deve se intensificar nos próximos meses, impactando especialmente países em desenvolvimento e consumidores globais.
O bloqueio das rotas marítimas pelo estreito de Ormuz, provocado pelo conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, pode retirar até 10 bilhões de refeições semanais da mesa de pessoas ao redor do mundo. O alerta vem de Svein Tore Holsether, presidente-executivo da Yara, um dos maiores produtores de fertilizantes do planeta.
“Até meio milhão de toneladas de fertilizante nitrogenado não estão sendo produzidas no mundo no momento”, afirmou Holsether em entrevista à BBC. “O que isso significa para a produção de alimentos? Estimaria até 10 bilhões de refeições que deixarão de ser produzidas a cada semana como resultado.”
Segundo as Nações Unidas, cerca de um terço dos fertilizantes globais, incluindo ureia, potássio, amônia e fosfatos, passam normalmente pelo estreito de Ormuz. Com o bloqueio, o preço dos fertilizantes já subiu 80% desde o início das hostilidades. A queda na aplicação de fertilizante nitrogenado pode reduzir a produtividade de algumas culturas em até 50% já na primeira safra.
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Os mais vulneráveis na linha de frente
O impacto não será distribuído de forma igualitária. África subsaariana, Ásia, Sudeste Asiático e América Latina concentram os maiores riscos imediatos. Regiões que já operam com subfertilização, como partes da África, podem enfrentar quedas ainda mais acentuadas na produção agrícola.
“Essa é uma situação em que as pessoas mais vulneráveis pagam o preço mais alto”, disse Holsether. “Nações em desenvolvimento não podem se dar ao luxo de acompanhar” uma disputa por alimentos com os países mais ricos.
O Programa Mundial de Alimentos da ONU estima que as consequências combinadas do conflito no Oriente Médio podem levar 45 milhões de pessoas a mais à fome aguda em 2026. Na Ásia e no Pacífico, a insegurança alimentar deve crescer 24%, o maior aumento relativo entre todas as regiões.
Efeito nos preços chega com atraso
As épocas de plantio variam conforme a região. O Reino Unido atravessa a alta temporada de plantio, enquanto agricultores asiáticos estão apenas começando o ciclo. Por isso, os efeitos da escassez de fertilizantes nos preços dos alimentos na Ásia só devem aparecer no fim do ano, quando colheitas menores chegarem ao mercado, ou simplesmente não chegarem.
“Se a crise se prolongar por mais tempo, veremos um impacto em culturas como o arroz nos próximos meses”, afirmou Paul Teng, pesquisador sênior em segurança alimentar em Cingapura.
No Reino Unido, a Federação de Alimentos e Bebidas projeta inflação alimentar de até 10% em dezembro. O Banco da Inglaterra prevê alta de 4,6% nos preços de alimentos até setembro, com pressão maior no final do ano.
Agricultores já sentem o aperto
Além dos fertilizantes, produtores rurais enfrentam uma combinação de pressões simultâneas: alta no preço do diesel, aumento de outros insumos e custos de energia mais elevados. O problema é que os preços das safras ainda não subiram na mesma proporção.
“Eles enfrentam custos de energia mais altos, o diesel para trator está aumentando, outros insumos estão aumentando, o custo do fertilizante está aumentando, mas os preços das safras ainda não acompanharam”, disse Holsether.
O executivo pediu aos países europeus, portanto, que avaliem com cuidado o impacto de uma guerra de preços por alimentos sobre as populações mais frágeis em outras partes do mundo. “De quem estamos tirando comida ao comprarmos, nessa situação?”, questionou.