Resumo da notícia
- O Brasil depende fortemente da importação de fertilizantes, representando mais de 80% do consumo, o que gera vulnerabilidade a crises internacionais e oscilações de preços.
- O projeto Profert, prestes a ser sancionado, oferece até R$ 10 bilhões em créditos fiscais para ampliar e modernizar a produção nacional de fertilizantes, buscando reduzir essa dependência.
- Conflitos globais e gargalos logísticos evidenciam a exposição do agronegócio brasileiro, tornando crucial o fortalecimento da indústria doméstica para garantir competitividade e segurança no abastecimento.
O Brasil construiu uma das maiores potências agrícolas do mundo, mas essa força esconde uma dependência que começa muito antes de a soja e o milho chegarem aos portos. Para produzir boa parte do que exporta, o país ainda importa um insumo essencial: os fertilizantes.
Mais de 80% dos fertilizantes consumidos no Brasil vêm do exterior. Em 2025, essas compras somaram US$ 15,5 bilhões, segundo o Banco Central. Além disso, o país respondeu por cerca de 8% do consumo mundial do insumo. Por isso, qualquer instabilidade nos grandes mercados fornecedores rapidamente vira preocupação para o agronegócio brasileiro.
O que é o Profert
Nesse cenário, seguiu para sanção presidencial o projeto que cria o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert). O Senado aprovou a proposta em 11 de agosto, depois de ela passar pela Câmara dos Deputados. Assim, o texto estabelece incentivos tanto para a instalação de novas fábricas quanto para a expansão e modernização de unidades já existentes.
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O programa poderá conceder até R$ 10 bilhões em créditos fiscais de tributos federais ao longo de cinco anos, com limite de R$ 2 bilhões por ano entre 2027 e 2031. Ainda assim, valores não utilizados poderão passar para o exercício seguinte. Caberá ao Poder Executivo definir, por meio de procedimento concorrencial, quais iniciativas receberão os benefícios.
Mais do que uma política de estímulo à indústria, portanto, o Profert toca em um ponto sensível do comércio exterior brasileiro: a exposição do país às oscilações de preços, aos gargalos logísticos e às crises geopolíticas que atingem grandes fornecedores internacionais.
Para Anna Dolores Sá Malta, presidente da Associação Brasileira de Direito Aduaneiro e Fomento ao Comércio Exterior, ampliar a capacidade produtiva doméstica pode reduzir essa exposição. Contudo, ela pondera que o resultado depende de fatores que vão muito além do benefício fiscal.
“O Brasil ocupa uma posição muito particular no comércio internacional. Somos extremamente competitivos na exportação agrícola, mas uma parcela essencial dessa produção depende de insumos adquiridos no exterior. Aumentar a produção nacional de fertilizantes pode reduzir essa vulnerabilidade, desde que o incentivo consiga se transformar em investimento, capacidade produtiva e competitividade”, afirma Sá Malta.
Uma dependência que atravessa fronteiras
Os últimos anos escancararam o tamanho dessa exposição. A guerra entre Rússia e Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, as oscilações no preço da energia e os problemas nas rotas internacionais de transporte mostraram como eventos a milhares de quilômetros das lavouras brasileiras interferem no custo de produção do país.
Além do volume, a concentração dos fornecedores agrava a vulnerabilidade do Brasil. Rússia, China e países do Oriente Médio têm peso importante no abastecimento nacional, o que deixa a cadeia mais suscetível a sanções, restrições comerciais, conflitos e dificuldades logísticas.
Nos fertilizantes nitrogenados, a conexão com a geopolítica fica ainda mais evidente. Em 2025, aproximadamente 22% das importações brasileiras desse segmento vieram do Oriente Médio, região que responde por cerca de 34% do comércio mundial de ureia — um dos fertilizantes nitrogenados mais usados.
Existe ainda uma ligação direta com o mercado de energia, já que o gás natural é uma das principais matérias-primas na fabricação de fertilizantes nitrogenados. Assim, uma escalada de tensões em regiões produtoras pode pressionar ao mesmo tempo energia, transporte e insumos agrícolas.
“Não se trata de defender o fim das importações. O comércio exterior é fundamental para o abastecimento e para a própria competitividade brasileira. A questão é o grau de dependência. Quanto mais concentrada estiver uma cadeia estratégica em fornecedores externos, maior será a exposição do país a acontecimentos sobre os quais ele não tem qualquer controle”, diz Anna Dolores.
Produzir mais não significa fechar os portos
O Profert tenta atuar justamente nessa diferença. Poderão concorrer aos benefícios empresas produtoras de fertilizantes sintéticos ou minerais e de suas matérias-primas, além de fabricantes de bioinsumos, biofertilizantes e remineralizadores. O texto também prevê instrumentos de financiamento de longo prazo e mecanismos vinculados à produção efetiva, o que amplia o alcance da política para além de um benefício tributário convencional.
Isso não significa, porém, que o Brasil está perto de deixar de importar fertilizantes. O Plano Nacional de Fertilizantes adotou uma perspectiva de longo prazo e estabeleceu a meta de reduzir gradualmente a dependência externa até 2050. Ou seja, a estratégia não parte da premissa de autossuficiência absoluta, mas de uma participação maior da produção doméstica no abastecimento.
Existem razões econômicas e estruturais para essa cautela. Construir uma fábrica de fertilizantes exige investimento elevado, disponibilidade de matérias-primas, energia, infraestrutura logística e escala. Mesmo depois de instalada, uma unidade brasileira precisa produzir a custos competitivos diante de fornecedores estrangeiros que, em alguns casos, têm vantagens significativas de acesso a recursos naturais ou energia. É justamente nesse ponto, destaca Anna Dolores, que a efetividade do Profert será testada.
“O incentivo fiscal é uma parte da equação. A empresa também olha para energia, logística, disponibilidade de matéria-prima, infraestrutura, tributação e previsibilidade regulatória. Se esses fatores não caminharem juntos, podemos ampliar a capacidade instalada sem necessariamente reduzir de maneira significativa a dependência das importações”, avalia.
Do fertilizante importado à soja exportada
O debate também revela uma aparente contradição da balança comercial brasileira. Afinal, o país figura entre os grandes fornecedores mundiais de alimentos e commodities agrícolas, mas precisa importar em larga escala um dos insumos fundamentais para sustentar essa produção.
Trata-se de um fluxo de duas mãos. Primeiro, navios chegam carregados de fertilizantes e matérias-primas que abastecem o campo. Meses depois, parte da produção obtida com esses insumos retorna aos portos em forma de soja, milho, açúcar, algodão e outros produtos destinados ao mercado internacional. Por isso, quando o custo do fertilizante sobe, o efeito não termina na importação: ele percorre toda a cadeia produtiva e pode alcançar a margem e a competitividade do produto exportado.
A questão ganhou ainda mais relevância diante das tensões geopolíticas recentes. Um estudo publicado este ano pelo Banco do Nordeste mostra que, em culturas como milho, trigo e soja, o fertilizante representa uma parcela expressiva do custo operacional. Assim, uma política voltada à produção doméstica também pode funcionar como estratégia de comércio exterior.
“Existe um efeito nos dois lados da balança. Uma menor exposição na importação de insumos pode trazer mais previsibilidade para a produção e contribuir para preservar a competitividade das exportações agrícolas. O importante é entender que uma coisa está diretamente ligada à outra”, explica Anna Dolores.
A disputa será pela competitividade
O Profert terá ainda um mecanismo voltado à inserção do produto nacional no mercado. O texto prevê que o Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (Confert) estabeleça um percentual obrigatório de mistura, em volume, de fertilizantes nacionais aos produtos comercializados, distribuídos e vendidos no país.
Essa meta começará em 2% e deverá crescer gradualmente até chegar a 10% em 2031. O conselho também acompanhará os resultados do programa e publicará avaliações anuais.
A medida pode garantir demanda para parte da produção doméstica, mas também levanta uma questão que acompanhará o programa nos próximos anos: quanto custará produzir no Brasil?
“Se o produto nacional chegar ao mercado significativamente mais caro que o importado, o ganho em segurança de abastecimento poderá vir acompanhado de pressão sobre os custos. Se, ao contrário, os investimentos conseguirem criar escala e aumentar a eficiência da indústria brasileira, a política poderá começar a alterar uma relação comercial consolidada há décadas”, avalia Anna Dolores. “É por isso que o resultado não poderá ser medido apenas pelo volume de créditos fiscais concedidos ou pelo número de projetos habilitados.”
Por fim, ela destaca que será necessário observar quantas fábricas efetivamente sairão do papel, quanto a capacidade nacional aumentará, quais tipos de fertilizantes passarão a ser produzidos e qual parcela das compras externas poderá ser substituída sem comprometer a competitividade do agronegócio.