A Danone está fazendo movimentos opostos em dois importantes mercados. Enquanto prepara o fechamento de uma fábrica na Alemanha, a companhia amplia sua capacidade de produção no Brasil e aposta no crescimento dos alimentos ricos em proteína.

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A unidade alemã fica em Ochsenfurt, na Baviera, e deve encerrar as atividades no fim de 2026. A área industrial tem 3,4 hectares e seu futuro já entrou nas discussões do município alemão.

No Brasil, porém, o movimento segue outra direção.

A Danone inaugurou uma nova linha em sua fábrica de Poços de Caldas, em Minas Gerais, justamente para ampliar a fabricação de produtos de alta proteína.

O contraste chama atenção. Entretanto, mais do que revelar estratégias industriais diferentes, ele ajuda a entender uma transformação que começa no supermercado e chega até as fazendas produtoras de leite.

O Agro em Campo analisou os investimentos recentes da companhia no Brasil e os números de sua cadeia leiteira para entender o que está por trás dessa mudança.

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Quanto a Danone investe no Brasil?

Nos últimos dez anos, a Danone afirma ter investido quase R$ 1 bilhão em suas operações industriais brasileiras.

Parte desses recursos chegou à fábrica de Poços de Caldas, responsável por produtos das marcas Danone, YoPRO, Activia, Danoninho e Danette.

A expansão mais recente mira especialmente o mercado de alimentos proteicos. A empresa afirma que a procura por essa categoria deixou de ficar concentrada apenas entre atletas e passou a alcançar um público maior.

Esse movimento já aparece nas vendas. O YoPRO, lançado no Brasil em 2018, tornou-se uma das principais linhas da companhia no país.

Por que a proteína está mudando o mercado de leite?

Produtos proteicos interessam diretamente à cadeia leiteira porque whey protein e caseína são proteínas derivadas do leite.

Ao mesmo tempo, a demanda brasileira por whey aumentou. Dados de mercado indicam que o Brasil concentra cerca de 60% do consumo sul-americano de whey protein, enquanto a categoria avançou a uma média anual de 8% entre 2020 e 2025.

Além disso, o preço do concentrado de whey chegou a registrar alta de até 120% em um ano no país diante da oferta limitada.

Portanto, existe uma corrida não apenas pelo leite, mas também pelos componentes de maior valor que a indústria consegue retirar dele.

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Quantos produtores fornecem leite para a Danone?

É justamente aqui que a expansão industrial encontra o agronegócio.

Dados divulgados pela companhia indicam uma captação de aproximadamente 500 mil litros de leite por dia no Brasil, provenientes de cerca de 230 propriedades rurais.

Além disso, aproximadamente 60% do volume captado já vem de fazendas participantes da Jornada Flora, programa de agricultura regenerativa da empresa.

Entre os produtores envolvidos na iniciativa, 70% são pequenos, com produção de até 1.000 litros por dia.

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Assim, quando uma nova linha de lácteos entra em operação, existe uma cadeia rural por trás dela que envolve alimentação dos animais, genética, ordenha, armazenamento, transporte e qualidade do leite.

Danone oferece R$ 100 milhões em crédito para produtores

Outro número mostra a ligação entre a indústria e o campo.

A Danone e o Banco do Brasil anunciaram uma linha de R$ 100 milhões em crédito para produtores fornecedores de leite.

Os recursos podem financiar desde correção do solo e plantio de milho para alimentação dos animais até máquinas, equipamentos, centros de ordenha, Compost Barn e Free Stall.

Segundo a companhia, mais de 133 fornecedores já haviam sido beneficiados pelo programa.

Ao mesmo tempo, a Danone afirma ter reduzido em sua cadeia indicadores relacionados às emissões. Entre 2020 e 2025, o fator de emissão de CO₂ caiu 50%, enquanto o de metano recuou 43%.

Fechamento na Alemanha afeta produtores brasileiros?

Até agora, não há indicação de impacto negativo direto sobre os produtores de leite brasileiros.

O fechamento acontece na Alemanha e faz parte da reorganização industrial naquele mercado. No Brasil, ao contrário, os movimentos recentes são de investimento e ampliação de capacidade.

Por isso, seria incorreto relacionar o encerramento da fábrica alemã a uma redução das compras de leite no Brasil.

O que os dois movimentos mostram é outra transformação: a indústria está direcionando capital para categorias consideradas mais promissoras.

O que muda para a cadeia do leite no Brasil?

Para o produtor, o sinal mais relevante está na valorização de produtos de maior valor agregado.

O leite continua sendo a matéria-prima. Porém, o resultado econômico da cadeia depende cada vez mais daquilo que a indústria consegue produzir a partir dele.

Iogurtes proteicos, bebidas funcionais, whey protein e produtos de nutrição especializada ampliam essa possibilidade.

Assim, enquanto uma fábrica tradicional encerra uma história de décadas na Alemanha, a Danone coloca dinheiro em uma unidade brasileira voltada justamente para uma das categorias que mais crescem no setor.

Para o Agro em Campo, o contraste ajuda a responder uma pergunta maior: o mercado de proteínas pode mudar o destino do leite produzido nas fazendas brasileiras?

Os investimentos recentes indicam que essa transformação já começou.