Corridas de carros e caminhões testam biocombustíveis feitos com matérias-primas agrícolas e resíduos antes de aplicações mais amplas no transporte
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Corrida em Interlagos - Copa Truck. Foto: Duda Bairros/ Flickr.

As pistas de corrida estão se tornando ambientes de teste para combustíveis que podem chegar ao transporte convencional. Nesse cenário, o agronegócio participa com matérias-primas como soja, etanol, gordura animal e resíduos agrícolas. Além disso, as competições permitem que fornecedores testem os produtos sob altas rotações, cargas e temperaturas, enquanto as categorias buscam reduzir emissões sem comprometer o desempenho.

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“Automobilismo é uma vitrine. O combustível é testado nessas competições até que se consiga chegar a uma escala de produção para levar às ruas”, define Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA).

Soja abastece caminhões de corrida

Em 2026, a Be8 passou a fornecer o combustível utilizado pelos caminhões da Copa Truck. A empresa produz o BeVant em Passo Fundo (RS), onde também fabrica biodiesel. Segundo a companhia, soja, gordura animal e óleo de cozinha usado entram na produção. A soja representa 70% das matérias-primas utilizadas no combustível, de acordo com a empresa.

Na pista, o produto enfrenta condições severas. Assim, Camilo Adas, diretor da Be8, afirma que a empresa acompanha velocidade, rotação e carga térmica para coletar dados e aperfeiçoar o combustível. Além disso, a companhia afirma que o BeVant pode substituir o diesel fóssil em veículos pesados e máquinas agrícolas e divulga redução de até 99% das emissões em comparação com o diesel, considerando sua metodologia de cálculo.

Por isso, esse percentual precisa ser interpretado de acordo com a metodologia usada e com o ciclo de vida considerado.

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Brasil já testava etanol nas corridas

A ligação entre automobilismo e biocombustíveis começou décadas atrás. Naquele período, em 7 de setembro de 1979, o Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, recebeu o Festival do Álcool, com 13 baterias de corridas. A iniciativa ocorreu durante um período de forte pressão internacional sobre os preços do petróleo.

“Começamos a correr a álcool. No mundo todo não tinha isso, só no Brasil. Depois surgiram novas tecnologias de motores, e as provas voltaram a ser à gasolina, mas com mais etanol na mistura que em qualquer lugar do mundo”, lembra Gonçalves.

Atualmente, categorias como Nascar Brasil, Copa Hyundai HB20, Kartcross, Autocross e Turismocross utilizam etanol. Além disso, o Campeonato Brasileiro de Endurance combina gasolina e etanol.

Pistas aceleram testes de novas tecnologias

O automobilismo permite repetir testes em ambientes controlados e sob condições extremas. Dessa forma, fabricantes e fornecedores conseguem coletar dados antes de levar determinadas soluções ao mercado convencional.

Felipe Giaffone, piloto da Copa Truck e comentarista de automobilismo, resume esse papel: “E a corrida tem que seguir o mesmo padrão, com o diferencial de se poder desenvolver mais. Para a rua, precisa estar mais testado.”

No entanto, um combustível aprovado para competição ainda precisa superar etapas como regulamentação, escala de produção, infraestrutura e compatibilidade com motores. Portanto, o desempenho na pista representa apenas uma parte do caminho até uma aplicação comercial mais ampla.

Ao mesmo tempo, a FIA usa as competições para estimular esse desenvolvimento. Em 2026, a Fórmula 1 adotou combustível 100% sustentável e ampliou a participação da energia elétrica nos sistemas híbridos.

Bagaço de uva também vira combustível

A busca por matérias-primas alternativas chegou aos resíduos agroindustriais. No Campeonato Mundial de Endurance (WEC), por exemplo, o combustível renovável utiliza bioetanol produzido a partir de resíduos da vitivinicultura francesa, incluindo bagaços e borras de uva.

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Desde 2022, o combustível abastece os carros do campeonato. Posteriormente, a fornecedora apresentou uma nova formulação com óleos usados e resíduos de polpa de beterraba, madeira e indústria de papel.

Dessa maneira, a estratégia amplia o aproveitamento de materiais que antes poderiam ter menor valor econômico. Para o agro, isso abre espaço para novas cadeias de aproveitamento de resíduos e cria possibilidades além da produção convencional de culturas destinadas à energia.

Combustão e eletrificação avançam juntas

Enquanto algumas categorias investem em combustíveis renováveis, outras ampliam a eletrificação. Nesse sentido, os sistemas híbridos combinam as duas tecnologias.

Felipe Giaffone defende essa combinação. Da mesma forma, o professor Gonçalo Pereira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), considera o modelo híbrido uma alternativa eficiente e destaca o papel do etanol.

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“O etanol é uma bateria líquida: 60 litros equivalem a 1 tonelada de bateria metálica. Eu vou ter um motor a combustão que usa essa bateria, o biocombustível, e um pequeno motor elétrico para me dar uma resposta rápida”, afirma.

Por outro lado, Rogério Gonçalves avalia que motores a combustão abastecidos por combustíveis sustentáveis ainda terão espaço durante a transição energética.

Assim, as pistas funcionam como um laboratório para diferentes rotas tecnológicas. Para o agronegócio, isso significa novas possibilidades para matérias-primas como soja, cana, gorduras animais e resíduos agrícolas entrarem na cadeia de energia e transporte