Pesquisadores identificaram a Moraxella tarda em bovinos Hereford com sinais iniciais da doença; descoberta abre novas frentes para diagnóstico e imunização
nova bacetria
Animal infectado com ceratoconjuntivite bovina. O lacrimejamento é um dos principais sintomas da CIB - Foto: Luísa Berg/Embrapa.

Pesquisadores identificaram uma nova espécie de bactéria associada à ceratoconjuntivite infecciosa bovina (CIB), conhecida como “mal do olho” ou “cerato”. A Moraxella tarda foi encontrada na mucosa nasal de bovinos Hereford com sinais iniciais da doença e, agora, integra novas investigações sobre a enfermidade.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O estudo foi liderado pela Embrapa, em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e o Instituto Biológico de São Paulo. Inicialmente, os pesquisadores fizeram as coletas na Embrapa Pecuária Sul, no Rio Grande do Sul. Depois, realizaram as análises nos laboratórios da Embrapa Gado de Leite, em Minas Gerais, e da Embrapa Gado de Corte, em Mato Grosso do Sul.

Além disso, os pesquisadores compararam geneticamente os isolados com outras espécies do gênero Moraxella. Dessa forma, confirmaram que se tratava de uma espécie ainda não descrita. O trabalho foi publicado em 2026 na revista científica Current Microbiology.

O que diferencia a nova bactéria

A análise genética mostrou diferenças importantes entre a Moraxella tarda e outras espécies conhecidas. Segundo o estudo, a identidade média de nucleotídeos ficou entre 77% e 79% em comparação com outras bactérias do grupo. Além disso, a análise digital de hibridização DNA-DNA reforçou a distinção da nova espécie.

Outro aspecto chamou a atenção: a bactéria cresce lentamente em laboratório. Enquanto algumas bactérias apresentam crescimento mais rápido, a M. tarda leva cerca de 48 horas para formar colônias visíveis. Por isso, os pesquisadores escolheram o nome “tarda”, relacionado à característica de crescimento lento.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Os isolados também foram depositados em coleções científicas da Bélgica, de Portugal e do Brasil. Assim, outros pesquisadores poderão acessar o material para novas análises.

coleta
Foto: Luísa Berg/Embrapa.

Descoberta amplia investigação sobre o “mal do olho”

A ceratoconjuntivite bovina provoca inflamação ocular, lacrimejamento e lesões na córnea. Em casos mais graves, a doença pode comprometer a visão e afetar o consumo de alimento e o ganho de peso dos animais. Consequentemente, também pode aumentar os custos de manejo e tratamento na propriedade.

Até agora, a Moraxella bovis é uma das principais bactérias associadas à enfermidade. No entanto, outras espécies também podem participar dos surtos.

coleta2
Foto: Luísa Berg/Embrapa.

Em 2025, por exemplo, pesquisadores identificaram pela primeira vez no Brasil a Moraxella oculi durante um surto de CIB em novilhas leiteiras em Minas Gerais. Naquele estudo, 72% dos animais avaliados apresentaram a doença. Além disso, os pesquisadores encontraram M. oculi e M. bovoculi nas amostras, mas não isolaram M. bovis das lesões.

Portanto, a identificação de diferentes espécies reforça a necessidade de investigar a diversidade de bactérias presentes nos casos de ceratoconjuntivite.

Nova bactéria ainda precisa ser investigada

Apesar da descoberta, os pesquisadores ainda não afirmam que a Moraxella tarda seja, sozinha, responsável pela doença. Ou seja, ainda é necessário esclarecer qual é o papel da bactéria na ceratoconjuntivite e como ela interage com outros microrganismos.

Nesse contexto, a descoberta pode contribuir para

 sobre diagnóstico, prevenção e vacinas. “As vacinas são feitas a partir dos agentes conhecidos. Se existe um agente desconhecido e não incluído na vacina, o imunizante não protege contra aquele agente, e os animais adoecem, mesmo vacinados”, explica Fernando Cardoso, pesquisador da Embrapa e um dos autores do trabalho.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

No entanto, essa possível aplicação ainda depende de novos estudos. Primeiro, os pesquisadores precisam confirmar a participação da bactéria na doença e entender sua relação com os demais agentes envolvidos.

imagem representativa
Imagens representativas da morfologia celular e de colônias da cepa 7624LNT da bactéria, cultivada em meio TSAB (meio de cultura nutritivo) – Foto: Robert Domingues /Embrapa.

Descoberta surgiu durante pesquisa genética

A identificação ocorreu durante um trabalho iniciado em 2014, no Rio Grande do Sul, voltado à resistência de bovinos Hereford a diferentes doenças.

Durante uma checagem de rotina, os pesquisadores encontraram um comportamento bacteriano atípico. A partir daí, passaram a investigar a possibilidade de uma nova espécie.

“Desde 2014, participávamos, em Bagé, Rio Grande do Sul, de um estudo de ceratoconjuntivite focado em resistência a diversas doenças”, conta Emanuelle Gaspar, uma das pesquisadoras envolvidas.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Assim, uma pesquisa inicialmente voltada à resistência genética acabou levando à identificação de uma nova bactéria.

bacteria

A pesquisadora Emanuelle Gaspar com um animal infectado com ceratoconjuntivite infecciosa bovina – Foto: Luísa Berg /Embrapa.

Pesquisa avança com modelo de córnea

Agora, os pesquisadores utilizam córneas obtidas de animais destinados ao abate para estudar a interação entre a bactéria e o tecido ocular em condições controladas de laboratório.

Além disso, técnicas como sequenciamento de RNA e PCR quantitativo ajudam a acompanhar as alterações provocadas pela infecção. Dessa maneira, o modelo permite investigar a resposta do tecido sem a necessidade de novos testes em animais vivos.

Por enquanto, a principal contribuição da descoberta é ampliar o conhecimento sobre os microrganismos associados à ceratoconjuntivite bovina. A partir desses dados, novas pesquisas poderão esclarecer o papel da Moraxella tarda e avaliar possíveis aplicações no diagnóstico, na prevenção e no controle da doença.