Pesquisa no sudoeste de Goiás mostra que o manejo químico intensivo reduz a biodiversidade, mas a adoção de bioinsumos e a preservação do Cerrado podem salvar os polinizadores e impulsionar a produção agrícola.
abelhas
Foto: Davi de Lacerda Ramos/Embrapa

Pesquisa da Embrapa indica 27 novos registros de abelhas nativas associadas à cultura da soja no Brasil. O estudo, conduzido no sudoeste de Goiás, também aponta que a presença desses insetos silvestres nas lavouras pode aumentar o peso dos grãos em média 7%.

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O levantamento, liderado pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), foi realizado nas plantações das regiões de Rio Verde e Montividiu. Entre as 40 espécies encontradas diretamente nas áreas cultivadas, 27 nunca haviam sido citadas pela literatura científica como visitantes da soja. Considerando também as matas nativas do entorno, o número total de espécies identificadas chega a 53, distribuídas em cinco famílias (Apidae, Andrenidae, Megachilidae, Colletidae e Halictidae).

Treinamento no uso da rede entomológica em áreas de soja. Foto: Davi de Lacerda Ramos/Embrapa

Os resultados foram publicados no Journal of Applied Entomology, no artigo intitulado Bioinput Use and Native Vegetation Fragments are Associated With Higher Bee Community Evenness in Large-Scale Soybean Crops. A pesquisa reforça que a conservação dos fragmentos de Cerrado próximos às lavouras não é apenas uma estratégia para a biodiversidade, mas também um fator de ganho econômico e alinhamento com critérios ESG, cada vez mais exigidos pelos mercados internacionais.

O “filtro invisível” dos defensivos e o impacto na biodiversidade

Historicamente, o modelo de produção em larga escala da soja tem se apoiado no uso intensivo de inseticidas e fungicidas sintéticos de amplo espectro. No entanto, a pesquisadora da Embrapa, Carmen Pires, explica que essa abordagem atua como um severo “filtro ambiental” sobre a fauna benéfica.

“Em propriedades com manejo químico altamente intensivo, houve uma queda drástica na equitabilidade das comunidades de abelhas”, afirma Pires. O termo ecológico se refere à distribuição uniforme dos indivíduos entre as diferentes espécies. “O manejo intensivo favorece um pequeno número de espécies resistentes, eliminando as mais especializadas e eficientes na polinização.”

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Coleta de abelhas com rede entomológica. Foto: Davi de Lacerda Ramos/Embrapa

A cientista alerta ainda para um erro metodológico comum: avaliar a saúde da lavoura apenas pela abundância bruta de insetos. “Uma área altamente pulverizada pode apresentar um número elevado de insetos, mas quase todos pertencem a uma única espécie. Funcionalmente, a lavoura torna-se um ‘deserto de biodiversidade’.”

O avanço dos bioinsumos como rota de fuga

A boa notícia, segundo o estudo, é que existe uma rota de fuga economicamente vantajosa. Propriedades que integraram bioinsumos (bactérias e fungos para controle biológico e fertilização) e reduziram a dependência de químicos de alta toxicidade conseguiram manter comunidades de abelhas mais equilibradas e funcionalmente diversas.

A transição para biológicos (Classe IV de risco ambiental – pouco perigosos) preserva o ciclo natural e é crucial para as abelhas que constroem ninhos no solo — cerca de 60% das espécies identificadas na região. A agricultura regenerativa, que minimiza o revolvimento da terra e mantém a palhada, protege esses ninhos. “Sem tratores desfazendo abrigos e sem venenos penetrando a terra, essas abelhas podem persistir de uma safra para a outra”, destaca Pires.

Além disso, a maioria das espécies (44,7%) possui hábitos solitários, dependendo exclusivamente das boas condições ecológicas da fazenda para sobreviver. “O produtor precisa adotar práticas amigáveis para mantê-las vivas. Caso contrário, perderá o bônus de produtividade que elas oferecem gratuitamente”, complementa a pesquisadora.

O Cerrado como “pulmão” polinizador da fazenda

A pesquisa também detalha a relação de dependência entre a floresta e a lavoura. Os fragmentos de vegetação nativa do Cerrado atuam como refúgios e “fábricas” de polinizadores.

Os dados revelaram que a proximidade física com a mata é um fator relevante: quanto maior o afastamento da lavoura em relação às bordas de Cerrado, menores são a riqueza e a abundância de abelhas nativas nas flores de soja. A mata preservada fornece abrigo, locais de nidificação (principalmente para os 18% de espécies que fazem ninhos em troncos) e alimento alternativo quando a soja não está florindo. Sem a floresta vizinha, as abelhas não conseguem colonizar as plantações.

Números consolidados e nova metodologia

Os números consolidados do estudo impressionam: do total de 764 abelhas coletadas, 89% eram nativas do Brasil, contra apenas 11% da espécie exótica Apis mellifera (abelha africanizada). Antes desta publicação, revisões científicas registravam apenas 12 espécies nativas associadas à soja. O novo trabalho ampliou esse conhecimento para 40 espécies nas áreas cultivadas, com 27 registros inéditos.

Armadilhas do tipo “pan trap azul” instaladas em uma área de vegetação natural adjacente ao campo de soja. Foto: Davi de Lacerda Ramos/Embrapa

Para chegar a essa precisão, os pesquisadores testaram diferentes metodologias e descobriram que os tradicionais pratos-armadilha (pan traps) são muito mais eficientes que as redes entomológicas. As pan traps foram responsáveis por 95% de todas as capturas (728 indivíduos), identificando 33 espécies, enquanto a rede registrou apenas 7. Segundo o estudo, o uso exclusivo de redes subestima a riqueza biológica real das fazendas de soja.

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“A pesquisa da Embrapa consolida, com dados de campo, que o futuro da agricultura nacional depende do equilíbrio ecológico. Os insetos polinizadores são os amigos invisíveis das lavouras, mas o manejo inadequado pode colocá-los em risco. Proteger as abelhas nativas e o Cerrado que as abriga é, acima de tudo, preservar a economia e a segurança alimentar do Brasil”, conclui Carmen Pires.