Resumo da notícia
- Estudo da Embrapa identifica 27 novas espécies de abelhas nativas associadas à soja em Goiás, totalizando 53 espécies entre lavouras e matas nativas, reforçando a biodiversidade local.
- A presença dessas abelhas silvestres nas plantações está ligada a um aumento médio de 7% na produtividade da soja, evidenciando benefícios econômicos e ambientais.
- Uso intensivo de defensivos químicos reduz a diversidade das abelhas, enquanto o manejo com bioinsumos favorece a conservação dos polinizadores e melhora a sustentabilidade das lavouras.
Pesquisa da Embrapa indica 27 novos registros de abelhas nativas associadas à cultura da soja no Brasil. O estudo, conduzido no sudoeste de Goiás, também aponta que a presença desses insetos silvestres nas lavouras pode aumentar o peso dos grãos em média 7%.
O levantamento, liderado pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF), foi realizado nas plantações das regiões de Rio Verde e Montividiu. Entre as 40 espécies encontradas diretamente nas áreas cultivadas, 27 nunca haviam sido citadas pela literatura científica como visitantes da soja. Considerando também as matas nativas do entorno, o número total de espécies identificadas chega a 53, distribuídas em cinco famílias (Apidae, Andrenidae, Megachilidae, Colletidae e Halictidae).

Os resultados foram publicados no Journal of Applied Entomology, no artigo intitulado Bioinput Use and Native Vegetation Fragments are Associated With Higher Bee Community Evenness in Large-Scale Soybean Crops. A pesquisa reforça que a conservação dos fragmentos de Cerrado próximos às lavouras não é apenas uma estratégia para a biodiversidade, mas também um fator de ganho econômico e alinhamento com critérios ESG, cada vez mais exigidos pelos mercados internacionais.
O “filtro invisível” dos defensivos e o impacto na biodiversidade
Historicamente, o modelo de produção em larga escala da soja tem se apoiado no uso intensivo de inseticidas e fungicidas sintéticos de amplo espectro. No entanto, a pesquisadora da Embrapa, Carmen Pires, explica que essa abordagem atua como um severo “filtro ambiental” sobre a fauna benéfica.
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“Em propriedades com manejo químico altamente intensivo, houve uma queda drástica na equitabilidade das comunidades de abelhas”, afirma Pires. O termo ecológico se refere à distribuição uniforme dos indivíduos entre as diferentes espécies. “O manejo intensivo favorece um pequeno número de espécies resistentes, eliminando as mais especializadas e eficientes na polinização.”

A cientista alerta ainda para um erro metodológico comum: avaliar a saúde da lavoura apenas pela abundância bruta de insetos. “Uma área altamente pulverizada pode apresentar um número elevado de insetos, mas quase todos pertencem a uma única espécie. Funcionalmente, a lavoura torna-se um ‘deserto de biodiversidade’.”
O avanço dos bioinsumos como rota de fuga
A boa notícia, segundo o estudo, é que existe uma rota de fuga economicamente vantajosa. Propriedades que integraram bioinsumos (bactérias e fungos para controle biológico e fertilização) e reduziram a dependência de químicos de alta toxicidade conseguiram manter comunidades de abelhas mais equilibradas e funcionalmente diversas.
A transição para biológicos (Classe IV de risco ambiental – pouco perigosos) preserva o ciclo natural e é crucial para as abelhas que constroem ninhos no solo — cerca de 60% das espécies identificadas na região. A agricultura regenerativa, que minimiza o revolvimento da terra e mantém a palhada, protege esses ninhos. “Sem tratores desfazendo abrigos e sem venenos penetrando a terra, essas abelhas podem persistir de uma safra para a outra”, destaca Pires.
Além disso, a maioria das espécies (44,7%) possui hábitos solitários, dependendo exclusivamente das boas condições ecológicas da fazenda para sobreviver. “O produtor precisa adotar práticas amigáveis para mantê-las vivas. Caso contrário, perderá o bônus de produtividade que elas oferecem gratuitamente”, complementa a pesquisadora.
O Cerrado como “pulmão” polinizador da fazenda
A pesquisa também detalha a relação de dependência entre a floresta e a lavoura. Os fragmentos de vegetação nativa do Cerrado atuam como refúgios e “fábricas” de polinizadores.
Os dados revelaram que a proximidade física com a mata é um fator relevante: quanto maior o afastamento da lavoura em relação às bordas de Cerrado, menores são a riqueza e a abundância de abelhas nativas nas flores de soja. A mata preservada fornece abrigo, locais de nidificação (principalmente para os 18% de espécies que fazem ninhos em troncos) e alimento alternativo quando a soja não está florindo. Sem a floresta vizinha, as abelhas não conseguem colonizar as plantações.
Números consolidados e nova metodologia
Os números consolidados do estudo impressionam: do total de 764 abelhas coletadas, 89% eram nativas do Brasil, contra apenas 11% da espécie exótica Apis mellifera (abelha africanizada). Antes desta publicação, revisões científicas registravam apenas 12 espécies nativas associadas à soja. O novo trabalho ampliou esse conhecimento para 40 espécies nas áreas cultivadas, com 27 registros inéditos.

Para chegar a essa precisão, os pesquisadores testaram diferentes metodologias e descobriram que os tradicionais pratos-armadilha (pan traps) são muito mais eficientes que as redes entomológicas. As pan traps foram responsáveis por 95% de todas as capturas (728 indivíduos), identificando 33 espécies, enquanto a rede registrou apenas 7. Segundo o estudo, o uso exclusivo de redes subestima a riqueza biológica real das fazendas de soja.
“A pesquisa da Embrapa consolida, com dados de campo, que o futuro da agricultura nacional depende do equilíbrio ecológico. Os insetos polinizadores são os amigos invisíveis das lavouras, mas o manejo inadequado pode colocá-los em risco. Proteger as abelhas nativas e o Cerrado que as abriga é, acima de tudo, preservar a economia e a segurança alimentar do Brasil”, conclui Carmen Pires.