Povos Tupari e Aruá da Terra Indígena Rio Branco comercializam sete toneladas de castanha com valorização inédita pela conservação florestal
Castanha
Foto: divulgação - Embrapa / Ronaldo Rosa

A castanha-da-amazônia produzida por povos indígenas da Terra Indígena Rio Branco, em Rondônia, ganhou um diferencial inédito na safra 2025/2026: pela primeira vez, a produção recebeu pagamento por serviços ambientais (PSA). A remuneração adicional reconhece o papel das comunidades na conservação da floresta, na proteção da biodiversidade e na manutenção dos ecossistemas locais.

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Castanha da amazonia
Foto: Joze Medeiros/Embrapa

A iniciativa nasceu de uma parceria entre a empresa Castanhas Ouro Verde Importação e Exportação Ltda. e a Cooperativa dos Povos Indígenas do Rio Branco (Coopirb). O acordo se desenvolveu dentro do projeto “Novas soluções tecnológicas e ferramentas para agregação de valor à cadeia produtiva da castanha-da-amazônia” (NewCast), coordenado pela Embrapa.

A pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coordenadora do NewCast, Patrícia da Costa, explica que o projeto desenvolve e articula soluções tecnológicas para agregar valor à cadeia produtiva da castanha. Segundo ela, a experiência mostra que a integração entre tecnologia, organização social e mecanismos de valorização econômica fortalece as organizações locais e reconhece os serviços ambientais prestados pelas comunidades que conservam a floresta.

A União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes) também apoiou as negociações com a empresa compradora. O que fortaleceu o diálogo comercial e a representação da cooperativa indígena no processo.

Boas práticas elevam a qualidade e reduzem perdas na produção

A adoção da tecnologia de Boas Práticas para produção de castanha-da-amazônia, desenvolvida pela Embrapa, contribuiu diretamente para a qualidade do produto comercializado. As orientações abrangem desde a coleta até o transporte, a lavagem, a seleção, a pré-secagem e o armazenamento das castanhas, o que reduz perdas e evita contaminações.

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O extrativista indígena Dalton Tupari destaca que essas práticas foram decisivas para a valorização da produção e para a negociação com a empresa compradora. Segundo ele, as recomendações orientam todo o processo, da coleta até a entrega. E agregam qualidade a um produto que já carrega a vantagem de estar associado à conservação da floresta.

Na safra atual, a Coopirb comercializou cerca de sete toneladas de castanha-da-amazônia com pagamento adicional vinculado ao PSA. Para Tupari, o retorno econômico reforça a importância do trabalho das comunidades indígenas, que coletam e preservam a natureza e agora recebem valor diferenciado por isso. Uma prova de que conservar a floresta também gera renda para as famílias.

Pesquisa, mercado e conhecimento tradicional se encontram na Amazônia

A pesquisadora da Embrapa Rondônia Lúcia Wadt avalia que o resultado evidencia a importância de unir pesquisa, conhecimento tradicional, organização social e mercado. Ela lembra que a Embrapa apoia os povos Tupari e Aruá da Terra Indígena Rio Branco desde 2015 com a tecnologia de Boas Práticas, primeiro por meio do Pacto das Águas e, mais recentemente, do NewCast. Na safra 2025/2026, essas ações resultaram na valorização do produto pela qualidade e pelo serviço ambiental prestado pelas comunidades.

Produtores são orientados quanto a cuidados desde a coleta até o transporte, lavagem, seleção, pré-secagem e armazenamento das castanhas. Foto: Lucia Wadt/Embrapa

O contrato entre a Castanhas Ouro Verde e a Coopirb abrange comunidades indígenas de diferentes etnias em uma área de aproximadamente 236 mil hectares. Além do valor comercial da castanha, o acordo prevê pagamento adicional de 20% destinado à organização indígena, como reconhecimento pelos serviços ambientais prestados.

A cooperativa gerencia os recursos de forma coletiva, com aplicação em ações comunitárias como infraestrutura, saúde, educação, fortalecimento cultural e melhoria das condições de produção. Esse modelo mantém parte do valor gerado pela cadeia produtiva dentro dos territórios indígenas, beneficiando diretamente as famílias extrativistas.

Cooperativismo amplia o acesso das comunidades ao mercado

A experiência reforça o papel estratégico das cooperativas na organização da produção e na ampliação do acesso a mercados. A atuação coletiva da Coopirb permite reunir a produção das comunidades, padronizar procedimentos, fortalecer a gestão comercial e ampliar a capacidade de negociação.

Os resultados demonstram a importância da integração entre pesquisa, conhecimento tradicional, organização social e mercado. Foto: Joze Medeiros/Embrapa

A iniciativa também demonstra a relevância de compradores comprometidos com práticas sustentáveis e com a valorização da origem dos produtos florestais. Ao reconhecer a qualidade da castanha produzida com boas práticas e remunerar os serviços ambientais ligados à conservação, a Castanhas Ouro Verde ajuda a consolidar um modelo de comercialização que une atividade econômica, inclusão produtiva e conservação ambiental.

NewCast projeta um novo horizonte para a cadeia da castanha

O projeto NewCast articula soluções tecnológicas, organizacionais e comerciais para agregar valor à cadeia produtiva da castanha-da-amazônia. A experiência na Terra Indígena Rio Branco mostra que a combinação entre tecnologia, organização social, cooperativismo, mercado estruturado e pagamento por serviços ambientais pode ampliar a renda das comunidades. Além de reduzir perdas, melhorar a qualidade do produto e valorizar os territórios indígenas da Amazônia.

Válido para a safra 2025/2026, o acordo entre a Castanhas Ouro Verde e a Coopirb representa um avanço concreto na construção de modelos de negócios sustentáveis para produtos da sociobiodiversidade. Mais do que comercializar castanha, a iniciativa reconhece o papel dos povos indígenas na conservação da floresta. E mostra que produzir com qualidade e preservar a Amazônia podem caminhar juntos.