Resumo da notícia
- Pesquisadores da Unesp descobriram que onças-pardas evitam áreas frequentadas por cães domésticos em unidades de conservação no interior de São Paulo, invertendo a expectativa de domínio dos felinos.
- Após a passagem de cães, as onças levam em média 74 horas para retornar ao local, retomando a rotina apenas após cinco a seis dias, indicando uma estratégia de afastamento mesmo sem confrontos diretos.
- O estudo relaciona esse comportamento ao aumento do número de cães rurais soltos em áreas naturais, que interferem no território do maior predador terrestre do estado, impactando seu uso do habitat.
Cães e seres humanos mantêm uma das relações mais antigas da história da domesticação. Descendentes dos lobos, os cães figuram entre os primeiros animais domesticados, em um processo iniciado entre 15 mil e 50 mil anos atrás. Atualmente, a população mundial de cães ultrapassa 1 bilhão de indivíduos, espalhados por praticamente todos os ambientes ocupados pelo homem.
A maioria desses animais vive dentro de casas e apartamentos, principalmente em áreas urbanas. Uma parcela menor, pouco comum no Brasil, corresponde a cães selvagens, sem vínculo com pessoas. Entre esses dois extremos, no entanto, existe um grupo bem mais numeroso do que costuma aparecer no debate público: os cães rurais de vida livre.
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Esses animais têm tutor, recebem alimento e possuem um local para retornar ao fim do dia, mas permanecem soltos, percorrendo fazendas, estradas, plantações e áreas de vegetação nativa. Durante esses deslocamentos, muitos acabam entrando em Unidades de Conservação e passam a interagir com a fauna silvestre.
Estudo da Unesp investiga efeito dos cães sobre o maior predador do estado
Essa dinâmica motivou uma pesquisa conduzida por cientistas da Unesp, que resultou no artigo “Puma in check: How domestic dogs influence the behavior of a top predator”, publicado na revista Biological Conservation. O estudo analisou como a presença de cães afeta o comportamento da onça-parda, o maior predador terrestre que ainda ocupa grande parte do estado de São Paulo.

O resultado surpreendeu os próprios pesquisadores: em vez de intimidar os cães, como se esperava de um predador de topo de cadeia, a onça-parda passou a modificar sua rotina para evitar locais onde os cachorros haviam passado.
Onças demoram até seis dias para retomar áreas usadas por cães
A equipe instalou 67 armadilhas fotográficas em duas unidades de conservação do interior paulista: a Estação Ecológica de Santa Bárbara e a Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara. As câmeras mostraram que, após a passagem de um cão, a onça-parda leva em média 74 horas para retornar ao mesmo ponto. O animal só retoma o uso rotineiro daquela área cerca de cinco a seis dias depois.
Esse padrão indica uma estratégia consistente de afastamento em relação aos cães, mesmo sem a ocorrência de confronto direto entre as duas espécies.

A bióloga Rita Bianchi, professora da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, no câmpus de Jaboticabal, explica que a ideia de analisar grandes felinos surgiu a partir do crescimento no número de registros de cães dentro de áreas já monitoradas pelo grupo de pesquisa. “Em algumas unidades de conservação percebemos que, a cada nova amostragem, aumentava o número de registros de cães. Isso despertou nossa preocupação. Queríamos entender por que eles estavam ocupando essas áreas e quais consequências isso poderia trazer para a fauna nativa”, conta a pesquisadora.
Onça-parda foi escolhida por ser espécie adaptável e de dieta generalista
Os cientistas escolheram a onça-parda como um dos focos do estudo não apenas por sua posição de predador de topo, mas também por sua adaptabilidade a diferentes habitats e por sua dieta generalista. As imagens obtidas pelas armadilhas fotográficas revelaram que cães e onças utilizam as mesmas áreas, mas em horários diferentes. Em vez de abandonar totalmente certos ambientes, a onça reorganiza o uso do espaço ao longo do tempo, o que reduz as chances de encontro com os cães.

Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp, admite que os resultados contrariaram suas expectativas iniciais. “Como um amante de grandes felinos, eu achava que a onça-parda ia impor respeito e controlar a área. Os cães poderiam ser uma ameaça para animais pequenos, mas quando chegasse um animal maior o cenário ia mudar. Então foi uma surpresa quando rodamos a análise e vimos que as onças demoravam para voltar a uma determinada área depois da passagem dos cães”, diz o pesquisador.