Pesquisadores da Unesp esperavam que onças-pardas dominassem o território, mas encontraram padrão inverso de comportamento
Onças em reserva
Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva

Cães e seres humanos mantêm uma das relações mais antigas da história da domesticação. Descendentes dos lobos, os cães figuram entre os primeiros animais domesticados, em um processo iniciado entre 15 mil e 50 mil anos atrás. Atualmente, a população mundial de cães ultrapassa 1 bilhão de indivíduos, espalhados por praticamente todos os ambientes ocupados pelo homem.

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A maioria desses animais vive dentro de casas e apartamentos, principalmente em áreas urbanas. Uma parcela menor, pouco comum no Brasil, corresponde a cães selvagens, sem vínculo com pessoas. Entre esses dois extremos, no entanto, existe um grupo bem mais numeroso do que costuma aparecer no debate público: os cães rurais de vida livre.

Esses animais têm tutor, recebem alimento e possuem um local para retornar ao fim do dia, mas permanecem soltos, percorrendo fazendas, estradas, plantações e áreas de vegetação nativa. Durante esses deslocamentos, muitos acabam entrando em Unidades de Conservação e passam a interagir com a fauna silvestre.

Estudo da Unesp investiga efeito dos cães sobre o maior predador do estado

Essa dinâmica motivou uma pesquisa conduzida por cientistas da Unesp, que resultou no artigo “Puma in check: How domestic dogs influence the behavior of a top predator”, publicado na revista Biological Conservation. O estudo analisou como a presença de cães afeta o comportamento da onça-parda, o maior predador terrestre que ainda ocupa grande parte do estado de São Paulo.

Matilha de cães transitando por unidade de conservação é observada por armadilhas fotográficas usadas no estudo
Matilha de cães transitando por unidade de conservação é observada por armadilhas fotográficas usadas no estudo. Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva

O resultado surpreendeu os próprios pesquisadores: em vez de intimidar os cães, como se esperava de um predador de topo de cadeia, a onça-parda passou a modificar sua rotina para evitar locais onde os cachorros haviam passado.

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Onças demoram até seis dias para retomar áreas usadas por cães

A equipe instalou 67 armadilhas fotográficas em duas unidades de conservação do interior paulista: a Estação Ecológica de Santa Bárbara e a Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara. As câmeras mostraram que, após a passagem de um cão, a onça-parda leva em média 74 horas para retornar ao mesmo ponto. O animal só retoma o uso rotineiro daquela área cerca de cinco a seis dias depois.

Esse padrão indica uma estratégia consistente de afastamento em relação aos cães, mesmo sem a ocorrência de confronto direto entre as duas espécies.

Cão é flagrado por armadilha fotográfica caminhado por unidade de conservação localizada no interior paulista
Cão é flagrado por armadilha fotográfica caminhado por unidade de conservação localizada no interior paulista. Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva

A bióloga Rita Bianchi, professora da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, no câmpus de Jaboticabal, explica que a ideia de analisar grandes felinos surgiu a partir do crescimento no número de registros de cães dentro de áreas já monitoradas pelo grupo de pesquisa. “Em algumas unidades de conservação percebemos que, a cada nova amostragem, aumentava o número de registros de cães. Isso despertou nossa preocupação. Queríamos entender por que eles estavam ocupando essas áreas e quais consequências isso poderia trazer para a fauna nativa”, conta a pesquisadora.

Onça-parda foi escolhida por ser espécie adaptável e de dieta generalista

Os cientistas escolheram a onça-parda como um dos focos do estudo não apenas por sua posição de predador de topo, mas também por sua adaptabilidade a diferentes habitats e por sua dieta generalista. As imagens obtidas pelas armadilhas fotográficas revelaram que cães e onças utilizam as mesmas áreas, mas em horários diferentes. Em vez de abandonar totalmente certos ambientes, a onça reorganiza o uso do espaço ao longo do tempo, o que reduz as chances de encontro com os cães.

Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva

Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp, admite que os resultados contrariaram suas expectativas iniciais. “Como um amante de grandes felinos, eu achava que a onça-parda ia impor respeito e controlar a área. Os cães poderiam ser uma ameaça para animais pequenos, mas quando chegasse um animal maior o cenário ia mudar. Então foi uma surpresa quando rodamos a análise e vimos que as onças demoravam para voltar a uma determinada área depois da passagem dos cães”, diz o pesquisador.