Resumo da notícia
- Banana geneticamente modificada pela Tropic Biosciences mantém a polpa amarela por até dois dias após ser cortada, reduzindo o escurecimento causado pela enzima polifenol oxidase.
- A edição genética usando CRISPR-Cas9 alterou genes da própria planta, sem adicionar DNA externo, para diminuir a atividade da enzima responsável pelo escurecimento da fruta.
- A tecnologia pode reduzir em mais de 25% o desperdício de bananas e diminuir emissões de CO₂, com potencial impacto positivo no Brasil, onde a variedade já recebeu aprovação.
Uma banana geneticamente modificada mantém a aparência amarela por mais tempo depois de ser descascada e cortada. A empresa britânica Tropic Biosciences desenvolveu a variedade com edição genética para reduzir o escurecimento da polpa e ampliar o tempo de uso da fruta em alimentos preparados.
Segundo a Tropic, a banana mantém sabor e textura semelhantes aos da fruta convencional. O diretor-executivo da empresa, Gilad Gershon, afirmou que a polpa pode resistir ao escurecimento por mais um ou dois dias e por ainda mais tempo quando permanece refrigerada.
Com essa característica, a variedade pode ampliar o uso da banana em produtos que chegam ao consumidor já cortados, como saladas de frutas e refeições para o café da manhã. Além disso, ao retardar a mudança de cor, a tecnologia pode diminuir perdas associadas à aparência da fruta.
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Como a edição genética reduz o escurecimento
A banana escurece depois do corte porque a polpa entra em contato com o oxigênio do ar. Nesse processo, a enzima polifenol oxidase (PPO) participa das reações que alteram a cor da fruta.
Para reduzir esse efeito, os cientistas da Tropic utilizaram a CRISPR-Cas9, uma ferramenta de edição genética que permite alterar pontos específicos do DNA. De forma simples, a técnica utiliza a proteína Cas9 para cortar uma região determinada do material genético e possibilitar uma alteração nessa sequência.
No caso da banana, os pesquisadores alteraram genes relacionados à produção da PPO e reduziram a atividade da enzima na polpa. Como resultado, a fruta demora mais para apresentar o escurecimento característico depois de ser descascada ou fatiada.
A Tropic afirma que não introduziu DNA de uma espécie diferente. Em vez disso, os pesquisadores modificaram regiões específicas do próprio material genético da planta.
Tecnologia pode reduzir perdas de banana
A empresa também desenvolveu a variedade pensando no desperdício de alimentos. Afinal, consumidores e estabelecimentos comerciais podem descartar bananas que continuam próprias para consumo apenas porque a polpa escureceu.
Um levantamento do governo britânico citado pelo The Guardian apontou que cerca de 1,4 milhão de bananas próprias para consumo eram descartadas diariamente no Reino Unido. O estudo também indicou que 30% dos consumidores jogavam a fruta fora ao encontrar pequenos machucados ou manchas escuras.
Nesse cenário, a Tropic estima que sua tecnologia poderia reduzir em mais de 25% o desperdício de alimentos e as emissões equivalentes de CO₂ relacionadas à cadeia da banana. A empresa calcula ainda um potencial de redução superior a 9 milhões de toneladas de CO₂ por ano no mercado de exportação.
Esses números, porém, representam estimativas da própria Tropic e não uma medição independente do impacto da variedade em escala comercial.
Banana recebeu aprovação no Brasil, segundo a empresa
A novidade também interessa diretamente ao mercado brasileiro. Em abril de 2026, a Tropic anunciou que recebeu aprovação regulatória no Brasil e no Japão para a variedade.
Segundo a empresa, as autoridades brasileiras também autorizaram o cultivo. A Tropic afirma ainda que recebeu autorização para importar, vender e consumir a banana no país.
No Brasil, a CTNBio mantém uma relação oficial de plantas aprovadas para comercialização e analisa o enquadramento de produtos obtidos por técnicas de edição genética. Por isso, as informações específicas sobre as autorizações anunciadas para a banana permanecem atribuídas à empresa.
Além disso, os países adotam procedimentos próprios para avaliar plantas geneticamente modificadas e organismos obtidos por edição genética. Por essa razão, uma autorização em determinado mercado não significa necessariamente que outro país seguirá o mesmo caminho ou aplicará os mesmos critérios.
Filipinas adotaram outro enquadramento
Nas Filipinas, por exemplo, a situação regulatória segue outro modelo. A Tropic anunciou que sua banana recebeu uma decisão de não cobertura pelas regras aplicadas a organismos geneticamente modificados, permitindo a importação e a propagação da variedade.
Esse enquadramento tem alcance diferente de uma autorização de venda. Portanto, a situação filipina não deve ser apresentada como equivalente às aprovações anunciadas pela empresa no Brasil e no Japão.
Reino Unido ainda avalia a segurança do alimento
No Reino Unido, o Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra) reconheceu, em 25 de setembro de 2026, que a banana se enquadra na legislação britânica sobre organismos obtidos por melhoramento de precisão.
Esse reconhecimento representa uma etapa do processo, mas não libera automaticamente a banana para venda como alimento. Antes de chegar aos supermercados, a Food Standards Agency (FSA) ainda precisa avaliar a segurança do produto.
Enquanto o Reino Unido conclui essa etapa, a empresa avança em mercados nos quais já anunciou autorizações. O caso também mostra como diferentes legislações tratam plantas geneticamente modificadas e produtos obtidos por edição genética de maneiras distintas.
Para a cadeia da banana, o interesse da tecnologia está principalmente em prolongar a aparência adequada da polpa depois do corte. Se o desempenho anunciado pela Tropic se confirmar em escala comercial, a variedade poderá ampliar o uso da fruta em alimentos preparados e ajudar a reduzir perdas relacionadas ao escurecimento.