Extratos de cafés tradicionais e especiais mantiveram boa aceitação sensorial em concentrações de até 5%
borra de café
Foto: Darren/Flickr

Um resíduo comum no preparo da bebida pode ganhar uma nova aplicação na indústria de alimentos. Uma pesquisa da Universidade Federal de Lavras (UFLA) avaliou o uso de borra de café na produção de extratos destinados à formulação de doce de leite. Os resultados indicam que a iniciativa pode ampliar o reaproveitamento de resíduos agroindustriais e abrir novas possibilidades para o desenvolvimento de alimentos.

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Além de investigar o potencial de cafés tradicionais e especiais, o estudo analisou como a incorporação dos extratos influencia as características do produto. Dessa forma, os pesquisadores buscaram aliar a sustentabilidade na indústria de alimentos à manutenção da qualidade e da aceitação do doce de leite.

O trabalho foi desenvolvido no Departamento de Ciência dos Alimentos da UFLA pela mestranda Camila Giovana Carvalho Souza, sob orientação do professor Carlos José Pimenta e coorientação da professora Rejiane Avelar Bastos e da pós-doutoranda Ana Cristina Freitas de Oliveira Meira.

Pesquisa transforma borra de café em extrato

Para obter os ingredientes, a equipe coletou borras de cafés tradicionais e especiais em cafeterias de Lavras, em Minas Gerais. Em seguida, reidratou o material com água quente e realizou a extração por prensagem, utilizando a proporção de 1:2 entre a massa de borra e o volume de água.

Depois dessa etapa, os pesquisadores analisaram as propriedades dos extratos, incluindo a composição físico-química, a viscosidade, os compostos fenólicos, os flavonoides e a atividade antioxidante. A equipe também utilizou técnicas laboratoriais para caracterizar os materiais obtidos.

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A borra de café especial apresentou coloração mais intensa e maiores teores de compostos fenólicos e atividade antioxidante em comparação com a borra de café tradicional, conforme o resumo da dissertação.

Essas características ajudam a compreender a composição dos extratos. Entretanto, a presença de compostos fenólicos e a atividade antioxidante observada em laboratório não comprovam, por si só, benefícios à saúde decorrentes do consumo do doce de leite.

Na sequência, os pesquisadores incorporaram os extratos às formulações do produto. O estudo avaliou concentrações de 0%, 2,5%, 5%, 7,5% e 10%, além de analisar características físico-químicas e sensoriais.

Concentrações de até 5% preservam a aceitação sensorial

Um dos principais resultados envolve a relação entre a quantidade de extrato adicionada e a qualidade do doce de leite com borra de café.

Segundo a dissertação, as formulações com até 5% de extrato preservaram características semelhantes às da amostra de controle, com destaque para a cor, a textura e a aceitação sensorial. O resultado indica que a incorporação do ingrediente pode manter atributos importantes do produto nas condições avaliadas.

Por outro lado, as formulações com 7,5% e 10% apresentaram alterações mais acentuadas. Nessas concentrações, os pesquisadores observaram aumento significativo da umidade, redução da dureza e da mastigabilidade, escurecimento mais intenso e queda nos índices de aceitação.

Assim, os resultados mostram que a quantidade de extrato influencia diretamente as características do alimento. Por isso, a definição da concentração adequada representa uma etapa importante no desenvolvimento de formulações que utilizem extrato de borra de café.

Para interpretar os dados, a equipe utilizou a Análise de Componentes Principais (PCA) e a análise hierárquica de agrupamento (HCA). Essas ferramentas estatísticas permitiram identificar padrões e diferenças entre as formulações analisadas.

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Dessa maneira, o estudo relacionou as características dos produtos e identificou grupos com comportamentos distintos. Os resultados apontam potencial tecnológico para o uso dos extratos em concentrações de até 5%, sem comprometer os principais atributos sensoriais avaliados.

Ainda assim, os resultados de laboratório não garantem a mesma aceitação em todos os consumidores nem comprovam, isoladamente, a viabilidade econômica da produção em escala comercial.

Reaproveitamento pode agregar valor à borra de café

Além de investigar a qualidade do alimento, a pesquisa destaca possibilidades de economia circular na indústria alimentícia. Em vez de destinar a borra apenas ao descarte, o estudo avalia seu aproveitamento como matéria-prima para o desenvolvimento de novos ingredientes.

A proposta também amplia as alternativas de valorização de resíduos do café, especialmente por investigar a utilização dos extratos em produtos lácteos. Dessa forma, a pesquisa aproxima o aproveitamento de subprodutos da inovação no processamento de alimentos.

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Para Camila Giovana Carvalho Souza, o estudo demonstra o potencial de transformar resíduos agroindustriais em matérias-primas de maior valor agregado. A pesquisadora ressalta que o reaproveitamento pode reduzir o descarte e estimular novas aplicações no setor alimentício.

“Anualmente, a produção mundial de borra de café atinge cerca de 10 milhões de toneladas. O descarte inadequado desse volume gera impactos ambientais, tornando a inserção do resíduo em modelos de economia circular uma estratégia fundamental para a redução de desperdícios e criação de novas frentes produtivas”, destaca Camila.

A estimativa de 10 milhões de toneladas anuais também aparece no contexto da pesquisa, mas ainda precisa de confirmação independente na fonte que originou o dado. Por isso, a declaração permanece atribuída à pesquisadora, sem ser apresentada como uma estatística verificada de forma independente.

Nesse contexto, o estudo contribui para investigar alternativas de reaproveitamento da borra de café e ampliar as possibilidades de uso desse resíduo. A transformação em extrato para aplicação no doce de leite representa uma alternativa tecnológica que merece novas avaliações.

No entanto, a aplicação comercial depende de outras etapas, incluindo a padronização do ingrediente, a avaliação de segurança e dos custos de produção e o cumprimento das exigências aplicáveis aos alimentos.

Assim, a pesquisa da UFLA apresenta uma possibilidade de inovação para a indústria de alimentos: utilizar a borra de café no desenvolvimento de doce de leite e ao mesmo tempo, investigar formas de agregar valor a um resíduo comum. Os resultados indicam potencial tecnológico para concentrações de até 5%, embora a adoção em escala comercial ainda dependa de avaliações adicionais.