Estudo acompanhou polinizadores durante dois anos e registrou abelhas-do-mel perseguindo e afastando outros insetos de fontes de néctar e pólen
Abelha-do-mel se alimenta em flor durante disputa por néctar e pólen
Foto: Dr Tom Ings

As abelhas-do-mel não disputam alimento apenas chegando primeiro às flores. Elas também podem perseguir e expulsar outros polinizadores para garantir acesso ao néctar e ao pólen.

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O comportamento aparece em um estudo liderado pela Anglia Ruskin University (ARU), no Reino Unido. Durante dois anos, pesquisadores acompanharam a interação entre diferentes polinizadores em cinco áreas próximas a Cambridge.

Ao todo, a equipe realizou 93 horas de observação. Os cientistas acompanharam abelhas-do-mel, mamangavas, abelhas solitárias, sirfídeos e outros visitantes, como borboletas, besouros e vespas.

Os resultados mostram que, quanto maior a presença de abelhas-do-mel, maior foi a competição pelo alimento.

Mais abelhas, menos mamangavas

Polinizadores visitam flores em área analisada por pesquisadores
Foto: Anglia Ruskian Univesity

Os pesquisadores concentraram as observações em flores de amora-silvestre e hera. As duas plantas oferecem néctar e pólen e atraem diferentes espécies de insetos.

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Na amora, o aumento foi acompanhado por uma mudança importante. Quando a densidade de abelhas-do-mel dobrou, a quantidade de mamangavas caiu 14%.

Na hera, por sua vez, uma maior presença de abelhas-do-mel apareceu associada a um número menor de abelhas solitárias e sirfídeos.

Além da quantidade de visitantes, a equipe observou quem conseguia permanecer nas flores durante os encontros.

Nesse ponto, as abelhas-do-mel levaram vantagem.

Abelhas chegaram a perseguir outros insetos

Abelhas disputam espaço em flores durante busca por alimento

Em algumas situações, não houve apenas uma disputa indireta pelo néctar.

As abelhas-do-mel iniciaram boa parte dos encontros competitivos e, em alguns casos, afastaram fisicamente outros insetos.

Nas flores de amora, os demais polinizadores evitaram as abelhas-do-mel em 28% das interações. Na hera, o percentual chegou a 36%.

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Além disso, em pelo menos uma de cada cinco disputas vencidas pelas abelhas-do-mel, elas deslocaram fisicamente ou perseguiram o rival.

Victoria Buckle, pesquisadora da Anglia Ruskin University e principal autora do estudo, afirma que esse comportamento provocou perda de oportunidades de alimentação para outras espécies. “Descobrimos que a maioria das interações na competição por alimento foi iniciada pelas abelhas-do-mel, e elas tiveram um número maior de ‘vitórias’”, afirma Buckle.

Segundo a pesquisadora, mamangavas, abelhas solitárias e sirfídeos evitavam as abelhas-do-mel e, em determinadas situações, acabavam deslocados ou perseguidos.

Uma espécie conseguiu enfrentar as abelhas

No entanto, uma espécie apresentou comportamento diferente.

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A abelha-da-hera (Colletes hederae) foi o único polinizador observado enfrentando diretamente as abelhas-do-mel. Em alguns encontros, ela conseguiu defender a fonte de alimento e também perseguiu a concorrente.

Segundo Buckle, os pesquisadores ainda não haviam registrado esse comportamento dessa forma. “Uma exceção interessante foi a abelha-da-hera, que venceu disputas contra as abelhas-do-mel com maior frequência”, explica a pesquisadora.

A espécie é uma abelha solitária e chegou ao Reino Unido recentemente. O primeiro registro britânico ocorreu em 2001.

Calor pode aumentar disputa entre polinizadores

O estudo também encontrou uma relação entre temperatura e competição.

Em períodos mais quentes, os pesquisadores registraram mais encontros competitivos. Uma das possíveis explicações está nas próprias flores.

Sob estresse térmico, as plantas podem produzir menos néctar. Assim, diferentes polinizadores passam a disputar uma quantidade menor de alimento.

Ao mesmo tempo, as espécies não respondem ao calor da mesma maneira. Mamangavas e sirfídeos apresentam maior sensibilidade às temperaturas elevadas, enquanto as abelhas-do-mel tendem a aumentar a atividade conforme a temperatura sobe.

Por isso, os pesquisadores consideram que o aquecimento futuro pode aumentar a vantagem competitiva das abelhas-do-mel.

Buckle ressalta, porém, que o trabalho não pretende colocar a apicultura contra a conservação dos polinizadores selvagens. “O objetivo do nosso estudo não foi desencorajar a apicultura, mas compreender melhor como ocorre a competição entre espécies de polinizadores selvagens e manejados.”

Para a pesquisadora, entender essa relação pode ajudar a encontrar formas de manter a convivência entre as espécies, principalmente em locais com grande concentração de colmeias.