Criação de abelhas nativas amplia oportunidades de renda para ribeirinhos e contribui para a polinização e a conservação da biodiversidade na Amazônia
açaí na árvore
Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa.

A criação de abelhas sem ferrão pode fortalecer a produção de açaí e abrir novas oportunidades de renda para comunidades ribeirinhas da Amazônia. Além de contribuir para a polinização das palmeiras, a atividade permite diversificar a produção com a obtenção de mel, própolis e cera. Ao mesmo tempo, o manejo adequado das colônias pode favorecer a conservação dos polinizadores e valorizar a biodiversidade local.

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Essa integração entre produção e conservação foi tema de uma formação realizada em outubro de 2026, na comunidade Serraria Pequena, em Afuá, no Pará. A atividade reuniu agroextrativistas, técnicos, pesquisadores e moradores para compartilhar conhecimentos sobre a criação de abelhas nativas e o manejo de açaizais.

A iniciativa integra o Projeto Incógnitos e contou com a participação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e da Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (ATAIC).

Abelhas nativas contribuem para a polinização do açaizeiro

As abelhas nativas sem ferrão desempenham um papel importante na reprodução de diversas espécies vegetais, incluindo o açaizeiro. Ao visitar as flores em busca de alimento, esses insetos transportam o pólen e contribuem para a formação dos frutos.

Por isso, a presença de polinizadores pode favorecer a produtividade dos açaizais. Segundo a divulgação da iniciativa, a intensificação da polinização tem potencial para aumentar a produção de frutos em até 40%.

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Esse percentual, entretanto, representa uma possibilidade, e não um resultado garantido em todas as propriedades. As condições ambientais, a disponibilidade de polinizadores e as práticas de manejo influenciam os resultados.

Dessa maneira, conservar os ambientes utilizados pelas abelhas e adotar práticas que favoreçam sua presença pode contribuir para a produção. Além disso, a integração entre açaí e meliponicultura aproxima a atividade econômica da conservação dos recursos naturais.

Criação de abelhas pode diversificar a renda

A meliponicultura, nome dado à criação racional de abelhas nativas sem ferrão, oferece uma alternativa para diversificar a renda de famílias que vivem da produção agroextrativista.

Além de contribuir para a polinização, a atividade permite obter produtos como mel, própolis e cera. Com organização produtiva e acesso ao mercado, esses itens podem complementar os ganhos provenientes da comercialização dos frutos.

No entanto, transformar esse potencial em renda depende de fatores como os custos de produção, a disponibilidade de colônias, os cuidados com as abelhas e as condições de comercialização. Por isso, a capacitação técnica é importante para orientar as famílias e apoiar o desenvolvimento responsável da atividade.

Durante a formação no Pará, os participantes compartilharam experiências e conheceram práticas que podem adaptar às condições de suas comunidades. A proposta é ampliar o acesso ao conhecimento técnico e estimular sistemas produtivos que conciliem geração de renda e conservação ambiental.

Intercâmbio fortalece comunidades ribeirinhas

A formação também recebeu produtores vinculados ao projeto de Reposição Florestal da Reserva Extrativista (Resex) Cajari, no Amapá. O Grupo Energisa financiou a participação desses produtores.

Anderson Firmino, pesquisador do IPAM no Amapá, destacou os benefícios econômicos da integração entre as atividades e a importância do intercâmbio para levar novos conhecimentos às comunidades.

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IPAM
Foto: IPAM

“A junção das duas práticas [manejo de açaizal e meliponicultura] aumenta a produção de açaí e gera uma segunda renda com a produção e venda do mel. Com o intercâmbio, os produtores retornam para suas comunidades com inovações que podem ser implementadas nas suas áreas de trabalho”, comenta Anderson Firmino, pesquisador do IPAM no Amapá.

A troca de experiências permite que os produtores conheçam alternativas de manejo e avaliem como aplicá-las em suas áreas. Além disso, o contato com pesquisadores e técnicos pode ajudar as comunidades a identificar soluções adequadas às condições locais.

Regivone Souza, produtora da comunidade Sororoca, localizada na Resex Cajari, em Mazagão, no Amapá, também ressaltou a importância do aprendizado para a produção.

“Vejo com muita esperança o desenvolvimento das técnicas que aprendemos neste curso sobre as abelhas nativas em nossa área. Foi muito importante entender que a diversidade de árvores no plantio ajuda a produção a crescer”, afirmou.

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A declaração reforça a importância da diversidade vegetal para o manejo dos açaizais. Afinal, a produção depende não apenas das palmeiras, mas também das relações ecológicas que envolvem outras plantas e os animais que visitam suas flores.

Diversidade da floresta ajuda a sustentar a produção

Embora o açaí tenha grande importância econômica para a Amazônia, a intensificação do cultivo exige atenção à diversidade da vegetação. Um dos desafios é a chamada açaização, processo associado ao predomínio do açaizeiro em áreas onde antes havia maior variedade de espécies vegetais.

Quando o manejo favorece excessivamente uma única espécie, a redução da diversidade pode comprometer habitats e diminuir os recursos disponíveis para diferentes animais, incluindo os polinizadores. Além disso, a simplificação da vegetação pode alterar o funcionamento do ecossistema, afetando processos como a ciclagem de nutrientes e a regeneração da floresta.

Nas florestas de várzea, esses impactos merecem atenção porque a produção está ligada ao equilíbrio ambiental. Por isso, o manejo dos açaizais precisa considerar não apenas a quantidade de frutos colhidos, mas também a conservação de outras espécies vegetais e a recuperação natural da vegetação.

Nesse contexto, a criação de abelhas sem ferrão pode integrar um conjunto mais amplo de práticas sustentáveis. Entretanto, a meliponicultura não substitui a conservação da vegetação nativa nem resolve, isoladamente, os impactos associados à perda de biodiversidade.

Açaí e abelhas podem fortalecer a produção sustentável

A integração entre produção de açaí e criação de abelhas nativas mostra como a biodiversidade pode contribuir para a atividade econômica na Amazônia. Ao favorecer a polinização e abrir possibilidades de comercialização de outros produtos, a prática oferece caminhos para diversificar a produção das comunidades ribeirinhas.

Para ampliar esses benefícios, é importante investir em assistência técnica, manejo responsável das colônias, conservação dos ambientes naturais e organização das cadeias de comercialização.

Dessa forma, a meliponicultura pode contribuir para a sustentabilidade dos sistemas produtivos e para a criação de oportunidades econômicas. O desafio é conciliar produtividade, conservação ambiental e valorização do trabalho das famílias que dependem dos recursos da floresta.

Fonte: Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM)