Resumo da notícia
- A mandioca atingiu o maior preço desde fevereiro de 2025 devido à menor oferta, dificuldade na colheita por excesso de chuva e alta demanda das indústrias por farinha e fécula.
- Produtores seguram a colheita, especialmente de lavouras jovens, pois a mandioca pode ficar mais tempo no solo e o teor de amido, que impacta o rendimento industrial, está caindo.
- Preços da mandioca já ultrapassam R$ 600 por tonelada no Paraná, refletindo a disputa intensa entre indústria e produtores diante da menor disponibilidade da raiz no mercado.
A mandioca ficou mais cara no campo. A combinação entre menor oferta, dificuldade para avançar com a colheita e demanda das indústrias levou a cotação da raiz ao maior nível desde fevereiro de 2025.
O movimento foi identificado pelo Cepea, da Esalq/USP, nas regiões produtoras acompanhadas pelo centro de pesquisas. O cenário chama atenção porque a mandioca está presente muito além da raiz vendida em feiras e supermercados. Ela abastece fábricas de farinha e fécula e aparece como matéria-prima em diferentes segmentos da indústria de alimentos.
- Agricultura familiar capixaba ganha espaço na alimentação escolar
- Brasil produz 24,5 bilhões de ovos em apenas seis meses
Por trás da alta existe uma situação relativamente simples: neste momento, a indústria quer comprar mais mandioca do que os produtores estão dispostos ou conseguindo entregar.
Chuva está segurando a mandioca no campo
O clima virou uma das peças dessa equação.
Nas últimas semanas, o excesso de chuva dificultou o avanço das máquinas e das equipes responsáveis pela colheita em algumas das principais regiões acompanhadas pelo Cepea.
Com menos mandioca chegando às indústrias, a disponibilidade da matéria-prima diminuiu.
Mas a chuva não explica tudo.
Também está caindo a quantidade disponível de lavouras de segundo ciclo, enquanto produtores demonstram pouco interesse em retirar áreas mais novas, com até 12 meses.
Essa decisão tem uma explicação econômica.
A mandioca pode permanecer no solo por um período relativamente longo. Diferentemente de culturas que precisam ser retiradas rapidamente depois de atingir determinado estágio, o produtor possui alguma flexibilidade para decidir quando arrancar as raízes.
Quando a remuneração não parece interessante, portanto, esperar pode virar uma estratégia.
Não basta ter mandioca: ela precisa ter amido

Existe ainda uma característica da cultura que ajuda a entender o mercado.
A indústria não olha apenas para o peso da raiz. O teor de amido também importa porque determina parte do rendimento industrial da mandioca. Nas últimas semanas, o Cepea identificou quedas desse indicador em diferentes situações.
Na prática, uma tonelada de mandioca com menor concentração de amido pode entregar menos matéria-prima aproveitável para determinadas indústrias.
Isso influencia diretamente a decisão do agricultor.
Se o rendimento cai e a remuneração não compensa, alguns produtores preferem deixar a mandioca no campo por mais tempo. Consequentemente, menos raiz chega ao mercado e a disputa da indústria pela matéria-prima aumenta.
Preços já passam de R$ 600 por tonelada em algumas regiões
As diferenças entre as regiões ajudam a mostrar o tamanho desse mercado.
Dados do Cepea/Esalq, referentes ao período de 7 a 11 de setembro, mostravam a tonelada da raiz em R$ 607,35 no noroeste do Paraná.
No centro-oeste paranaense, a referência estava em R$ 601,75 por tonelada, enquanto o leste paranaense registrava R$ 599,67.
Em Mato Grosso do Sul, as referências eram menores: R$ 560,44 por tonelada no extremo sul e R$ 539,30 no sudoeste.
Na região de Assis, em São Paulo, o valor indicado era de R$ 481,36 por tonelada.
Esses números não representam um único preço nacional. A mandioca possui mercados regionais, e as cotações variam conforme localização, qualidade, teor de amido, disponibilidade e condições comerciais.
Farinha também sente a movimentação
A redução da oferta começa a aparecer em outros elos.
No noroeste do Paraná, por exemplo, a farinha de mandioca seca grossa teve valorização semanal de 9,77% no período de 7 a 11 de setembro, chegando a R$ 103,68 pela saca de 40 quilos.
Na região de Assis, a mesma referência avançou 2,15%, para R$ 102,30.
Já a farinha seca fina alcançou R$ 128,95 pela saca de 50 quilos na região paulista, alta de 3% naquela semana.
Isso não significa que todos esses aumentos serão automaticamente transferidos ao consumidor. Entre a matéria-prima e a prateleira existem processamento, estoque, transporte, contratos e margens comerciais.
Ainda assim, a valorização da raiz coloca o custo da principal matéria-prima novamente no radar das indústrias.
Mandioca pode continuar valorizada
O comportamento das próximas semanas dependerá principalmente da oferta.
Segundo a análise do Cepea, a combinação de menor disponibilidade de raízes, comportamento sazonal da moagem e condições climáticas indica que a oferta pode permanecer limitada.
Para o produtor, porém, preço maior não significa necessariamente rentabilidade maior. Produtividade, teor de amido, idade da lavoura, custo da colheita e distância até a indústria também entram na conta.
É justamente essa combinação que ajuda a explicar o momento atual: há mandioca debaixo da terra, mas nem toda ela está disponível para ser arrancada e vendida agora.
Enquanto a indústria disputa uma oferta menor, o preço encontra espaço para permanecer em níveis elevados.