Levantamento do IAC analisou 5,3 milhões de hectares e mostra como genética mais recente ganha espaço na busca por maior rendimento dos canaviais
Tecnologia de agricultura digital monitora lavouras com satélites, sensores e inteligência artificial
Foto: Embrapa - Zineb Benchekchou

A produtividade voltou ao centro das decisões no setor de cana-de-açúcar. Em vez de depender apenas da abertura de novas áreas, produtores e usinas passaram a olhar com mais atenção para a genética plantada dentro da própria fazenda. E um levantamento de escala nacional ajuda a mostrar essa transformação.

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O Programa Cana IAC, do Instituto Agronômico (IAC), analisou dados de 5,3 milhões de hectares na safra 2025/26. A área corresponde a aproximadamente 60% de toda a cana colhida no Brasil.

Ao todo, participaram 226 unidades produtoras, distribuídas pelas principais regiões canavieiras de 16 estados. O trabalho é considerado pelo programa o maior levantamento brasileiro voltado a avaliar produtividade associada ao uso de variedades mais modernas.

O tamanho da amostra chama atenção principalmente porque o Brasil busca produzir mais cana sem ampliar a área na mesma proporção.

Segundo o levantamento mais recente da Conab, a produção brasileira deve alcançar 705,2 milhões de toneladas na safra 2026/27, crescimento de 4,7%. Enquanto a área colhida deve aumentar 1,1%, para 9,1 milhões de hectares, a produtividade média nacional deve avançar 3,6%, chegando a 77,9 toneladas por hectare.

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Genética entra na conta da produtividade

Canavial brasileiro após chuvas que atrasaram a colheita e a moagem de cana
Foto: Embrapa

Não basta, porém, simplesmente substituir uma variedade antiga por outra recém-lançada.

Solo, disponibilidade de água, clima, manejo, idade do canavial e época de colheita continuam interferindo diretamente no resultado. Por isso, o Programa Cana IAC procura comparar unidades submetidas a condições semelhantes de produção.

O levantamento considera solo, clima e regime hídrico. Além disso, para participar da avaliação, a unidade precisa produzir pelo menos 500 mil toneladas por safra e trabalhar com variedades cuja idade média de lançamento seja inferior a 15 anos.

Esse cuidado é importante porque evita uma comparação direta entre canaviais submetidos a condições completamente diferentes.

A genética entra, portanto, como uma peça de um sistema maior.

O próprio Centro de Cana do IAC mantém pesquisas que envolvem melhoramento genético, solos, ambientes de produção, manejo de pragas e doenças e estimativas de produção. Atualmente, a instituição possui uma rede experimental presente em 11 estados brasileiros.

Como o IAC mede produtividade e modernidade

Outro ponto relevante está na forma de medir o desempenho.

O Programa Cana IAC utiliza o chamado Índice de Produtividade com Modernidade (IPM). A metodologia combina a produção de Açúcares Totais Recuperáveis por hectare nos primeiros cinco cortes com a idade média das variedades cultivadas.

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O ATR é uma das principais referências econômicas do setor. Ele indica quanto açúcar efetivamente recuperável existe na matéria-prima e, portanto, ajuda a medir o potencial da cana para produção de açúcar e etanol.

Já o Índice de Liberação Varietal (ILV) mostra a idade média das variedades utilizadas pela unidade produtora.

Na prática, o modelo procura responder a uma questão importante: não apenas quanto o canavial produz, mas também se essa produtividade está acompanhada pela renovação tecnológica da lavoura.

Os dados são obtidos por questionários enviados às unidades participantes e protegidos por sigilo. Essa característica também representa uma limitação metodológica que precisa ser considerada: o levantamento compara empresas participantes dentro dos critérios definidos pelo programa e não funciona como um experimento controlado capaz de atribuir todo o ganho de produtividade exclusivamente à genética.

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Variedade precisa encontrar o ambiente certo

Para o produtor, a discussão vai além de escolher simplesmente a variedade que apresenta maior potencial produtivo.

Uma cultivar pode ter excelente desempenho em determinada combinação de solo, disponibilidade hídrica e época de corte e apresentar resultado diferente em outro ambiente.

É justamente por isso que o chamado manejo varietal ganhou importância. A estratégia consiste em distribuir diferentes materiais genéticos pela propriedade conforme as características de cada área e o planejamento da safra.

Entre as variedades disponibilizadas pelo próprio IAC existem materiais desenvolvidos para alta produtividade, longevidade do canavial, mecanização e diferentes ambientes de produção.

A lógica também reduz a dependência excessiva de uma única variedade e permite distribuir riscos ao longo da propriedade.

Brasil precisa produzir mais por hectare

O movimento ganha ainda mais importância diante da dimensão atual da produção brasileira.

A Conab estima que o país colherá cerca de 9,1 milhões de hectares de cana em 2026/27. Portanto, pequenos avanços médios de produtividade, quando reproduzidos em milhões de hectares, podem representar milhões de toneladas adicionais de matéria-prima.

No Sudeste, por exemplo, a produtividade projetada pela companhia chega a 80,9 toneladas por hectare, avanço de 4,6% sobre a temporada anterior. São Paulo sozinho deve colher aproximadamente 362,8 milhões de toneladas.

A nova geração de variedades não resolve sozinha o desafio de produtividade da cana brasileira. No entanto, os dados do IAC mostram que a renovação genética, combinada ao manejo, ao conhecimento do ambiente de produção e à escolha correta da cultivar, passou a ocupar uma posição cada vez mais estratégica dentro do canavial.

Em uma atividade que já ocupa milhões de hectares, produzir melhor dentro da área existente pode valer tanto quanto plantar mais.