Resumo da notícia
- Chuvas intensas atrasam a colheita de cana no Centro-Sul, reduzindo a oferta e elevando os preços do etanol, que já subiu mais de 20% desde julho nas usinas de São Paulo.
- Solo encharcado dificulta o corte e transporte da cana, atrasando a maturação e comprometendo a qualidade da matéria-prima pela queda no ATR, com impacto direto na produção de açúcar e etanol.
- A menor disponibilidade de cana e a qualidade prejudicada aumentam a incerteza sobre estoques futuros, pressionando o mercado de etanol e podendo agravar o déficit global de açúcar previsto para 2026/27.
A chuva voltou a interferir diretamente na safra de cana-de-açúcar do Centro-Sul. Desta vez, porém, o problema não termina na lavoura. A paralisação de atividades já reduz a oferta de etanol e começa a aparecer nos preços negociados pelas usinas.
Entre 8 e 11 de setembro, o etanol hidratado subiu 2,63% nas usinas de São Paulo e chegou a R$ 2,4622 por litro. Já o anidro avançou 2,32%, para R$ 2,8475 por litro.
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Os dados são do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP). Desde o fim de julho, a valorização do etanol nas usinas paulistas já supera 20%.
Chuva impede máquinas de entrar no campo

A explicação começa antes de a cana chegar à indústria.
Com o solo molhado, as usinas enfrentam dificuldades para manter o ritmo de corte e transporte. Consequentemente, menos matéria-prima chega às unidades de processamento.
Além disso, o excesso de umidade pode prolongar o crescimento vegetativo da planta e atrasar sua maturação. Isso interfere no ATR, o Açúcar Total Recuperável, indicador fundamental para medir a quantidade de açúcar disponível na matéria-prima.
Assim, não é apenas o volume de cana que preocupa. A qualidade da matéria-prima também entrou no radar do setor. Estimativas de mercado divulgadas nesta semana apontam atraso superior a 20% no andamento da safra.
Etanol sente primeiro o efeito
No mercado de etanol, o reflexo apareceu rapidamente.
Segundo pesquisadores do Cepea, as chuvas interromperam atividades no campo e limitaram a disponibilidade do biocombustível. Ao mesmo tempo, compradores e vendedores passaram a acompanhar com maior atenção quanto de cana ainda poderá ser processado antes do encerramento da moagem.
Há uma razão para essa preocupação.
Quanto mais a moagem se estende, maior fica a incerteza sobre a quantidade de etanol disponível nos estoques durante os meses seguintes.
Por isso, a previsão de novas precipitações em áreas produtoras de São Paulo, Minas Gerais e Paraná ganha importância para o mercado.
Açúcar também entra no radar
A chuva pode provocar outro efeito dentro das usinas.
Quando a cana apresenta menor concentração de ATR e condições menos favoráveis à fabricação de açúcar, a indústria pode encontrar dificuldades no processo de cristalização. Nesse cenário, parte da matéria-prima pode acabar direcionada para a produção de etanol.
A discussão ganha força porque o mercado já trabalha com uma oferta mais apertada de açúcar.
Nesta semana, o Itaú BBA reduziu sua estimativa para a produção de açúcar do Centro-Sul em 2026/27 para 38,9 milhões de toneladas, 400 mil toneladas abaixo da projeção anterior.
A instituição também passou a projetar déficit mundial de 2,1 milhões de toneladas na temporada.
Brasil tem uma safra gigantesca

O tamanho da cadeia ajuda a dimensionar o impacto.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) acompanha oficialmente a safra brasileira 2026/27. O Centro-Sul concentra a maior parte da produção nacional e, portanto, qualquer interrupção prolongada nessa região pode alterar o ritmo de processamento brasileiro.
No primeiro levantamento da temporada, por exemplo, a Conab projetava 459,1 milhões de toneladas de cana somente para o Sudeste, alta de 6,8% em relação à temporada anterior.
Portanto, poucos dias de paralisação envolvem volumes expressivos de matéria-prima.
Chuva pode chegar ao preço na bomba?
Para o consumidor, entretanto, existe uma diferença importante.
A alta do etanol na usina não significa um reajuste automático na mesma proporção nos postos. Distribuição, estoques, impostos, margem de comercialização e condições regionais também interferem no preço final.
Ainda assim, acompanhar o valor negociado pelas usinas ajuda a identificar mudanças na oferta antes que elas eventualmente apareçam no varejo.
O Agro em Campo identifica, portanto, uma sequência que merece atenção: a chuva interrompe a colheita, reduz o ritmo de moagem, limita momentaneamente a oferta e aumenta a preocupação com os estoques.
Se as precipitações persistirem, a discussão deixa de ser apenas sobre quando as máquinas voltarão ao campo. O mercado passará a observar também quanto de cana ainda será possível processar, quanto açúcar será produzido e qual volume de etanol chegará aos próximos meses.