Centro-Sul moeu 413,55 milhões de toneladas de cana até agosto, enquanto produção de etanol avançou 13,2% na safra 2026/27
Usina de cana-de-açúcar durante moagem da safra 2026/27, com produção de açúcar e etanol no Centro-Sul do Brasil.
Foto: Embrapa - Pedro Luiz de Freitas

As usinas do Centro-Sul estão processando mais cana-de-açúcar na safra 2026/27, mas isso não está significando mais açúcar. Pelo contrário. A fabricação do produto caiu 10,7% no acumulado até agosto, enquanto a produção de etanol avançou 13,2%.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Os números mostram uma mudança importante na destinação da matéria-prima dentro das usinas.

Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a moagem de cana chegou a 413,55 milhões de toneladas entre o início da safra e o fim de agosto. O volume representa crescimento de 2,2% sobre o mesmo período da temporada anterior.

No entanto, a produção de açúcar ficou em 23,95 milhões de toneladas, queda de 10,7%.

Ao mesmo tempo, as unidades do Centro-Sul produziram 21,22 bilhões de litros de etanol, crescimento de 13,2%.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Assim, os três números ajudam a revelar uma característica importante da atual temporada: as usinas estão aproveitando uma moagem maior para ampliar proporcionalmente a produção do biocombustível.

Segunda quinzena confirma movimento

Transbordo da cana-de-açúcar ao transporte.
Foto: Embrapa – Neide Makiko Furukawa

Os dados mais recentes reforçam essa diferença.

Somente na segunda quinzena de agosto, as usinas processaram cerca de 52 milhões de toneladas de cana, aumento de 3,3% em relação ao mesmo período de 2025.

Ainda assim, a produção de açúcar recuou 4,8% e terminou a quinzena em 3,72 milhões de toneladas.

O etanol seguiu pelo caminho contrário. A fabricação do biocombustível avançou 3,5%, chegando a 2,55 bilhões de litros no período.

O hidratado, utilizado diretamente nos veículos flex, teve desempenho ainda mais forte. Sua produção aumentou aproximadamente 7% na comparação anual.

Portanto, não se trata apenas de uma redução pontual na fabricação de açúcar. Os números acumulados indicam uma safra com perfil mais voltado ao etanol.

Por que as usinas conseguem mudar tão rápido?

A explicação está na própria estrutura do setor sucroenergético brasileiro.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Uma usina flexível pode direcionar parte do açúcar presente na cana para fabricar açúcar ou etanol. Essa decisão depende de diversos fatores, como preços internacionais do açúcar, valor do etanol, câmbio, contratos já fixados, estoques e demanda doméstica por combustíveis.

Consequentemente, uma safra maior de cana não significa necessariamente uma produção maior de açúcar.

É justamente isso que os números atuais mostram.

Enquanto a moagem cresceu 2,2%, a produção de açúcar recuou 10,7%. Já o etanol avançou em ritmo muito superior ao processamento da matéria-prima.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Esse comportamento também está alinhado às projeções mais recentes para a temporada.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o Brasil produza 705,2 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2026/27, crescimento de 4,7% sobre o ciclo anterior.

Por outro lado, a companhia projeta redução de 2,9% na produção nacional de açúcar, para aproximadamente 42,89 milhões de toneladas.

Para o etanol, a expectativa é diferente. A Conab estima produção total recorde de 41,88 bilhões de litros, considerando cana e milho.

Estoque de etanol chama atenção

Existe, porém, outro número importante para acompanhar.

Em 31 de agosto, os estoques físicos de etanol chegaram a 7,59 bilhões de litros, volume mais de 15% superior ao registrado um ano antes.

No caso do hidratado, o crescimento dos estoques alcançou 29,6%.

Esse dado impede uma leitura simplificada de que maior produção significa necessariamente pressão imediata de alta sobre os preços do combustível.

Pelo contrário. Estoques maiores representam uma oferta disponível mais elevada e, dependendo do comportamento da demanda, podem limitar movimentos de valorização.

Por isso, além da produção, será necessário observar nos próximos meses o ritmo de vendas das usinas, o consumo nos postos e a evolução dos estoques.

Açúcar pode sentir menor produção

No mercado de açúcar, a situação é diferente.

O Brasil ocupa uma posição central na oferta mundial. Dessa forma, uma redução relevante na fabricação brasileira pode influenciar as expectativas do mercado internacional, especialmente quando combinada com problemas climáticos em outros grandes produtores.

Entretanto, queda de produção não significa automaticamente aumento de preços. Cotações internacionais também dependem dos estoques globais, das safras de outros países, do petróleo, do câmbio e da demanda mundial.

Os dados disponíveis até agosto mostram, portanto, uma fotografia clara da safra brasileira: mais cana está passando pelas usinas, mas uma parcela proporcionalmente maior está terminando nos tanques de etanol em vez de virar açúcar.

Agora, o comportamento do mix durante a reta final da moagem será decisivo para determinar até onde essa diferença poderá chegar.