A piscicultura brasileira vive um momento de inflexão. Diante de novas barreiras comerciais e da concorrência internacional crescente, o setor intensifica a busca por mercados alternativos para a tilápia, hoje concentrada nos Estados Unidos, destino de cerca de 92% das exportações.

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O presidente da PEIXE BR, Francisco Medeiros, vê o cenário atual como um catalisador de mudanças. “Estamos entrando nos anos de ouro da tilapicultura nacional. Não é um caminho sem desafios, mas é um período com mais oportunidades para quem estiver preparado”, afirma.

Apesar da forte dependência do mercado norte-americano, o desempenho recente surpreendeu. O pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura, Manoel Xavier Pedroza Filho, destaca que as exportações cresceram cerca de 2% no último ano, mesmo com a adoção de novas tarifas a partir de agosto. Para ele, o dado comprova a resiliência do setor, mas não elimina o risco. “A dependência de um único mercado exige atenção”, alerta.

América Latina entra no radar

Com o cenário em transformação, países da América Latina ganham peso na estratégia de expansão. O México lidera as atenções: o país importa cerca de 92 mil toneladas de tilápia por ano, mais da metade do volume adquirido pelos Estados Unidos. Ainda assim, a presença brasileira no país segue tímida.

“É um mercado que começou a ser explorado mais recentemente, ainda com volumes modestos, mas com grande potencial de crescimento”, avalia Pedroza.

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Colômbia e Peru também figuram como oportunidades concretas. Além do volume expressivo de importações, a proximidade geográfica pode dar ao Brasil vantagem logística frente a concorrentes asiáticos.

Gargalo industrial trava avanço nos mercados de maior volume

O principal entrave para avançar nesses mercados não está na produção, está no produto. O Brasil exporta majoritariamente filé fresco, item de maior valor agregado, mas de menor escala. No mercado global, quem domina o volume é o produto congelado, mais barato e amplamente controlado por China e Vietnã.

“A indústria brasileira passa por um momento de reorganização. A expectativa é que novas regras ampliem a competitividade no filé congelado, o que pode mudar o posicionamento do país no mercado internacional”, explica Pedroza.

A possível flexibilização de normas industriais aparece como ponto-chave nessa equação. Para Medeiros, o impacto pode ser rápido. “Ajustes industriais têm potencial de gerar resultados em curto prazo, ao contrário de avanços produtivos, que levam anos”, ressalta. Segundo ele, a vantagem dos concorrentes asiáticos está diretamente ligada à eficiência industrial. E é essa diferença que o Brasil precisa reduzir para disputar mercados de maior volume.

O setor enfrenta ainda outro obstáculo relevante: o fechamento do mercado europeu para o pescado brasileiro desde 2017. Na avaliação de Medeiros, a reabertura depende de negociações diplomáticas e adequações sanitárias que fogem do alcance direto do setor produtivo. “Esse bloqueio reforça ainda mais a necessidade de diversificar mercados e reduzir riscos”, completa Pedroza.

Coordenação e inteligência de mercado ganham protagonismo

Com o ambiente mais competitivo, a articulação entre indústria, associações e pesquisa passa a ocupar papel central na estratégia do setor. A atuação conjunta entre PEIXE BR e Embrapa orienta a identificação de mercados e o direcionamento das empresas.

Diego Vargas / Seapa MG

“A associação organiza informações, aponta caminhos e antecipa tendências. A decisão é do empresário, mas é fundamental ter clareza sobre onde estão as oportunidades”, reforça Medeiros.

A próxima fase da produção de tilápia brasileira aponta para maior inserção internacional e pressão crescente por competitividade. Além da tilápia, espécies nativas como o tambaqui despontam como vetor de crescimento. Principalmente no mercado interno e, no longo prazo, nas exportações.

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“A palavra-chave para 2026 é ampliação de mercado, dentro e fora do Brasil”, resume Pedroza.