Sem novos volumes após encontro entre Trump e Xi, cobertura chinesa cai para 40% em dezembro, e tarifa de 13% para a soja americana, contra 3% para a brasileira, pesa na escolha da origem
Navio graneleiro recebendo soja em terminal portuário
Foto: Agro em Campo

A reunião entre Donald Trump e Xi Jinping não trouxe novos volumes de soja nem mudou as condições comerciais para o produto americano, e a China entra nos próximos meses com 39,4% da demanda da temporada já contratada. A folga diminui em dezembro e janeiro, quando a cobertura cai para 40% e 17%, e Brasil e Estados Unidos passam a disputar as compras chinesas.

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Os Estados Unidos têm 13,73 milhões de toneladas contratadas do compromisso anual de 25 milhões que a China assumiu, e ainda faltam 11,3 milhões para completar a programação de 2026. O Brasil soma cerca de 28 milhões de toneladas já contratadas pelos chineses, contra 1,65 milhão de Argentina e Uruguai.

Para Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, o ritmo das compras chinesas nos próximos meses vai definir como a demanda se divide entre as duas principais origens.

“A China entra nos próximos meses com uma parcela importante da sua necessidade já coberta e, por isso, pode esperar para avaliar preços, disponibilidade e as condições comerciais antes de ampliar as compras. O ponto de atenção passa a ser dezembro e o início de 2027, quando essa cobertura diminui e a nova safra brasileira começa a ganhar espaço”, diz ela.

China já contratou 55% do volume prometido aos EUA

Dos 25 milhões de toneladas que a China se comprometeu a comprar por ano dos Estados Unidos entre 2026 e 2028, cerca de 13,73 milhões já estão contratadas, o equivalente a 55%. Restam aproximadamente 11,3 milhões de toneladas para 2026.

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Antes do encontro entre Trump e Xi, o mercado trabalhava com uma ampliação do compromisso para 27 milhões a 28 milhões de toneladas, e os cenários mais otimistas chegavam a 30 milhões. Nenhum aumento foi anunciado até agora.

A colheita americana amplia a oferta justamente quando a China costuma comprar mais nos Estados Unidos. Por isso, as toneladas ainda sem contrato pesam na formação da demanda e na percepção do mercado sobre o balanço americano.

Foto: Divulgação – Epagri.

Segundo Isabella, o ponto central não está só no cumprimento do acordo, mas na forma como a China vai distribuir as compras entre as origens.

“Completar as 25 milhões de toneladas previstas mantém uma demanda que já está no cenário. O que pode mudar a percepção do mercado é a existência de compras acima desse volume e, principalmente, o ritmo dessas compras. Para o Brasil, será importante acompanhar se a China vai antecipar parte das necessidades ou esperar pela chegada da nova safra”, afirma a analista.

Para a bolsa de Chicago, compras que apenas levem o volume a 25 milhões de toneladas mantêm o fluxo esperado. Volumes adicionais poderiam alterar de forma mais significativa a percepção sobre a demanda americana.

China chega à temporada com 39,4% da demanda contratada

A China começa a temporada com necessidade de aproximadamente 111 milhões de toneladas, das quais 43,37 milhões já estão contratadas. A cobertura de 39,4% supera os 31,3% do mesmo período do ano anterior.

A necessidade total cresceu cerca de 3%, e o volume contratado subiu aproximadamente 28,8%. Na prática, os chineses precisam de mais soja nesta temporada, mas começaram o ciclo com uma fatia maior da demanda protegida.

No curto prazo, a situação é confortável. Outubro está praticamente resolvido, com 10,49 milhões de toneladas contratadas para uma necessidade estimada de 10,5 milhões. Em novembro, a cobertura chega a 69%, com 5,54 milhões de toneladas compradas para uma necessidade de 8 milhões.

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A partir de dezembro, a folga diminui. A cobertura cai para 40% naquele mês e para 17% em janeiro, sobe para 26% em fevereiro e 56% em março, e fica em 44% em abril.

EUA lideram embarques até novembro, e Brasil retoma espaço depois

A divisão das compras acompanha a sazonalidade da oferta. Os Estados Unidos aparecem à frente nos embarques contratados para outubro e novembro, quando a nova safra americana está mais disponível. Em outubro, são cerca de 6,40 milhões de toneladas dos EUA contra 3,30 milhões do Brasil. Em novembro, são 2,90 milhões americanas e 2,11 milhões brasileiras.

Com a aproximação da nova safra brasileira, o Brasil volta a ganhar participação. Para fevereiro, já há cerca de 2,11 milhões de toneladas brasileiras contratadas, em março são 6,73 milhões e em abril, 5,48 milhões.

Colheitadeira avança durante colheita de soja em lavoura brasileira
Foto: Embrapa – Luiz Henrique Magnante

Pela análise da Biond Agro, a combinação de menor cobertura chinesa e maior oferta brasileira deve colocar as duas origens em disputa mais direta a partir de dezembro e, principalmente, no início de 2027.

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“É nesse intervalo que a disputa entre Brasil e Estados Unidos tende a ficar mais evidente. A China terá de decidir entre avançar nas compras durante a janela americana ou deixar parte da demanda para um momento em que a soja brasileira estará mais disponível. A tarifa também continua sendo uma variável importante nessa decisão”, afirma Isabella.

Tarifa de 13% mantém soja americana em desvantagem

A soja dos Estados Unidos continua pagando tarifa total de 13% para entrar na China, contra 3% para a brasileira, uma diferença de 10 pontos percentuais. Segundo a Biond Agro, essa diferença limita a competitividade americana, especialmente nas compras de agentes privados chineses.

A decisão da China também depende de preços, da oferta americana, da chegada da safra brasileira e do nível de cobertura da demanda. Para o Brasil, a atenção se concentra no momento em que a cobertura chinesa começar a cair e a safra nova ganhar oferta.

Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro
Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro. Foto:
Divulgação/Biond Agro

Isabella diz que o mercado precisa olhar além do total importado. O que muda para os prêmios brasileiros, valores pagos acima ou abaixo da cotação de Chicago na exportação, depende da combinação entre cobertura, meses e origem.

“O mercado precisa olhar além do volume total que a China vai importar. É importante observar quanto já está coberto, para quais meses, de qual origem vem essa soja e quanto ainda falta comprar. É essa combinação que vai mostrar como a demanda será dividida entre Brasil e Estados Unidos e quais podem ser os reflexos sobre Chicago e os prêmios brasileiros”, conclui.