Estudo da FAPESP identifica a ranavirose como responsável pelo primeiro colapso populacional de anfíbios registrado na América do Sul
perereca-macaco
Foto: Germano Woehl Jr./Instituto Rã-Bugio

Um vírus altamente letal dizimou girinos e derrubou a população de pererecas em uma reserva de Santa Catarina. Pesquisadores apoiados pela FAPESP comprovaram, pela primeira vez na América do Sul, que surtos recorrentes de ranavirose reduziram em 83% a reprodução da perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) em uma lagoa da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário Rã-Bugio, em Guaramirim (SC). A doença também atinge répteis e peixes.

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perereca-macaco (Phyllomedusa distincta)
Endêmica da Mata Atlântica, a perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) é uma das espécies que pode estar mais ameaçada do que se pensava pelo ranavírus. Foto: Germano Woehl Jr./Instituto Rã-Bugio

A equipe publicou o estudo ontem (20/08) na revista Biodiversity and Conservation. O trabalho traz a primeira evidência robusta de que o ranavírus pode provocar o colapso de populações silvestres na América do Sul, um risco já documentado na Europa. Os dados mostram ainda que a ameaça se agrava em períodos secos, já que a baixa umidade do ar favorece os surtos da doença.

Vírus circula há décadas em rãs-touro

O ranavírus infecta com frequência rãs-touro (Aquarana catesbeiana) criadas comercialmente ou soltas na natureza, geralmente sem causar doença aparente. Nas últimas décadas, porém, os registros de mortandades suspeitas de espécies nativas cresceram nas Américas do Sul e do Norte, e cientistas atribuem parte desses casos ao patógeno. Pesquisadores e ambientalistas temem que outros episódios de morte em massa causados pelo vírus ainda passem despercebidos.

Nos girinos, a infecção avança rápido e destrói tecidos de órgãos vitais, como o fígado. Os animais infectados apresentam inchaço abdominal, vermelhidão extrema, úlceras e hemorragias múltiplas, que chegam a atingir os olhos.

“Apesar de várias mortes suspeitas documentadas no continente americano, é a primeira vez que se comprova a ranavirose, por meio de análises dos tecidos histológicas dos fígados dos animais e da análise dos vírus isolados deles, como causa das mortes em uma espécie nativa”, afirma Aline Fonseca, autora do estudo, realizado durante seu doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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Reserva registra ao menos três surtos em dois anos

A lagoa da RPPN Santuário Rã-Bugio registrou o primeiro evento de mortandade em janeiro de 2024. Dois novos surtos se seguiram: um entre novembro de 2024 e janeiro de 2025, e outro entre novembro de 2025 e março de 2026. Ao todo, os pesquisadores encontraram 324 girinos mortos, 315 de perereca-macaco e nove de perereca-de-pijama (Boana bischoffi).

Em apenas uma lagoa de Santa Catarina, foram encontrados 324 girinos mortos entre 2024 e 2026, a imensa maioria confirmada como vítima de ranavirose. Foto: Germano Woehl Jr./Instituto Rã-Bugio

Os testes confirmaram o ranavírus em 279 pererecas-macaco (88,6%) e em oito pererecas-de-pijama (88,9%). As pererecas-macaco apresentaram carga viral elevada, com quase 10 bilhões de cópias do vírus por microlitro de amostra; nas pererecas-de-pijama, esse número ficou em cerca de 2 bilhões. Como o total de pererecas-de-pijama mortas foi pequeno, os cientistas não classificaram o episódio dessa espécie como mortandade em massa.

Para confirmar os sinais clínicos da doença, a equipe analisou por histologia os fígados de 13 girinos, técnica que revela danos aos tecidos e às células por microscopia. As lesões encontradas confirmaram o quadro severo da infecção.

O estudo integra o projeto “Da história natural à conservação dos anfíbios brasileiros”, coordenado por Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp), com apoio da FAPESP, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha.

Monitoramento de 25 anos revela queda de 83% na população

Além de confirmar a ranavirose como causa das mortes, os pesquisadores cruzaram dados climáticos das duas semanas anteriores a cada surto para identificar possíveis fatores associados aos óbitos.

“Realizamos análises estatísticas que pudessem apontar mudanças ambientais e climáticas capazes de contribuir para as mortes, mas nenhum fator teve um peso tão significativo sobre o declínio da população como a ranavirose”, explica Karla Campião, professora da UFPR que orientou o doutorado de Fonseca e obteve o financiamento do CNPq para a pesquisa.

girinos da perereca-macaco
Os girinos da perereca-macaco apresentaram vermelhidão compatível com hemorragia, além de inchaço abdominal. Testes moleculares confirmaram infecção por ranavírus como causa da morte Foto: Germano Woehl Jr./Instituto Rã-Bugio

Germano Woehl Jr. e Elza Nishimura Woehl, do Instituto Rã-Bugio para Conservação da Biodiversidade, monitoram a lagoa continuamente desde 1999 e também assinam o estudo. Durante o período reprodutivo, entre junho e fevereiro, a dupla conta diariamente as massas de ovos depositadas ao redor da lagoa. As fêmeas dobram folhas da vegetação sobre os ovos para protegê-los do ressecamento, e os girinos caem na água assim que eclodem.

Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, logo após as mortandades, o número de massas de ovos ficou muito abaixo do registrado nos mesmos meses entre 1999 e 2004. Com base nesses dados, os pesquisadores calcularam o declínio populacional em 83%.

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Baixa umidade dispara risco de surto

Nenhum fator ambiental isolado explicou as mortes ao longo dos anos. Mas os cientistas identificaram um salto abrupto no risco de surto quando a umidade cai de 90% para 65% nas duas semanas anteriores à mortandade.

“Provavelmente, o vírus está presente no ambiente o tempo todo, sem causar doença, mas a baixa umidade pode fazer com que ele aumente a própria replicação e cause um surto. É sabido ainda que o sistema imune dos anfíbios pode ficar comprometido em baixas taxas de umidade, o que facilita a infecção”, sugere Fonseca.

A redução do volume de água na lagoa também concentra os girinos em uma área menor, o que facilita a transmissão do vírus entre os animais.

Pesquisadores vão investigar museus e áreas vizinhas

A equipe segue monitorando a lagoa do Santuário Rã-Bugio e planeja coletar amostras em áreas próximas para verificar a prevalência do ranavírus na região.

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“Esse vírus também pode ser uma grande ameaça para a conservação dos anfíbios. Há mais de uma década estamos estudando o fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis) como causador de mortandades e extinções de anfíbios. Porém, este vírus, que já está espalhado pela Mata Atlântica, pode também estar fazendo o mesmo. Assim, precisamos aprofundar os estudos para entender o real perigo decorrente da presença do ranavírus”, diz Toledo, da Unicamp.

O pesquisador destaca ainda a importância de examinar anfíbios preservados em museus de zoologia para entender o impacto histórico do ranavírus. Em um trabalho recente, seu grupo já havia detectado que o fungo quitrídio infectava anfíbios brasileiros desde 1916. Ou seja, antes mesmo da introdução da rã-touro no país, espécie até então apontada como a principal porta de entrada do fungo no Brasil.

“Talvez o ranavírus também esteja aqui há muito tempo. Resta saber o que mudou para ele se tornar uma ameaça”, conclui Toledo.

André Julião | Agência FAPESP