Resumo da notícia
- Cientistas brasileiros registraram pela primeira vez leucismo em Sapajus libidinosus no Parque Nacional de Ubajara, Ceará, identificando um filhote chamado "Fantasma" com manchas brancas na pelagem.
- O filhote "Fantasma" foi aceito pelo grupo e exibiu comportamento saudável; outro macaco, "Jenipapo", também apresenta descoloração, sugerindo uma possível condição genética na população local.
- Pesquisadores descartam causas ambientais para o leucismo e apontam mutação genética como provável origem, destacando a importância de monitorar a saúde genética da espécie na região.
Cientistas brasileiros registraram pela primeira vez um caso de leucismo em Sapajus libidinosus, espécie de macaco-prego que normalmente exibe pelagem variando entre marrom-escuro e amarelo-dourado claro. A descoberta, que ocorreu no Parque Nacional de Ubajara, no Ceará, acende um alerta sobre a saúde genética da população local.
Os pesquisadores apelidaram o filhote de aproximadamente três meses de “Fantasma” devido às manchas brancas espalhadas pelo corpo. Diferentemente do albinismo, o leucismo causa perda parcial de melanina na pelagem enquanto mantém a coloração escura nos olhos.
Descoberta durante trabalho de campo
O primatólogo Tiago Falótico, pesquisador associado ao Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, Alemanha, e presidente da Neotropical Primates Research Group (NeoPReGo), relata como encontrou o animal. “Eu estava instalando os gravadores de som na área, daí observei primeiro esse macaco branco ali, diferente, que nem era do nosso grupo de estudo. Fui atrás e vi esse filhote branquinho”, conta ao Jornal da USP.
- Brasil enfrenta novo El Niño a partir de maio com previsão de temporais
- Filmes biodegradáveis crescem no mundo, mas Brasil não protege patentes
A equipe observou o Fantasma duas vezes em um intervalo de 30 dias. O filhote demonstrava comportamento típico de um infante saudável: a mãe o carregava e, ocasionalmente, sua curiosidade o levava a explorar o ambiente sozinho. O grupo o aceitava completamente, sem sinais de rejeição.

Outro caso levanta suspeitas
Ao revisar bancos de dados antigos após descobrir o Fantasma, os pesquisadores encontraram registros de Jenipapo, um macho adulto que também apresenta mancha branca na cabeça, embora mais sutil. Os dois animais pertencem a grupos diferentes.

“O Jenipapo é de outro grupo, e provavelmente é o macho alfa de lá”, explica Tatiane Valença, coautora do artigo publicado durante seu doutorado no Instituto de Psicologia (IP) da USP. A pesquisadora atualmente coordena o trabalho de campo na base da NeoPReGo no parque cearense.
Falótico revela ao Jornal da USP que o Jenipapo apresenta outra característica não mencionada no artigo: “Além da cabeça, o Jenipapo tem uma descoloração nos testículos”. A equipe não observou nenhum outro macaco-prego com esses padrões nessa população desde o início da pesquisa, há seis anos.
Hipóteses: ambiente ou genética?
O Parque Nacional de Ubajara, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), possui 6.300 hectares que englobam florestas, montanhas, cavernas e cachoeiras. A fragmentação territorial e a intensa ocupação humana nas extremidades inicialmente levantaram suspeitas sobre influências ambientais.

“Uma das hipóteses dessa diferença de coloração seria o fator ambiental. O primeiro é o genético, alguma mutação aleatória que deu essa característica. A outra seria a questão da alimentação, alguma deficiência alimentar ou algum poluente”, explica Falótico.
No entanto, os cientistas descartam a tese ambiental. “Se fosse alguma coisa mais ambiental, de poluição e de alimentação, a gente espera que veria muito mais [casos de leucismo] espalhados nos grupos”, argumenta o pesquisador.
A hipótese genética ganha força. O leucismo pode resultar do cruzamento em uma população pequena onde a diversidade genética diminui significativamente, permitindo que genes recessivos raros se manifestem.
Risco para tradição cultural dos macacos
A presença de dois macacos-prego com padrões anormais de coloração funciona como sinal de alerta. Os pesquisadores enfatizam a necessidade de monitoramento de longo prazo não apenas para preservar a espécie, mas também tradições culturais únicas.

“Essa população é bem interessante porque, durante o meu doutorado, eu descobri que eles usam não só as pedras para quebrar coco, como boa parte dos macacos-prego, mas eles também usam pedras para cavar e usam varetas para tirar aranhas de alçapão de tocas. Um comportamento que a gente só tinha visto na Serra da Capivara”, destaca Tatiane Valença.
Pressões ambientais e conservação
O parque enfrenta pressões das mudanças climáticas e do desenvolvimento urbano. Animais domésticos também entram e interagem com os macacos selvagens, criando riscos adicionais.
“Esse sinal de mutação, um bicho com cor diferente, pode ser um indicativo de endogamia de uma população que está restrita, ali, num fragmento, e não está tendo fluxo gênico”, aponta Tiago Falótico.
- Calor intenso persiste no fim do Carnaval
- Consumo de cerveja cai 19% no Brasil e categoria enfrenta crise
Somente o acompanhamento sistemático desses animais confirmará se a característica aumenta na população. Tatiane Valença conclui: “Conservar essas populações é importante para a gente conservar a diversidade de tradições dos macacos-prego. Esses comportamentos são importantes para a sobrevivência desses animais, mas também nos ajudam, enquanto seres humanos, a entender mais sobre nós mesmos”.
Sobre o Leucismo
O leucismo é uma doença congênita que causa perda parcial ou total de melanina na pelagem ou nas penas dos animais. Diferentemente do albinismo, a cor dos olhos permanece escura. A condição é extremamente rara em primatas. Casos anteriores de albinismo ocorreram em um macaco-prego-preto e em um macaco-prego-das-guianas, ambos em cativeiro.








