Sistemas experimentais da Embrapa Cerrados combinam baruzeiro, cafeicultura irrigada e culturas de ciclo curto para ampliar a renda de pequenos e grandes produtores
Pessoas segurando fruto baru
Foto: Divulgação Cedac

Pesquisadores da Embrapa Cerrados (DF) testam novos sistemas de cultivo em consórcio que combinam o baruzeiro, o cafeeiro irrigado e culturas anuais e bianuais de ciclo curto. A iniciativa pode se tornar, em breve, uma alternativa viável para produtores de pequeno e grande porte que buscam diversificar a produção, ampliar a renda e usar de forma mais racional os insumos e a oferta ambiental do bioma.

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Sistema integrado baru com café em linha dupla aos dois anos de campo. Foto: Tadeu Graciolli/Embrapa

O baruzeiro é uma árvore nativa do Cerrado brasileiro que produz uma castanha rica em proteínas, fibras e antioxidantes, classificada como superalimento. Apesar da alta demanda nacional e internacional, a espécie ainda não conta com safras previsíveis, já que sua produção depende basicamente da coleta em áreas naturais. Esse cenário reforça a necessidade de sistemas comerciais eficientes de cultivo.

A cafeicultura irrigada, por outro lado, já é uma atividade consolidada no Cerrado, onde o clima e a altitude favorecem a produção de cafés de alta qualidade e premiados mundialmente.

Pesquisa combina dois modelos de plantio

O pesquisador Tadeu Graciolli, criador do Sistema Filho — Fruticultura Integrada com Lavouras e Hortaliças, lançado em 2017, conduz os experimentos há quatro anos. Em uma área de 3.500 m² nos campos da Embrapa Cerrados, a equipe implantou dois sistemas: um de linha dupla (LD) e outro de linha simples (LS), cada um ocupando 45 m x 35 m.

Nos dois modelos, o espaçamento entre as plantas de baru e de café é o mesmo. A diferença está na disposição: no sistema LS, o baru foi plantado dentro da própria linha do café; no LD, uma linha de baru foi inserida entre cada duas linhas de café. Ao todo, os pesquisadores avaliam dez clones de baru e três variedades de café arábica, com o objetivo de identificar as plantas mais produtivas.

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A equipe plantou as mudas de baruzeiro entre janeiro e fevereiro de 2022 e os cafeeiros entre fevereiro e março do mesmo ano. No sistema LD, a equipe realiza a irrigação por microaspersão e pode mecanizar a colheita.

Corredores de agricultura geram renda no curto prazo

As duas linhas vizinhas de cafeeiros do sistema LD formam o que Graciolli chama de “corredores de agricultura”: espaços onde a estrutura física e a irrigação disponível permitem o cultivo de culturas anuais e bianuais, como feijão, abacaxi e mandioca, enquanto o baru e o café ainda estão em desenvolvimento. Essas culturas são colhidas em poucos meses e ajudam a compensar o investimento inicial no plantio das árvores.

Plantas dos baruzeiros floresceram e produziram frutos quatro anos após o plantio. No meio natural, começam a produzir depois de sete a dez anos. Foto: Tadeu Graciolli/Embrapa

“O sistema LD foi pensado para obtenção de baru no longo prazo, café no médio prazo e culturas anuais e bianuais no curto prazo. Isso é para que o pequeno produtor se sinta seguro em entrar na atividade de plantio de baru”, explica Graciolli.

Baruzeiros floresceram em menos de três anos

Os pesquisadores colheram a primeira safra de café dos sistemas em maio de 2024, com produtividade média de cerca de 40 sacas por hectare. Em maio de 2025, enquanto se preparavam para colher a terceira safra de café, eles registraram o desenvolvimento acelerado dos baruzeiros: nove plantas floresceram e começaram a produzir frutos pouco mais de quatro anos após o plantio, bem antes dos sete a dez anos que o baru normalmente leva para frutificar em condições naturais. Algumas plantas floresceram com apenas dois anos e dez meses.

Segundo Graciolli, esse ritmo só é possível graças ao manejo intensivo do ambiente; irrigação, adubação, controle de invasoras e podas. E mesmo que o baruzeiro em si não receba adubação direta. “Ele se aproveita dos nutrientes residuais da adubação do café, do feijão, do abacaxi”, afirma o pesquisador.

A água do sistema de irrigação também não é destinada diretamente ao baru. “A irrigação é dirigida para o café e as culturas de ciclo curto. O baru entra como um convidado do sistema, aproveitando a água que sobra dessas outras culturas”, explica.

Consórcio amplia biodiversidade e sustentabilidade econômica

Para Graciolli, sistemas integrados como esse permitem maior eficiência no uso de água e nutrientes, além de aumentar a biodiversidade dos cultivos e reduzir a incidência de pragas e doenças. “São produzidos diversos produtos numa mesma área, o que traz sustentabilidade econômica. Isso favorece o pequeno produtor rural para que ele consiga viver da exploração agrícola”, destaca.

Embora a agricultura familiar tenha concebido originalmente os consórcios, o pesquisador ressalta que propriedades maiores também podem adaptá-los.

Próximos passos incluem nova safra e seleção de variedades

A terceira safra de café e a próxima, prevista para 2027, ainda serão acompanhadas pela equipe. “Depois da quarta safra, faremos a poda e o rebaixamento das plantas de café. E esperamos que o baru já tenha mais plantas atingindo a idade adulta e entrando em produção”, projeta Graciolli.

Após cinco anos de implantação, a estratégia passará por nova avaliação, com possível reabertura dos corredores de agricultura para o plantio de culturas como mandioca, quiabo ou abóbora. Paralelamente, os pesquisadores selecionam as plantas de baru mais produtivas e de crescimento mais rápido, com vistas à produção de mudas por enxertia e ao lançamento futuro de variedades superiores da espécie.

“Em sistemas dessa natureza, espera-se que o investimento financeiro seja amortizado pelas culturas de ciclo mais curto. E assim que os baruzeiros atingirem a fase adulta, se estabilizarem e entrarem em franca produção, se tornem uma cultura agronômica rentável”, projeta o pesquisador.

Feijão, abacaxi e mandioca reforçam o desempenho do sistema

Nos experimentos, três cultivares de feijão alcançaram produtividade média de 1,8 a 2,2 toneladas por hectare. Resultado que, segundo Graciolli, poderia ter superado 3 toneladas por hectare não fosse o ataque de veados campeiros às plantações.

Foto: Tadeu Graciolli/Embrapa

Já os testes com abacaxi mostraram bom desempenho das cultivares Smooth Cayenne (ou Havaí) e Pérola. Os frutos do Smooth Cayenne pesaram entre 1,8 e 2,2 quilos, com boa aparência e sabor. Enquanto os do Pérola variaram de 1,3 a 1,8 quilo, com equilíbrio entre doçura e acidez.

A mandioca, cultivada em uma área do corredor de agricultura originalmente não destinada ao plantio, teve produção de raízes que evoluiu de 4,5 kg para 7,5 kg por cova entre os 10 e os 16 meses após o plantio. O equivalente a um potencial de sete toneladas por hectare.

Sistema de linha simples serve como referência de comparação

No sistema LS, o espaçamento de 4 metros entre as linhas de café e o baru, plantados alternadamente na mesma linha, impede o cultivo de espécies de ciclo curto entre as linhas e inviabiliza a colheita mecanizada. O modelo funciona como tratamento testemunha, permitindo avaliar o impacto da proximidade entre baru e café na produtividade.

Assim, segundo Graciolli, nas duas primeiras safras, os pés de café mais próximos do baruzeiro registraram queda de produção de até 30%, atribuída à competição por água e nutrientes, e não à disputa por luz solar. No sistema LS, a irrigação por gotejamento é destinada ao café, mas também beneficia o baruzeiro. “Nesse sistema, o produtor pode produzir café gourmet em 1 a 2 hectares. E após cinco anos, ele terá o início de produção dos frutos de baru”, conclui o pesquisador.