Hedgepoint Global Markets aponta que El Niño pode comprometer o florescimento do cacau e ameaçar o balanço da safra 2026/27
Foto: Fernando Vivas / GOVBA

O mercado global de cacau volta a acompanhar de perto os desdobramentos climáticos para os próximos ciclos produtivos após meses de forte volatilidade nos preços. A Hedgepoint Global Markets confirmou um novo episódio de El Niño, que coloca novamente o clima entre os principais fatores de risco para a commodity. O momento é sensível: a produção na África Ocidental vem se recuperando parcialmente e sustenta perspectivas mais favoráveis para o balanço global da safra 2025/26.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Fatores técnicos e o cenário macroeconômico internacional influenciaram os movimentos recentes dos preços. Ainda assim, o mercado permanece estruturalmente sensível às condições climáticas. As chuvas e as temperaturas nas principais regiões produtoras continuarão determinando a produção dos próximos ciclos.

Clima segue fundamental para a próxima safra

Condições climáticas mais favoráveis nos últimos meses, especialmente o volume de chuvas acumulado, vêm sustentando a recuperação parcial da produção na África Ocidental, principal região produtora de cacau do mundo. Esse cenário reforça as perspectivas de superávit para o ciclo 2025/26.

O mercado, porém, mantém o foco no desenvolvimento da próxima safra. Um bom volume de chuvas nas próximas semanas continuará sendo essencial tanto para os frutos que serão colhidos até o fim da safra intermediária 2025/26 quanto para o principal período de florescimento, que originará a safra principal 2026/27.

As condições climáticas observadas nesse período decidirão o volume e a qualidade dos frutos que chegarão ao mercado ao longo do próximo ciclo.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Infografico sobre produção de cacau

El Niño volta ao radar das principais origens produtoras

A confirmação do El Niño amplia as preocupações dos participantes do mercado no médio e longo prazo. O fenômeno tende a alterar padrões climáticos globais e eleva os riscos de seca, chuvas excessivas, ondas de calor e mudanças na atividade de tempestades em regiões agrícolas importantes.

No caso do cacau, os efeitos potenciais variam conforme a intensidade do evento e a região analisada. Em linhas gerais, o El Niño pode favorecer condições mais secas em parte da África Ocidental e Central, na América Central e no norte do Brasil. Ao mesmo tempo, o fenômeno pode aumentar as chuvas no Peru, no Equador e em algumas áreas do continente africano.

A Hedgepoint destaca que, em algumas origens, especialmente na África Ocidental, a resposta climática ao El Niño não ocorre de forma direta. Fenômenos regionais como a Monção da África Ocidental e os ventos Harmattan também influenciam o clima da região.

A monção da África Ocidental normalmente ocorre entre maio e outubro, enquanto o Harmattan prevalece de dezembro a fevereiro. O El Niño pode alterar esses padrões, atrasar o início da estação chuvosa e prolongar a estação seca, já que influencia os sistemas atmosféricos que regulam a monção e o Harmattan. O impacto varia conforme a intensidade e o período de ocorrência do fenômeno.

Temperaturas mostram sinal mais consistente

Ao analisar as últimas safras impactadas pelo El Niño, a consultoria observa que os efeitos sobre as chuvas não seguem um padrão único entre os principais produtores.

Os resultados registrados em Costa do Marfim, Gana e Equador mostram que os impactos sobre a precipitação dependem não apenas da intensidade do fenômeno, mas também das características regionais e da distribuição das chuvas ao longo do ciclo produtivo.

Os dados de temperatura, por outro lado, apresentam um comportamento mais consistente. Nas últimas safras marcadas por El Niño, Costa do Marfim, Gana e Equador registraram temperaturas acima da média em diferentes momentos do ciclo, especialmente durante o principal período de florescimento.

Esse comportamento pode aumentar o estresse das lavouras, sobretudo quando se combina com menor disponibilidade hídrica.

Resposta da produção pode ocorrer de forma defasada

A análise também observa que a resposta da produção ao El Niño não segue um padrão linear, principalmente por se tratar de uma cultura perene.

Os dados sugerem que a produção pode reagir de forma temporalmente defasada: perdas aparecem durante a safra impactada pelo fenômeno, enquanto efeitos positivos podem surgir nos ciclos subsequentes. Esse comportamento pode estar relacionado tanto à realocação de recursos pelas plantas quanto à forma como as chuvas se distribuem ao longo do ciclo produtivo.

Carolina França, analista de mercado na Hedgepoint Global Markets, ressalta que esse comportamento não é homogêneo entre países e safras, o que reforça que a resposta produtiva depende da interação entre clima local, calendário fenológico e condições agronômicas específicas de cada origem.

“De forma geral, o El Niño costuma estar associado a menor produção de cacau por elevar as temperaturas e afetar a regularidade das chuvas. No entanto, seus impactos variam conforme a intensidade do evento, o momento em que ocorre no ciclo produtivo e sua interação com fases críticas como florescimento e desenvolvimento dos frutos”, destaca a analista.