Diretor B2B da TIM explica como conectividade, dados e inteligência artificial avançam na gestão do agro
Alexandre Dal Forno, diretor de Novos Negócios e Soluções B2B da TIM Brasil - Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

O agronegócio brasileiro não peca pela falta de tecnologia nos tratores e colheitadeiras, mas pelo isolamento digital no campo. Para resolver esse gargalo, a TIM estruturou o projeto 4G TIM no Campo em frequência de 700 MHz, alcançando 29,6 milhões de hectares com 4G rural e 58,6 milhões com NB-IoT no segundo trimestre de 2026. Em entrevista, Alexandre Dal Forno, diretor de Negócios e Soluções B2B da operadora, detalha como a companhia evoluiu da simples oferta de sinal para a entrega de inteligência de dados e IA, movimento consolidado com a aquisição da integradora V8 Tech, além de analisar o ganho de eficiência operacional e o impacto social nas comunidades rurais. A seguir, os principais trechos da conversa.

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O projeto 4G TIM no Campo

Por que a TIM identificou o agronegócio como uma oportunidade para ampliar a conectividade?

Há uns oito anos, identificamos o agronegócio como uma grande oportunidade e também como uma área com grande carência, não de tecnologia, mas de conectividade. Era preciso fazer com que as informações fossem transmitidas em tempo real e permitir que o agricultor e o agrônomo entendessem o que estava acontecendo no campo.

Se pensarmos nas grandes propriedades, como é o caso do Brasil, com milhares de hectares, não era possível saber o que estava acontecendo em um determinado talhão, por exemplo.

Para isso, criamos o projeto 4G TIM no Campo. É uma solução em que adaptamos o que temos na cidade para as questões do campo. Trata-se de um 4G em 700 MHz que começava a ser usado nos grandes centros do país. Nós detectamos que, por ser uma frequência baixa, era ideal para o campo, pois permite cobrir uma área grande com uma única torre.

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Qual é a extensão dessa cobertura?

Atualmente, uma torre de 700 MHz, em uma região como Mato Grosso, cobre mais de 35 mil hectares. Em Minas Gerais, cobre aproximadamente entre 8 mil e 10 mil hectares. Mesmo em regiões com relevo mais complexo, a cobertura é grande.

Com isso, investimos na criação de uma solução especializada para que essas redes fossem feitas sob encomenda. A gente faz a rede para cobrir a área produtiva do produtor, com alta disponibilidade.

Não é uma rede privada, mas uma rede dedicada. Como é uma rede pública, qualquer cliente TIM consegue se conectar. Ao mesmo tempo, ela tem a característica de alta disponibilidade e conecta máquinas, pessoas que estão circulando e fazendo a operação rodar, moradores dessas regiões e também sensores.

Números e possibilidades do projeto

Além do 4G, que outras tecnologias entram nessa estrutura?

Além de colocar o 4G, que é conhecido e usado nos smartphones nas grandes cidades e também no interior, utilizamos a tecnologia NB-IoT, que serve para conectar sensores e tem uma cobertura maior que o 4G.

Nesses oito anos, chegamos a uma marca de quase 30 milhões de hectares cobertos com essa tecnologia. Na última divulgação de resultados, no final do segundo trimestre de 2026, divulgamos 29,6 milhões de hectares cobertos com 4G na área rural.

Já com o NB-IoT, uma outra tecnologia dentro do 4G que utiliza a mesma torre e a mesma infraestrutura, chegamos a quase 60 milhões de hectares. São exatos 58,6 milhões de hectares.

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O que essa extensão de cobertura representa para o desenvolvimento de novas soluções?

Imagina a quantidade de oportunidades. É uma incubadora a céu aberto para soluções de IoT usando sensores. São 58 milhões de hectares em área rural cobertos com essa tecnologia para criar soluções ou para uma startup desenvolver o que quiser.

Um padrão para a indústria

A atuação da TIM ficou restrita à oferta de conectividade?

Nesse período, fizemos um trabalho que foi além de colocar conectividade. Queríamos fazer parte do ecossistema e entender o agronegócio.

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Participamos da Agrishow desde 2019 e criamos, junto com outras empresas, o ConectarAGRO. A iniciativa mobilizou marcas como CNH, Case, New Holland, ACO e Solinftec, entre outras grandes empresas do agro, para mostrar que a tecnologia 4G em 700 MHz poderia conectar o campo.

Nós fomos a primeira empresa a fazer isso, criando um padrão natural, não um padrão imposto, para simplificar a vida do produtor.

Como essa padronização interfere na rotina de quem trabalha no campo?

Imagina um fornecedor chegar à fazenda e perguntar: “Qual é a tecnologia que você usa aqui para conectar?”. Não. Basta ele chegar com o smartphone conectado com o chip da TIM e vai conseguir funcionar normalmente, sem pedir licença para ninguém.

Isso simplifica demais toda essa dinâmica do ecossistema, de uma máquina nova, de uma máquina de cor diferente e assim por diante. Todas funcionam na mesma rede, uma rede pública que não é dominada pela TIM. Todas as operadoras têm a capacidade de apresentar essa mesma banda.

Com isso, conseguimos criar um ecossistema que vai além da conectividade em si, permitindo que máquinas, dispositivos e soluções já saiam de fábrica conectados com essa mesma tecnologia.

Hoje, isso é um padrão da indústria. É um padrão do agro e da indústria que faz com que as máquinas saiam conectadas e as soluções também utilizem essa tecnologia, simplificando a vida do produtor rural.

A mesma coisa que acontece na cidade é possível fazer no campo hoje. Além disso, trata-se de uma tecnologia que é um padrão mundial. O dispositivo que vem da China, por exemplo, pode ser usado nessa mesma rede, o que é uma grande vantagem.

Do 4G aos dados e à inteligência artificial

Como a TIM passou a atuar também na transformação digital das operações?

Em paralelo a isso, começamos a trabalhar com soluções dentro do nosso portfólio. Contratamos agrônomos e temos profissionais que estão há mais de cinco anos trabalhando com soluções para o setor.

Também temos uma força de vendas focada no agronegócio, espalhada pelo Brasil, no interior de São Paulo, que é o berço e o motor da cana no país, em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Matopiba.

Tivemos esse cuidado de trazer pessoas que soubessem falar a linguagem do agro. Não corremos o risco de ter um vendedor que confunde um cachorro ovelheiro com uma ovelha. É uma brincadeira de consultor, mas é isso: conseguimos falar essa linguagem.

Quais soluções passaram a fazer parte desse portfólio?

Na Agrishow de 2025, lançamos uma parceria com a Smart Breeder, uma startup do agro que trabalha com controle de pragas usando inteligência artificial e dados.

É uma das empresas que hoje tem um grande data lake agronômico no Brasil. Trouxemos a empresa para o nosso portfólio, ampliando sua capilaridade.

Logo em seguida, trouxemos uma solução para ajudar na transformação digital dos processos. Um dos grandes desafios do agronegócio, quando começa a ter conectividade, é justamente digitalizar processos que ainda são analógicos e manuais.

Criamos o TIM Flow Up, em que o próprio agrônomo ou gerente da fazenda consegue criar um fluxo digital e publicá-lo no smartphone ou tablet. Assim, quem faz a gestão daquele processo consegue acompanhar o que está acontecendo.

Por exemplo, a logística dos caminhões da Citrosuco que saem da empresa para o Porto de Santos é feita por meio dessa solução.

Da mesma forma, o carregamento e descarregamento de caminhões de grãos no Piauí são realizados com a ferramenta. Nesse mesmo cliente, surgiu ainda uma oportunidade de automatizar a entrega de marmitas.

Em períodos de colheita ou plantio, o número de pessoas no campo é muito grande. É preciso garantir que, no almoço e no jantar, 24 horas por dia, a entrega das marmitas seja feita. Para isso, foi criado um processo simples em que esse controle é realizado de forma automática.

V8 Tech e a transformação dos dados

E o que mudou com a aquisição da V8 Tech?

Na Agrishow de 2026, trouxemos duas novidades. Uma delas foi uma parceria com a climatech Um Grau e Meio, uma startup que trabalha com controle de fogo e fumaça. A solução utiliza câmeras para identificar a presença de fogo ou fumaça, um dos grandes desafios do verão no Brasil. Trouxemos essa solução para o nosso portfólio porque ela é bastante aderente às necessidades dos clientes.

Também divulgamos a compra da V8 Tech.

Dentro dessa estratégia, queremos ir além da conectividade para trabalhar a parte de dados e inteligência artificial. Para isso, precisávamos ter capacidade de integração de sistemas.

No início deste ano, divulgamos a compra da integradora V8 Tech, que traz essa capacidade de utilizar os dados de forma inteligente para tomar decisões em tempo real durante um processo, seja no plantio, no trato ou na colheita.

A gente entende que toda a teoria de observabilidade pode ser muito interessante, transformando KPIs operacionais em KPIs de negócio. É preciso saber quanto, por exemplo, um problema operacional, como a troca de turno em uma frente de cana, pode impactar um indicador de negócio.

Esse é um pouco do nosso desafio: entrar nesse viés junto com os clientes e trabalhar todos esses dados gerados pela conectividade que implementamos.

Como costumamos brincar, temos um “bando de dados”. É preciso trabalhar para que eles se transformem em um “banco de dados” para conseguir fazer a gestão de todo o processo do agronegócio.

Da coleta de dados ao tempo real

Como funciona essa evolução do produtor na utilização dos dados?

Todo o processo de transformação digital tem uma jornada. Quando colocamos a conectividade em uma fazenda, o primeiro passo é o produtor conseguir ter informações e usá-las para entender o que está acontecendo, mas não necessariamente em tempo real.

Primeiro, ele começa a usar as informações para gerar KPIs e entender, no final do dia de uma operação, o que deu certo e o que não deu certo. Assim, consegue melhorar no dia seguinte.

É fazer esse ciclo de PDCA, de melhoria contínua, algo difícil quando não há dados.

Ao conversar com produtores rurais depois que começaram a medir, eles perceberam que quem achavam ser o melhor operador de colheitadeira era, na verdade, o pior. Isso acontecia porque ele colhia muito rápido e, em vez de colher bem, deixava muita soja no campo.

Quando existe KPI, é possível entender o que está dando certo e o que não está dando certo e corrigir durante o processo, por exemplo, de plantio ou colheita.

E qual é o passo seguinte?

A segunda etapa é conseguir fazer isso em tempo real. Alguns fabricantes de máquinas já conseguem monitorar, em seus centros de operação, o que acontece em tempo real quando a máquina tem conectividade.

Esse centro de operação, que normalmente fica nas concessionárias, consegue avisar sobre problemas antes que eles se agravem.

Tenho um exemplo no Mato Grosso de uma máquina em que o operador plugou o hidráulico de forma errada. A máquina começou a funcionar jogando o hidráulico para fora e apresentando vazamento.

Como a concessionária conseguia monitorar em tempo real, identificou um alarme e avisou o gerente da fazenda. Eles atuaram e não perderam nem o implemento nem o dia de operação.

Portanto, no segundo passo, o tempo real permite identificar problemas que estão acontecendo naquele momento e atuar.

Eficiência, combustível e Fazenda Conectada

Um dos exemplos envolve justamente o consumo de combustível. Como a conectividade interfere nesse tipo de operação?

Um dos maiores problemas hoje é a máquina ligada e parada, por causa do consumo de combustível. Temos um case da Fazenda Conectada, que fizemos junto com a Case, no Mato Grosso.

Para mostrar quanto a conectividade e a tecnologia podem mudar o cenário agrícola, criamos uma fazenda conectada. Colocamos a conectividade e a Case colocou a tecnologia.

Medimos uma safra sem conectividade e outra com conectividade e tecnologia. Fomos fazendo isso sucessivamente.

Chegamos a mais de 30% de economia de combustível, justamente controlando o motor ocioso, quando a máquina está parada, e o operador com o pé pesado. Além de gastar mais, ele também desgasta a máquina.

Tudo isso pode ser monitorado e traz uma redução direta. O combustível é um dos insumos mais relevantes no agro, trazendo um ganho direto.

Esse é um exemplo em que a medição em tempo real nem sempre precisa acontecer em tempo real. Às vezes, ter a jornada consolidada no final do dia já permite entender o que aconteceu.

Nessa Fazenda Conectada, contratamos uma consultoria que fez todo o trabalho de digitalização dos processos. Antes de começar, havia uma reunião do gerente com os operadores, em que era passado o que seria feito durante o dia.

No final, havia outra reunião para verificar o que tinha sido feito e qual tinha sido o resultado. Assim, era possível melhorar no dia seguinte.

Percebemos que, a cada safra, havia uma melhoria, porque as pessoas eram treinadas no novo processo, que era digital. O próprio controle ajuda para que as pessoas sejam mais eficientes e tomem mais cuidado com a máquina.

Conectividade que chega às pessoas

Os efeitos da conectividade ficam restritos às máquinas e à produção?

Quando colocamos o 4G, conseguimos levar a digitalização para aquela população. Isso inclui os operadores, as famílias dos operadores e as comunidades próximas às fazendas.

Hoje, já beneficiamos mais de 3 milhões de pessoas no ambiente rural.

O que isso significa? Significa ter pessoas que podem fazer um curso pelo celular ou pelo notebook porque têm conectividade. Elas conseguem se especializar e crescer.

Ao mesmo tempo, o mais importante é ter as pessoas conectadas, porque são elas que fazem a operação.

Quando conseguimos conectar as pessoas durante o processo de operação, criamos justamente aquele time de operação.

Imagina um operador trabalhando sozinho em uma máquina durante o dia inteiro. Que senso de time ele tem? Ele presta conta para ele mesmo.

Se não existe uma forma de monitorar, não há como saber o que está acontecendo nem dar feedback. É quase como uma empresa de um homem só.

Cada operador em uma máquina que custa milhões é, na verdade, um operador fazendo a própria gestão. É quase uma autogestão.

A fazenda precisa ter cobertura de 100% da área para aproveitar esses recursos?

Talvez não. Uma cobertura de 80% talvez já seja suficiente, porque a máquina se movimenta e, quando se conecta, transmite os dados.

O que não dá é não ter conectividade e precisar usar um pendrive. Ter de carregar e descarregar mapas de plantio por pendrive é horrível e não funciona. Não se consegue fazer a gestão dessa maneira.

Quando existe conectividade, pode-se optar, no primeiro momento, por não fazer tudo em tempo real e realizar as análises no final do dia.

Sem conectividade, existe todo o processo de descarregar os dados da máquina por pendrive para depois analisá-los. Na prática, não vai analisar nunca.

Quando muito, vai analisar no final de todo o processo, quando o plantio já acabou. Se existe uma região que não foi plantada direito, não é possível replantar porque o período já passou.

A janela do plantio hoje é muito curta. Por isso, quando verificamos os dados durante o processo, conseguimos intervir em algum momento.

A transmissão de dados da máquina em tempo real é fundamental. Não pode acontecer de não haver conectividade e os dados serem coletados apenas quando a máquina chega ao galpão. Nesse momento, já existe um problema sério.