Resumo da notícia
- A produção brasileira de tilápia cresceu 148,2% em dez anos, alcançando 707,5 mil toneladas em 2025 e representando 70% da piscicultura nacional, segundo o Observatório do Peixe.
- O mercado externo é vital, com a tilápia respondendo por 92% das exportações em 2025, mas enfrenta desafios como mudanças tarifárias nos EUA e concorrência interna.
- O bem-estar dos peixes ganha destaque, com estudos relacionando práticas de manejo a melhorias em saúde e qualidade, embora os impactos econômicos ainda precisem ser melhor mensurados.
A produção brasileira de tilápia cresceu 148,2% em dez anos, passando de cerca de 285 mil toneladas em 2015 para aproximadamente 707,5 mil toneladas em 2025. Com esse avanço, a espécie consolidou sua posição como principal segmento da piscicultura nacional e responde atualmente por 70% dos peixes produzidos no país, segundo dados apresentados na terceira edição do Observatório do Peixe, produzido pela Alianima.
Depois de uma década de expansão, ganho de escala e inovação, a cadeia entra em uma nova etapa. Agora, produtores e empresas precisam aumentar a eficiência, controlar perdas e manter a qualidade, sem deixar de acompanhar as exigências relacionadas ao bem-estar animal e à sustentabilidade.
Além disso, o mercado externo ganhou peso nessa equação. Em 2025, a tilápia respondeu por cerca de 92% do volume exportado pela piscicultura brasileira. As mudanças nas tarifas dos Estados Unidos, principal destino das exportações brasileiras, somam-se à concorrência no mercado nacional e à busca por novos compradores.
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Por isso, a cadeia precisa ampliar a eficiência e, ao mesmo tempo, encontrar formas de diferenciar o pescado brasileiro.
Bem-estar ganha espaço na gestão da produção
O Observatório do Peixe reúne evidências científicas, informações técnicas e análises sobre a relação entre bem-estar dos peixes e desenvolvimento da tilapicultura.
Embora a ciência ainda tenha menos estudos sobre bem-estar de tilápias do que sobre outras áreas da produção animal, pesquisas já relacionam as condições de criação a indicadores como crescimento, qualidade do filé, sobrevivência, saúde e perdas ao longo da cadeia.
O levantamento aponta evidências mais consistentes sobre estresse, transporte, pré-abate, crescimento e densidade de alojamento. Por outro lado, temas como enriquecimento ambiental, exercício e nutrição funcional ainda apresentam resultados promissores.
Já os efeitos econômicos dessas melhorias continuam mais difíceis de medir. Faltam estudos capazes de estabelecer com precisão quanto cada mudança pode gerar de retorno para o produtor ou para a empresa.
“Quando falamos em bem-estar de tilápias, não estamos tratando de uma variável isolada dentro da produção. Condições de manejo, alimentação, densidade, transporte, qualidade da água e práticas de abate se relacionam a diferentes indicadores de saúde, desempenho e qualidade do pescado. A ciência já avançou bastante em algumas dessas relações, mas também precisamos reconhecer onde ainda faltam dados mais concretos, principalmente para medir com precisão os impactos econômicos diretos dessas melhorias”, explica Caroline Maia, especialista em peixes na Alianima.
Melhorias podem reduzir perdas
Para incorporar novas práticas, produtores e empresas podem precisar investir em capacitação, monitoramento, adequações de manejo e ferramentas de gestão.
Em contrapartida, o estudo aponta possíveis ganhos com a redução de perdas, maior eficiência operacional, melhoria da qualidade e diferenciação do produto.

Ainda assim, nem todos esses resultados podem ser calculados da mesma maneira. Os custos de implantação e operação são mais fáceis de mensurar. Já perdas evitadas, ganhos futuros de eficiência, valorização do pescado e novas oportunidades de mercado dependem de diferentes fatores.
Por isso, o levantamento considera que ainda não existem dados suficientes para calcular com precisão o retorno econômico das mudanças relacionadas ao bem-estar.
“Para as empresas, essa discussão não deve começar apenas quando surgir uma nova exigência de mercado. Incorporar gradualmente indicadores de bem-estar, monitorar resultados e entender onde existem oportunidades de melhoria permite que o setor produza conhecimento sobre a própria operação e esteja mais preparado para essas mudanças futuras. É uma agenda que envolve responsabilidade, mas também gestão, transparência e capacidade de antecipação”, afirma Beatriz Veloso, gerente de Relações Corporativas da Alianima.
Exportações aumentam pressão por competitividade
A dependência do mercado externo também amplia os desafios da cadeia. Como a tilápia concentra grande parte das exportações da piscicultura brasileira, mudanças nos principais destinos podem afetar diretamente produtores e empresas.
Nesse cenário, competir não significa apenas oferecer preços menores. Qualidade, regularidade, segurança alimentar, transparência e capacidade de atender diferentes exigências comerciais também influenciam o acesso aos mercados.
“A competitividade do setor depende não apenas da eficiência produtiva, mas também da capacidade de demonstrar compromisso com a qualidade, a segurança alimentar, a responsabilidade socioambiental e a transparência. A qualidade do produto final é resultado de todas as etapas do processo produtivo. Aspectos relacionados ao manejo, à sanidade, ao transporte e ao processamento influenciam não apenas os indicadores produtivos, mas também a qualidade do pescado que chega ao consumidor”, afirma Valério Angelozi, proprietário da Piscicultura Super Fish e presidente da Peixe Paraná.
Diante desse cenário, o relatório defende a incorporação gradual do bem-estar à gestão da produção, com indicadores objetivos, acompanhamento contínuo, capacitação e integração entre os diferentes elos da cadeia.
A proposta busca antecipar mudanças nas exigências do mercado, em vez de esperar que novas regras ou demandas comerciais se consolidem.
Para Caroline Maia, o setor também precisa ampliar a produção de conhecimento e acompanhar os efeitos das medidas adotadas.
“O avanço dessa agenda não depende de uma solução única. O caminho passa por produzir mais conhecimento, aplicar melhorias validadas, monitorar seus efeitos e ampliar a colaboração entre pesquisadores, produtores, empresas e demais atores do setor. Quanto mais cedo essa construção começar, maior será a capacidade da tilapicultura brasileira de se adaptar aos próximos desafios”,