Relatório aponta que nenhuma das maiores empresas de café está preparada para cumprir as novas exigências da Europa, que podem alterar a dinâmica da cadeia global da bebida
Colheita de café arábica avança 40% no Cerrado Mineiro. Mas Expocacer alerta para chuvas que podem atrasar a pós-colheita.
Foto: Diego Vargas/Seapa MG

A xícara de café que chega às mesas dos europeus está no centro de uma nova discussão global. A União Europeia quer que as maiores empresas do setor adotem medidas concretas para garantir que os cafeicultores recebam uma remuneração considerada digna até 2029.

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Um relatório divulgado nesta semana mostra, porém, que nenhuma das principais companhias mundiais de café está preparada para atender plenamente às novas exigências.

A iniciativa faz parte de uma estratégia mais ampla do bloco europeu para tornar as cadeias de abastecimento mais sustentáveis e socialmente responsáveis. O objetivo é reduzir desigualdades históricas e assegurar que produtores rurais tenham condições de vida adequadas, especialmente em países em desenvolvimento.

Produção de café convive com desafios econômicos

Embora o café seja uma das commodities agrícolas mais valiosas do planeta, milhões de pequenos produtores ainda enfrentam dificuldades para manter a atividade economicamente viável.

A produção está concentrada em países tropicais, como Brasil, Vietnã, Colômbia e Etiópia, onde fatores como oscilações de preços, eventos climáticos extremos, aumento dos custos de produção e baixa capacidade de negociação frequentemente comprimem a renda das famílias produtoras.

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A situação cria um paradoxo. O consumo mundial de café segue em expansão, cafeterias se multiplicam e a bebida movimenta bilhões de dólares todos os anos. Na outra ponta da cadeia, muitos cafeicultores continuam operando com margens apertadas.

Mudança pode alterar a relação entre indústrias e produtores

As novas regras europeias podem acelerar transformações na maneira como empresas compram café e se relacionam com seus fornecedores.

Especialistas avaliam que as companhias poderão ser pressionadas a ampliar programas de rastreabilidade, investir em assistência técnica, revisar contratos de fornecimento e desenvolver mecanismos que assegurem maior previsibilidade de renda aos produtores.

Na prática, o mercado global do café passa a incorporar critérios sociais cada vez mais rigorosos e deixa de tratar a bebida apenas como uma commodity agrícola.

A tendência também reforça um movimento já observado em outros mercados. Consumidores, principalmente nos países desenvolvidos, estão mais atentos à origem dos alimentos e às condições em que eles são produzidos.

O que a nova regra pode significar para o Brasil

Maior produtor e exportador mundial de café, o Brasil acompanha as discussões com atenção.

Foto: Wenderson Araújo/Trilux/Sisterma CNA/Senar

O mercado europeu é um dos principais destinos do café brasileiro e qualquer mudança regulatória tende a repercutir diretamente na cadeia nacional. Embora o País tenha avançado em práticas de sustentabilidade, rastreabilidade e certificações, especialistas apontam que novas exigências poderão demandar adaptações adicionais de produtores, cooperativas e exportadores.

Ao mesmo tempo, o cenário também abre oportunidades.

A crescente valorização de critérios socioambientais pode favorecer regiões e produtores que já investem em boas práticas, agregam valor ao produto e conseguem demonstrar compromisso com a sustentabilidade e a responsabilidade social.

No fim das contas, a discussão que começou na Europa ultrapassa as fronteiras do continente. Ela levanta uma pergunta que deve ganhar cada vez mais espaço no agronegócio global: quem produz o café que o mundo consome está recebendo uma remuneração suficiente para continuar produzindo no futuro?