Iniciativa reúne 11 mil mudas, apoio técnico e participação da comunidade local
Foto: Reprodução/Ana Branco

Em 2025, uma área de 8 mil metros quadrados que servia de pasto em Xerém, distrito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, ganhou um destino completamente diferente. O cantor Zeca Pagodinho cedeu o terreno para a criação da Horta Urbana Xerém I, primeira horta urbana comunitária do distrito, e o resultado chegou rápido: em apenas três meses de operação, o projeto já havia distribuído mais de uma tonelada de alimentos para a comunidade local.

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A iniciativa partiu do filho do sambista, Louiz Carlos da Silva, e encontrou terreno fértil, tanto literalmente quanto na vontade do cantor de transformar o seu entorno. “A vida tem que ser assim, ninguém pode viver sozinho. Tem que ser tudo dividido. É a vida, dividir o que eu ganhei”, afirma o cantor.

O que está plantado ali e o que pode crescer

O espaço já reúne mais de 11 mil mudas de hortaliças, entre abóbora, acelga, alface, beterraba, brócolis, rúcula, quiabo e salsa, além de mais de 50 espécies de árvores frutíferas como acerola, jabuticaba, carambola, manga e laranja Bahia. A variedade não é por acaso: o cultivo diversificado garante produção constante ao longo do ano e uma dieta mais equilibrada para as famílias atendidas.

Quando estiver em plena produção, a estimativa é que a horta gere até 40 toneladas de alimentos por ano. Parte será distribuída gratuitamente para famílias cadastradas, creches e escolas públicas. Outra parte entra no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da Prefeitura de Duque de Caxias, o que garante renda para quem trabalha na terra.

Zeca Pagodinho na Horta Xerém I, de onde hortaliças, frutas e legumes serão colhidos para alimentar comunidade
(Foto: Reprodução/Ana Branco)

Embrapa e UFRRJ no meio do samba

O projeto não funciona sozinho. O Instituto Zeca Pagodinho atua em parceria com a Embrapa Agrobiologia e a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que fornecem suporte técnico e capacitação. O nome dado à unidade é “Quintal Produtivo”, e ele integra a Política Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana, com apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.

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“Em três meses de projeto, já distribuímos mais de uma tonelada de alimentos, atendendo às cozinhas solidárias da Baixada”, explicou Louiz Carlos. Além da produção, o Instituto organiza cursos de agricultura agroecológica para que moradores da região aprendam a transformar seus próprios quintais em espaços produtivos. O conhecimento circula entre os vizinhos e o alcance da iniciativa cresce junto.

Um problema real com resposta concreta

O contexto que cerca esse projeto não é pequeno. Dados do IBGE indicam que, em 2023, cerca de 1,2 milhão de pessoas no Rio de Janeiro viviam em situação de insegurança alimentar. No Brasil, 9% dos domicílios ainda enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave, mesmo após o país sair do Mapa da Fome da ONU.

“Quando chegamos a Xerém, era tudo barro, poucas famílias, e muita gente passando necessidade. Para todo mundo que entra no sítio, eu pergunto: ‘Já almoçou?’ Pobre, rico, polícia, otário, malandro… todo mundo come”, contou Zeca ao jornal O Globo. A horta, nesse sentido, não é só um projeto agrícola. É a formalização de uma prática que o sambista já carregava como modo de vida.

O ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, que visitou o Instituto em julho de 2024 para firmar o acordo que viabilizou a iniciativa, resumiu bem o que está em jogo: “Alimentar é um verbo que o Brasil está precisando utilizar, e a gente conjuga a partir daqui, com o Instituto Zeca Pagodinho.”