Consumo per capita é quase 65 vezes menor que o dos EUA; novas variedades e tecnologia prometem transformar a cadeia produtiva
Foto: divulgação - Embrapa/Francisco Lima

O Brasil produz morango em escala suficiente para figurar entre os dez maiores produtores mundiais. Mas não o suficiente para saciar o próprio mercado interno. Em 2023, o país colheu 187,8 mil toneladas da fruta, segundo dados da Embrapa, com consumo per capita de apenas 925 gramas por brasileiro ao ano. Para efeito de comparação, nos Estados Unidos o morango representa 60% da cesta de frutas. E no Brasil, apenas 3%.

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O diagnóstico é do engenheiro agrônomo e consultor Ronaldo Herculano de Lima, especialista em cultivo de morango, que participou do Podcast Ascenza. Segundo ele, o setor vive um momento de transição importante e deve passar por mudanças expressivas nos próximos três a cinco anos, impulsionadas pela chegada de novas variedades ao mercado nacional. “O Brasil ainda não produz o que o mercado interno demanda. Os produtores trabalham muito com variedades antigas, mas novos cultivares estão surgindo, com mais sabor e um pós-colheita mais resistente”, diz o especialista

Variedades antigas dominam, mas mudança está a caminho

Hoje, cerca de 85% das lavouras de morango no Brasil são ocupadas pela variedade San Andreas, a mais resistente, mas não a mais doce. A Camarosa aparece em produções de Brasília, e a Albion, mais saborosa e mais sensível, começa a ganhar espaço entre produtores que apostam em qualidade.

De acordo com Lima, novas variedades importadas de viveiros do Chile, da Espanha e da Flórida devem chegar ao Brasil e reconfigurar o mapa da produção nos próximos anos. A referência internacional para o produtor brasileiro são o Sul da Espanha e o Sul da Itália, regiões com características climáticas relativamente próximas às de algumas áreas produtoras nacionais.

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Os maiores produtores mundiais de morango em 2023, segundo dados da FAOSTAT, banco de dados da FAO/ONU, são: China, Estados Unidos, Egito, Turquia, México, Espanha, Rússia, Polônia e Brasil, nessa ordem.

Mudas piratas: um risco escondido nas lavouras

Um dos maiores gargalos da produção nacional é o uso disseminado de mudas não certificadas. Estima-se que cerca de 80% das mudas plantadas no Brasil sejam chamadas de “piratas”. Elas são replicadas e comercializadas pelos próprios produtores, sem controle de sanidade ou genética.

“Essas mudas produzem normalmente, mas não há garantias em relação a riscos. Sanidade e genética são muito importantes para obter maior e melhor produtividade”, alerta Lima. A adoção de cultivares certificados, associada à diversificação de variedades dentro da mesma lavoura, é apontada como caminho para aumentar a competitividade do produtor brasileiro.

Colheita antecipada prejudica o sabor

O morango ideal é doce, grande, firme e bem vermelho, mas esse padrão raramente chega à mesa do consumidor brasileiro. A principal razão é a colheita precoce: no Brasil, a média de maturação no momento da colheita é de 50%. Quando a fruta atinge 80% ou 85% de maturação, o sabor muda completamente.

“Há muito trabalho a ser feito e há muito espaço para crescer”, diz Lima. Para ele, o investimento em qualidade “é um caminho sem volta”: com variedades mais doces e manejos adequados, o consumo nacional pode crescer exponencialmente. E o Brasil pode até se tornar exportador da fruta, desde que resolva primeiro a logística e amplie o mercado interno.

“Antes de exportar, ainda há muito para crescer no mercado interno. É preciso arrumar a casa, melhorar a qualidade e ampliar o consumo. Área e mão de obra são grandes desafios do produtor”, diz Ronaldo Lima

A revolução semi-hidropônica

A produção de morango no Brasil passou por uma transformação significativa nas últimas duas décadas. Há 20 anos, o cultivo era exclusivamente no solo, sem cobertura ou irrigação por gotejamento. Hoje, cerca de 40% da produção nacional já é feita em sistema semi-hidropônico, uma técnica que utiliza substratos em estufas e permite maior controle das condições de cultivo.

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O modelo se expandiu especialmente no Sul do país, onde é predominante. No Sudeste, a maioria dos produtores ainda usa o plantio convencional no solo. A semi-hidroponia permite maior densidade de plantas, até 80 mil por hectare, contra 50 mil no solo, e melhor pós-colheita. Embora exija mais atenção nutricional e investimento inicial entre R$ 15 e R$ 25 por planta.

No cultivo convencional, o investimento médio é de R$ 14 por planta, com custo operacional de R$ 7 a R$ 8. Em ambos os sistemas, o retorno do investimento ocorre, em média, em três anos.

Morango no Brasil: do Ceará ao Rio Grande do Sul

Com o avanço das tecnologias( irrigação por gotejamento, túneis de proteção contra chuva, estufas e novas variedades), o morango chegou a regiões que não eram tradicionais na produção da fruta. Metade da produção nacional ainda se concentra em São Paulo e Minas Gerais, mas há produtores ativos no Rio Grande do Sul, Paraná, Espírito Santo, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, norte da Bahia, serra fluminense e até na serra do Ceará.

“Com as tecnologias disponíveis e novas variedades, é possível produzir o ano todo no Brasil”, afirma o especialista.

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O estigma dos agrotóxicos e a realidade atual

Nos anos 2010, o morango ficou conhecido como a fruta com maior índice de resíduos de defensivos agrícolas, após análises divulgadas pela Anvisa. Esse estigma persiste no imaginário do consumidor, mas a realidade das lavouras mudou.

“Hoje muitos produtores não usam defensivos em suas lavouras de morango e, quando necessário, o uso é pontual. Há muitos produtos registrados para a cultura, de baixa toxicidade, inclusive biológicos”, afirma Lima. A engenheira agrônoma Patrícia Cesarino, gerente da Ascenza Brasil, reforça o ponto: “O produtor está cada vez mais focado em qualidade e consciência. Mas essa informação não chega ao consumidor”.

Para Lima, maior transparência sobre os processos produtivos poderia ampliar significativamente o consumo. “O brasileiro pode consumir morango sem medo”, conclui.

Pragas, polinização e manejo integrado

As principais ameaças às lavouras de morango no Brasil são o ácaro, o oídio, o fungus gnats (larva que ataca o substrato) e a mosca da fruta. Mais recentemente, o besouro prateado tem causado problemas em diversas regiões, com menor incidência no Sul.

Foto Divulgação Ascenza

O manejo integrado é apontado como estratégia-chave: identificar pragas, criar armadilhas e agir no momento certo. Uma prática ainda pouco explorada no Brasil é a polinização por abelhas, que pode ampliar a produtividade em até 30%. O desafio é que as abelhas africanas, as mais eficientes na polinização e as mais comuns no país possuem ferrão, o que exige maior proteção para os trabalhadores.

Planejamento: a palavra-chave para quem quer entrar no setor

Para quem deseja iniciar na produção de morango, Lima é categórico: o segredo está no planejamento. Variedades, diversificação, época de plantio, clima, manejo, qualidade na colheita e cuidados no pós-colheita, tudo exige organização prévia.

“Uma hora do morango fora da câmara fria é um dia a menos de vida na prateleira”, avisa. A colheita deve acontecer nos horários mais frescos do dia; as cestas não podem ficar sobrecarregadas; o manuseio precisa ser delicado. Com embalagem adequada, o morango pode durar até 15 dias na prateleira, contra apenas três dias em embalagens comuns.

Os números recentes mostram que o setor está em expansão: em dez anos, o Brasil aumentou em 37% a área plantada de morango e ampliou a produção em 68%, saindo de 3,5 mil hectares e 112 mil toneladas em 2014 para 4,8 mil hectares e 187,8 mil toneladas em 2023, segundo a Embrapa. A próxima virada, segundo os especialistas, pode ser ainda maior.