Resumo da notícia
- O periquito-cara-suja voltou a se reproduzir em vida livre na Reserva Natural Serra das Almas, após mais de 114 anos sem registros da espécie na região entre Ceará e Piauí.
- O projeto de reintrodução, iniciado em 2024, envolveu aclimatação e monitoramento das aves transferidas, resultando no nascimento dos primeiros filhotes em março de 2026.
- A reprodução em liberdade indica que os periquitos conseguiram se adaptar ao ambiente, formando casais e iniciando um novo ciclo, embora a população ainda não esteja totalmente recuperada.
O periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus), uma das aves ameaçadas de extinção da Caatinga, voltou a se reproduzir em vida livre na Reserva Natural Serra das Almas, entre o Ceará e o Piauí. Os primeiros filhotes nasceram em março de 2026, mais de um século após o último registro da espécie na região.
O resultado marca uma nova etapa do projeto de reintrodução iniciado em 2024. Pesquisadores e organizações de conservação transferiram as aves para a reserva, fizeram a aclimatação e acompanharam os animais antes e depois da soltura.
Segundo a Associação Caatinga, responsável pela gestão da reserva, a espécie não tinha registro na região havia aproximadamente 114 anos. A ausência, porém, era regional. O periquito-cara-suja continuava presente em outras áreas do Brasil.
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Como ocorreu a reintrodução
A preparação começou antes da chegada das aves. Segundo a cronologia divulgada pelo projeto Refaunar Arvorar, a construção do viveiro de aclimatação começou em setembro de 2023.
O espaço permitiu que os animais se adaptassem gradualmente às condições da reserva. Em 2024, a equipe levou os primeiros indivíduos para a Serra das Almas e iniciou as etapas que culminaram na soltura.

Em dezembro daquele ano, 18 periquitos foram reintroduzidos na reserva após o período de aclimatação. Parte das aves veio da Serra de Baturité, onde a espécie ainda ocorre na natureza.
Ao longo de 2025, novas transferências e liberações ampliaram o grupo. A equipe passou a observar os deslocamentos, a alimentação, a formação de casais e o uso de locais de reprodução.
Filhotes nascem em liberdade
O principal avanço ocorreu em 2026. Em fevereiro, pesquisadores encontraram os primeiros ovos da espécie na reserva. Já em 17 de março, registraram os primeiros filhotes nascidos em vida livre no local.
Até então, a equipe havia registrado reprodução no viveiro de aclimatação. O nascimento na natureza, portanto, representa uma etapa diferente do projeto. As aves reintroduzidas conseguiram formar casais e gerar uma nova geração fora do ambiente controlado.

Para favorecer a reprodução, os pesquisadores instalaram caixas-ninho que simulam cavidades usadas pelas aves. A equipe acompanha os ninhos para observar o desenvolvimento dos filhotes e identificar possíveis riscos.
Esse registro mostra que pelo menos alguns indivíduos reintroduzidos conseguiram utilizar a área para reprodução. Ainda assim, o resultado não permite afirmar que a população esteja recuperada.
Por que a reprodução importa
A reprodução em liberdade oferece uma informação que a simples sobrevivência das aves soltas não forneceria. O nascimento dos filhotes indica que os animais encontraram condições para formar casais, ocupar o ambiente e iniciar um novo ciclo reprodutivo.
O resultado ganha importância porque o periquito-cara-suja sofreu forte redução histórica e enfrenta ameaças relacionadas à perda e à alteração do habitat. A disponibilidade de cavidades para reprodução também influencia a permanência da espécie. O ICMBio inclui a ave no Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves da Caatinga e desenvolve ações voltadas à recuperação de suas populações.

Na Serra das Almas, cerca de 23 indivíduos já viviam soltos após as ações de reintrodução, segundo informação divulgada pelo Conselho Regional de Biologia. Com os primeiros nascimentos, a população passa a ter a possibilidade de crescer também por reprodução natural, e não apenas por novas transferências.
Monitoramento continua
Agora, a equipe precisa acompanhar a sobrevivência dos filhotes, a formação de novos casais e a capacidade das aves de encontrar alimento e locais adequados para reprodução.
A conservação também depende da proteção de outras áreas ocupadas pela espécie. A manutenção da vegetação e a conexão entre diferentes ambientes podem favorecer o deslocamento das aves e ampliar as possibilidades de ocupação.
O planejamento da Reserva Natural Serra das Almas já apontava a área como estratégica para o repovoamento de espécies que desapareceram regionalmente. O documento do ICMBio cita o periquito-cara-suja entre as espécies prioritárias para ações de reintrodução.
Por isso, o nascimento dos filhotes representa um avanço concreto, mas ainda não encerra o trabalho de conservação. As próximas gerações ajudarão a mostrar se as aves reintroduzidas conseguirão formar uma população capaz de se manter na Serra das Almas.