Resumo da notícia
- Papagaios não apenas repetem sons, mas memorizam e associam vocalizações a pessoas e eventos, mostrando uma habilidade complexa de comunicação e aprendizado vocal ao longo da vida.
- Estudo com 877 papagaios revelou que espécies e indivíduos variam no repertório vocal, com papagaios-cinzentos destacando-se pela ampla imitação e uso contextual das vocalizações.
- Pesquisa sobre o cérebro do periquito-australiano identificou circuitos neurais que processam vocalizações de forma semelhante à fala humana, explicando a sofisticada coordenação necessária para a imitação vocal.
Quem convive com um papagaio provavelmente já ouviu a ave repetir palavras, frases, assobios e até ruídos de aparelhos eletrônicos. Esse comportamento parece simples, mas envolve uma capacidade de aprendizagem vocal bastante sofisticada.
Mais do que copiar o que escutam, essas aves conseguem memorizar vocalizações, reproduzi-las e, em determinadas situações, associá-las a pessoas, animais ou acontecimentos. Por isso, despertam o interesse da ciência e ajudam a ampliar o conhecimento sobre comunicação animal, memória e funcionamento do cérebro.
Os papagaios também conseguem incorporar novas vocalizações ao longo da vida. Dessa forma, além de produzir chamados próprios da espécie, podem reproduzir parte do que escutam no ambiente.
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Papagaios aprendem com o grupo
Na natureza, a comunicação ajuda os papagaios a manter contato com outros integrantes do grupo. Durante essas interações, eles ouvem diferentes chamados e podem incorporar novas vocalizações ao repertório.
Em casa, o cenário muda. A convivência diária com pessoas coloca a fala humana no ambiente do animal. Assim, palavras e expressões ouvidas com frequência podem passar a fazer parte das vocalizações produzidas pela ave.
Uma pesquisa publicada em dezembro de 2022 na revista Scientific Reports investigou a capacidade de imitação vocal de 877 papagaios de companhia. O trabalho foi realizado por pesquisadores da University of Northern Colorado e da University of Pittsburgh at Johnstown, nos Estados Unidos.
O estudo mostrou diferenças importantes entre as espécies e também entre indivíduos. Os papagaios-cinzentos, por exemplo, apresentaram os maiores repertórios de imitação entre as espécies analisadas. A pesquisa também encontrou casos de improvisação, como a reorganização de palavras, e uso das vocalizações em contextos humanos apropriados.
O cérebro ajuda a explicar essa capacidade
Pesquisas recentes também começaram a revelar o que acontece no cérebro dos papagaios quando eles produzem diferentes chamados.
Em março de 2025, um estudo publicado na revista Nature analisou os circuitos cerebrais envolvidos na produção vocal do periquito-australiano. O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores do NYU Neuroscience Institute, do Departamento de Otorrinolaringologia da New York University Langone Medical Center e do Center for Neural Science da New York University, nos Estados Unidos.
A equipe identificou uma organização neural relacionada a características acústicas das vocalizações. Segundo os autores, essa organização apresenta semelhanças com a forma como redes cerebrais humanas representam características envolvidas na produção da fala.
Assim, a capacidade de imitar sons não depende apenas de uma boa audição. O animal precisa perceber o estímulo e coordenar os mecanismos necessários para reproduzi-lo.
Papagaios entendem as palavras?
Aqui, a ciência faz uma distinção importante. Repetir uma palavra não significa necessariamente compreender seu significado da mesma maneira que uma pessoa.
Por outro lado, uma pesquisa publicada em abril de 2026 na revista PLOS ONE encontrou evidências de que algumas vocalizações de papagaios podem estar associadas a indivíduos específicos.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da University of Northern Colorado, da University of Pittsburgh at Johnstown, da University of Vienna e do Acoustics Research Institute da Austrian Academy of Sciences, nos Estados Unidos e na Áustria.
Os pesquisadores analisaram relatos envolvendo 884 papagaios de companhia. Em 413 deles havia exemplos de frases que incluíam nomes. Em uma análise mais específica, os autores encontraram evidências de uso individualizado de vocalizações em aves de diferentes espécies.
Esses chamados apareceram em situações sociais, incluindo cumprimentos, separações e momentos em que as aves buscavam atenção. Ainda assim, os próprios autores destacam que são necessários estudos controlados para compreender melhor os mecanismos envolvidos e determinar até que ponto essas vocalizações funcionam como rótulos individuais.
Por que algumas palavras são repetidas?
A convivência com as pessoas pode ajudar a explicar por que determinadas expressões aparecem com mais frequência. Quando o papagaio produz uma vocalização e recebe uma resposta, aquela interação pode ganhar importância dentro da rotina.
O contexto também pode influenciar. Uma palavra ou expressão ouvida repetidamente durante determinada atividade, por exemplo, pode acabar associada àquela situação.
A pesquisa de 2022 também mostrou que muitos papagaios utilizavam vocalizações imitadas em contextos humanos considerados apropriados. Além disso, os resultados indicaram que a capacidade de imitação varia entre espécies e indivíduos.
Portanto, o ambiente e as experiências sociais podem influenciar quais vocalizações uma ave aprende e como passa a utilizá-las.
Uma habilidade que ainda surpreende a ciência
Quando um papagaio repete uma palavra, portanto, ele não age simplesmente como um gravador. A ave utiliza uma capacidade que envolve percepção auditiva, memória, controle motor e interação social.
Ainda não há evidências para afirmar que esses animais utilizam a linguagem exatamente como os seres humanos. Mesmo assim, as pesquisas mostram que sua comunicação é muito mais complexa do que uma simples repetição automática.
Por isso, aquela palavra repetida várias vezes dentro de casa pode ser o resultado de um processo que começa na audição, passa pela memória e termina na tentativa de reproduzir uma vocalização.
As pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na Europa mostram que ainda há muito a descobrir sobre essa habilidade. Ao estudar como os papagaios aprendem, armazenam e utilizam suas vocalizações, os cientistas também ampliam o conhecimento sobre comunicação e aprendizagem em outras espécies.