Resumo da notícia
- A inadimplência rural atingiu 9,7% em agosto de 2026, impulsionada pelo aumento das taxas de juros do crédito rural, que subiram de 6,3% em 2021 para 12,2% em 2025.
- Operações com juros livres representam 77% do saldo em atraso, com inadimplência de 17,6%, enquanto operações com juros controlados têm 3,8%, refletindo condições de financiamento mais difíceis.
- A queda de 28% no preço real dos grãos e a piora na relação de troca com fertilizantes pressionam a rentabilidade, dificultando o pagamento das dívidas e o custeio das próximas safras pelos produtores.
A inadimplência rural chegou a 9,7% em agosto de 2026, segundo dados atribuídos a um estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). O levantamento analisa a evolução do endividamento no campo e aponta que o custo dos financiamentos ajuda a explicar o avanço dos atrasos.
Assinado por Geraldo S. A. de C. Barros e Lucilio R. A. Alves, o estudo examina o endividamento rural entre 2013 e 2026. Os pesquisadores destacam que, além do volume das dívidas, os juros, as condições de financiamento e a rentabilidade das atividades influenciam a situação financeira dos produtores.
- Inadimplência rural pressiona produtor
- Inadimplência do agro dispara em bancos públicos e pressiona crédito rural
Segundo o levantamento, a inadimplência do crédito rural entre pessoas físicas passou de 0,8% em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto de 2026, considerando o saldo das operações.
Juros altos encarecem o crédito rural
O custo dos financiamentos aumentou nos últimos anos. De acordo com os números atribuídos ao Cepea, a taxa média do crédito rural para pessoas físicas subiu de 6,3% ao ano, em 2021, para 12,2% em 2025.
No mesmo intervalo, a estimativa anual de gastos com juros passou de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões. Em relação à renda do setor agropecuário, essa despesa aumentou de 3,9% para 11,4%.
Com isso, os produtores precisam destinar uma parcela maior da receita ao pagamento dos encargos financeiros. Quando os preços agrícolas caem ou os custos de produção sobem, o orçamento fica ainda mais pressionado.
Crédito com juros livres concentra atrasos
As mudanças nas fontes de financiamento agropecuário também ajudam a explicar o cenário. O estudo aponta que as operações com taxas livres, incluindo modalidades como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), ganharam participação no mercado.
Essas fontes representavam 5% do crédito rural contratado em 2013. Em 2023, já respondiam por quase metade das contratações analisadas.
Além disso, o levantamento atribui às operações com juros livres 77% do saldo em atraso. Nesse grupo, a inadimplência chegou a 17,6%, contra 3,8% nas operações com juros controlados.
A diferença mostra que as condições de financiamento variam significativamente entre as modalidades. Ainda assim, os índices não representam todos os produtores, pois o risco depende também da atividade econômica e das condições de cada propriedade.
Preços e fertilizantes pressionam produtores de grãos
A rentabilidade é outro fator importante para o agronegócio brasileiro. Segundo o estudo, o preço real dos grãos estava 28% abaixo do nível de 2021, enquanto a relação de troca com fertilizantes atingiu o pior patamar da série analisada.
Essa combinação reduz o poder de compra da receita obtida com a colheita. Consequentemente, os produtores podem enfrentar mais dificuldades para pagar financiamentos e custear a próxima safra.
A pecuária, por sua vez, apresentou um cenário diferente na análise dos pesquisadores. A distinção reforça que o impacto do endividamento varia conforme a atividade e suas condições de mercado.
Renegociações ampliam o alerta financeiro
Os índices de inadimplência não mostram toda a dimensão das dificuldades no campo, já que parte das dívidas rurais passa por renegociações ou prorrogações.
Segundo o levantamento, em agosto de 2026, a carteira problemática do crédito rural somava R$ 205 bilhões, equivalente a 23,8% do total considerado na análise. Aproximadamente três quartos desse saldo estavam renegociados ou prorrogados.
O estudo também aponta diferenças regionais. O Rio Grande do Sul concentrava 13% da carteira nacional de crédito rural, 21% da carteira problemática e 27% do saldo renegociado e prorrogado. Mesmo assim, o índice de inadimplência no estado era de 3,2%.
Em Goiás, o indicador chegava a 8,8%, enquanto no Maranhão e no Tocantins superava 15%, conforme os números atribuídos aos pesquisadores.
Crédito fora das linhas tradicionais dificulta o diagnóstico
Os produtores também recorrem a recursos que não aparecem integralmente nas estatísticas tradicionais de crédito agrícola, como capital próprio, Cédulas de Produto Rural (CPRs), crédito de fornecedores e leasing.
O levantamento indica que o investimento agropecuário cresceu 71% desde 2019 e que 64% desse investimento foi financiado fora do crédito rural. Entretanto, os dados disponíveis não permitem determinar quanto desse montante corresponde efetivamente a dívidas.
Por isso, os pesquisadores defendem ampliar as informações sobre compromissos financeiros, renegociações e operações realizadas fora do sistema tradicional de crédito. Essas informações ajudariam a dimensionar melhor o endividamento do agronegócio.
Renegociação precisa considerar cada realidade
O estudo informa que, até 5 de outubro de 2026, a Medida Provisória nº 1.376/2026 havia viabilizado a renegociação de R$ 5,98 bilhões. Segundo os autores, o valor correspondia a cerca de 5% do montante estimado, enquanto as dívidas de investimento representavam 1,3% do total renegociado.
Os pesquisadores também relacionam parte das dificuldades aos financiamentos de investimento contratados entre 2020 e 2022, cujos vencimentos ocorreram em um cenário de margens menores e juros mais altos.
Diante desse quadro, o estudo destaca a importância de diferenciar dificuldades temporárias de liquidez de problemas mais profundos de capacidade de pagamento. A avaliação precisa considerar as receitas, os custos e os compromissos financeiros de cada propriedade.
O levantamento conclui que a inadimplência rural não depende apenas do tamanho das dívidas. O custo do crédito, as condições de financiamento e a rentabilidade das atividades também ajudam a explicar a pressão financeira sobre os produtores.


