Resumo da notícia
- Produtores da fronteira agrícola confiam mais nos EUA do que na China, apesar da dependência comercial brasileira do país asiático para soja e carne bovina, revela pesquisa da FGV RI de 2025.
- Confiança na China caiu quase 20 pontos desde 2017, mostrando que laços econômicos e políticos seguem caminhos distintos na percepção dos brasileiros da região.
- Setor agrícola vê normas ambientais da UE como necessárias para acessar o mercado, mas acredita que prejudicam competitividade e atendem mais aos interesses europeus do que aos do Brasil.
Apesar de a China ser o principal destino das exportações brasileiras de soja e carne bovina, produtores e moradores da fronteira agrícola demonstram maior confiança nos Estados Unidos do que no país asiático.
A conclusão faz parte de uma pesquisa realizada pela FGV RI (Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas) em municípios da fronteira agrícola das regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil no fim de 2025.
O levantamento revela uma diferença significativa entre dependência econômica e confiança política.
Dependência comercial não significa confiança
A China concentra atualmente cerca de 80% das exportações brasileiras de soja e 86% das vendas externas de carne bovina.
Mesmo assim, os entrevistados demonstraram maior confiança nos Estados Unidos.
Segundo a pesquisa:
21,8% consideram os EUA “muito confiáveis”;
12,6% atribuem a mesma avaliação à China.
A diferença supera nove pontos percentuais.
O estudo também aponta que a confiança na China caiu quase 20 pontos percentuais em comparação com 2017, período em que as relações comerciais entre os dois países continuaram avançando.
Segundo os pesquisadores, o resultado mostra que laços econômicos e alinhamentos políticos seguem caminhos distintos.
“A fronteira agrícola vende para a China sem confiar nela e confia nos Estados Unidos sem depender deles comercialmente. A pesquisa mostra que confiança política e dependência econômica são coisas distintas e seguem lógicas diferentes”, afirmou Matias Spektor, diretor da FGV RI e um dos autores do estudo.
Leia mais: Robôs de ordenha transformam a pecuária leiteira
União Europeia gera percepção dividida
A pesquisa também avaliou como os entrevistados enxergam as exigências ambientais da União Europeia para produtos agrícolas.
De um lado, 74,3% acreditam que atender às normas ambientais europeias fortalece a reputação internacional do Brasil.
Por outro:
66,9% afirmam que as exigências reduzem a competitividade dos produtos brasileiros;
61,5% entendem que as regras atendem principalmente aos interesses econômicos da própria União Europeia.
Segundo os pesquisadores, essas avaliações não são contraditórias.
A interpretação é que o setor vê as exigências como uma condição necessária para manter acesso a um mercado estratégico, mesmo sem compartilhar integralmente os valores defendidos pelo bloco europeu.
Fronteira agrícola tem perfil mais conservador
O levantamento também traçou um panorama político dos moradores da região.
De acordo com os dados:
83,5% se identificam como de direita ou centro;
16,5% se declaram de esquerda.
A pesquisa aponta ainda que:
55,9% acreditam que o governo interfere excessivamente na vida das pessoas;
64,3% avaliam que a regulação estatal gera mais efeitos negativos do que positivos para os negócios.
Segundo os autores, essas percepções influenciam a forma como a população da fronteira agrícola avalia parceiros internacionais como Estados Unidos, China e União Europeia.
Peso político do agro pode crescer
O estudo destaca ainda o aumento da relevância eleitoral da fronteira agrícola brasileira.
Os estados que compõem essa região representam aproximadamente 15% do eleitorado nacional.
Para os pesquisadores, esse crescimento pode ampliar a influência das preferências regionais nos debates sobre política externa e nas relações do Brasil com Washington, Pequim e Bruxelas.
“Uma política externa que presume que a fronteira agrícola seguirá seus interesses comerciais em direção ao alinhamento político com qualquer parceiro individual interpreta equivocadamente a realidade da região”, concluiu Matias Spektor.
Leia mais: Frutas em miniatura conquistam produtores e consumidores









