Resumo da notícia
- A raça Canchim recebeu o selo Beef on Dairy, sendo a segunda no Brasil a ter certificação para cruzamento com vacas Girolando, garantindo qualidade genética e abrindo novas oportunidades para produtores de leite.
- O uso de touros Canchim selecionados gera bezerros com maior valor comercial, melhor carne e carcaça, transformando animais antes descartados em fonte de renda adicional para produtores.
- A raça se destaca em regiões tropicais por sua adaptação ao calor, pelagem clara e genética que proporciona precocidade, maior peso ao desmame e qualidade superior comparada ao Nelore e Angus.
A raça bovina Canchim acaba de conquistar um marco histórico para a pecuária brasileira: tornou-se a segunda raça, após a Angus, a receber um selo Beef on Dairy (carne no leite) no país. A certificação, batizada de Canchim on Dairy, identifica touros da raça aptos ao cruzamento com vacas leiteiras mestiças da raça Girolando, assegurando qualidade genética aos bezerros gerados e abrindo uma nova frente de negócio para produtores de leite.
A estratégia é direta: usar sêmen de touros de corte selecionados para gerar animais com maior valor comercial. Bezerros que antes tinham baixo valor de mercado, ou eram descartados logo após o nascimento, passam a ser criados e destinados ao abate, com carne de qualidade superior e carcaças de melhor rendimento.
“O objetivo é atender ao produtor que deseja uma segunda fonte de faturamento, vendendo esses animais para corte. Canchim é uma raça terminal que traz melhor qualidade de carcaça, mais peso ao desmame e ao sobreano. Além disso, é uma alternativa que agrega bem-estar animal, evitando o descarte de machos recém-nascidos”, explica Cintia Righetti Marcondes, pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste (SP).
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Por que o Canchim é ideal para regiões tropicais?
Em regiões quentes como o Centro-Oeste e o Norte do Brasil, o Canchim se destaca pela pelagem clara e alta adaptação ao calor. Uma vantagem que a raça Angus, por exemplo, não oferece para uso a campo. Sua genética transmite precocidade e padronização aos descendentes: bezerros cruzados podem superar o Nelore entre 10% e 15% no peso à desmama, com carcaças de maior rendimento e acabamento de gordura adequado para o mercado consumidor.
Outro diferencial é o valor de mercado das fêmeas. Ao contrário do que ocorre em sistemas puramente leiteiros, fêmeas jovens resultantes do cruzamento com Canchim são valorizadas por depositarem gordura na carcaça precocemente, permitindo abate com excelente qualidade.
Como um touro obtém o selo Canchim on Dairy?
A certificação é rigorosa e baseada em avaliações genéticas do Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo). O touro deve atender a critérios técnicos em cinco características-chave, medidas pelo sistema de Decas, uma escala que divide os animais em dez grupos, do mais superior (Deca 1) ao mais inferior (Deca 10).

No peso ao nascer, exige-se Deca igual ou menor que 4, selecionando os 40% melhores da raça para reduzir riscos de parto difícil. No ganho de peso, do nascimento ao sobreano, o critério é Deca até 5. Na conformação ao sobreano, somente os 30% mais musculosos passam (Deca ≤ 3). Para o tamanho do animal (frame), busca-se uma faixa intermediária, entre Deca 3 e 5, evitando animais excessivamente grandes ou pequenos. Por fim, na área de olho de lombo, são selecionados os 40% superiores (Deca ≤ 4), garantindo rendimento de carcaça e qualidade de cortes nobres.
Simulações na base de dados do Promebo já apontam que diversos touros da raça atendem aos critérios e estão aptos à certificação imediata.
Benefícios em cadeia: do pasto ao mercado
Com o selo estampado no certificado de avaliação genética, o touro certificado passa a ser referência para produtores de leite, centrais de inseminação e leilões especializados. Na prática, os ganhos se distribuem por toda a cadeia. Menor risco de partos difíceis para as vacas leiteiras, maior valor de venda dos bezerros e produção de carne com menor pegada ambiental por quilo. Um argumento crescente no mercado consumidor global.
Além disso, para pequenos produtores, a iniciativa abre ainda outra possibilidade. A aquisição compartilhada de um touro certificado em consórcio, viabilizando acesso à genética de qualidade sem o custo total recair sobre um único criador.
“A criação de um selo oficial traz reconhecimento, padronização e segurança ao mercado. Essa iniciativa fortalece a integração entre pecuária de leite e de corte. Ao mesmo tempo em que apoia o produtor leiteiro com alternativas mais eficientes para o aproveitamento de seus animais”, destaca Cristina Ribeiro, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Canchim (ABCCAN).
A Embrapa liderou a iniciativa em parceria com a ABCCAN, a Associação Nacional de Criadores Herdbook Collares e o Promebo.








