O rótulo promete “extra virgem” e “extração a frio”, mas poucos consumidores sabem o que essas palavras realmente significam. Entre a colheita da azeitona e o momento em que o azeite chega à mesa, o fruto passa por um processo rápido, mecânico e extremamente sensível à temperatura. Um atraso de poucas horas ou um aumento de poucos graus já compromete o sabor, o aroma e os benefícios nutricionais do produto final.

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azeite sendo derrubado em uma vasilha
Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar

No Brasil, regiões como a Serra da Mantiqueira (MG/SP) e o Rio Grande do Sul lideram essa produção em expansão. Aline Coquieri Belli, responsável pela produção de azeite da Vinícola Guaspari, em Espírito Santo do Pinhal (SP), e Cláudia Santos, sommelière de azeites e mestra de lagar da Fazenda Serra dos Tapes, em Canguçu (RS), acompanham de perto cada etapa desse processo. A seguir, entenda o caminho que a azeitona percorre até virar azeite.

A colheita: o relógio começa a contar

Tudo começa no momento exato da colheita, geralmente feita à mão ou com auxílio de maquinário, nas primeiras horas da manhã, quando a fruta atinge o ponto ideal de maturação. A partir daqui, a azeitona entra em uma corrida contra o tempo: quanto mais cedo ela chegar ao lagar, o local onde acontece o processamento, melhor.

Segundo Aline Coquieri Belli, o transporte rápido das azeitonas até o lagar evita a fermentação e a oxidação da fruta, dois processos que aumentam a acidez e derrubam a qualidade do azeite. Na avaliação da especialista, o ideal é que toda essa etapa, da colheita ao início do processamento, leve no máximo um dia. Algumas produtoras, como a própria Fazenda Serra dos Tapes, mantêm o lagar junto ao olival justamente para reduzir essa distância ao mínimo.

Lavagem e moagem: a fruta vira pasta

No lagar, as azeitonas passam primeiro por uma lavagem, que remove folhas, gravetos e impurezas. Em seguida, entram na moedora, que tritura o fruto inteiro, incluindo o caroço, até formar uma massa espessa e homogênea, conhecida como pasta de azeitona ou pasta de oliva.

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colheita de azeitonas
Colheita de azeitonas para produção do azeite Mantikir. Foto: Régis Silva/Divulgação

Essa etapa precisa acontecer logo depois da colheita. Quanto mais tempo a azeitona espera antes da moagem, maior o risco de fermentação, o que prejudica diretamente o sabor e a acidez do azeite.

Malaxagem: a etapa que decide a qualidade

Depois de moída, a pasta segue para a malaxagem (também chamada de batedura), um processo de mistura lenta e contínua que dura, em média, entre 30 e 60 minutos. A função dessa etapa é unir as pequenas gotículas de azeite espalhadas pela pasta, formando gotas maiores que a centrífuga consegue separar com mais eficiência depois.

É exatamente aqui que mora o segredo da “extração a frio”: durante toda a malaxagem, a temperatura da pasta não pode ultrapassar 27°C. Acima desse limite, as reações químicas de oxidação se aceleram, e o azeite perde polifenóis, vitamina E e os compostos voláteis responsáveis pelo aroma. O calor até aumenta o volume de óleo extraído, mas reduz a qualidade sensorial e nutricional do produto. Uma troca que os bons produtores evitam.

Na Fazenda Serra dos Tapes, batedeiras equipadas com sistema de refrigeração mantêm essa temperatura sob controle constante durante todo o processo, segundo explica Cláudia Santos. A especialista lembra ainda que o termo “prensado a frio”, comum em rótulos antigos, descreve um método já praticamente abandonado pela indústria: hoje, a extração não usa mais prensas mecânicas, e sim centrífugas, o que torna “extraído a frio” a expressão tecnicamente correta.

Centrifugação: o fim das prensas tradicionais

Até algumas décadas atrás, a separação do azeite acontecia por meio de prensas hidráulicas, que pressionavam fisicamente a pasta entre discos de fibra. O método funcionava, mas expunha o azeite a mais oxigênio e oferecia menos controle de higiene e eficiência.

Os lagares modernos substituíram as prensas por decantadores centrífugos, equipamentos que giram a alta velocidade e separam o azeite da água de vegetação e do bagaço (a parte sólida da azeitona) em um processo contínuo, rápido e muito mais preciso. Essa centrifugação acontece, também, dentro do limite de temperatura da extração a frio.

Decantação, filtragem e engarrafamento

Depois de separado, o azeite ainda carrega pequenas partículas sólidas em suspensão. Algumas produtoras deixam o líquido em repouso por um período curto, permitindo que essas impurezas decantem naturalmente. Outras optam pela filtragem, que retira até os últimos resíduos e deixa o azeite mais límpido. Essa é apenas uma escolha estética, já que o azeite turvo (não filtrado) não perde qualidade por isso.

A etapa final é o envase. As garrafas costumam ser de vidro escuro, e o motivo é técnico, não apenas estético: a luz acelera a oxidação do azeite e degrada seus compostos com a mesma rapidez que o calor. Embalagens escuras, frascos metálicos ou caixas protegem o produto até a abertura.

Como saber se um azeite é mesmo de qualidade

Os rótulos trazem alguns números que ajudam o consumidor a avaliar o que está comprando. A acidez, expressa em ácido oleico, não pode ultrapassar 0,8% para um azeite ser classificado como extravirgem. Porém, os de altíssima qualidade costumam ficar abaixo de 0,2%. Já o índice de peróxidos mede o grau de oxidação do produto: quanto mais baixo, mais fresca foi a azeitona e mais cuidadoso foi o processo de extração.

Cláudia Santos destaca outro diferencial dos azeites brasileiros: por chegarem às prateleiras logo após a produção, eles preservam frescor e sabor que muitos importados, depois de meses em trânsito, já não conseguem manter.

O Brasil entrando na rota do azeite extravirgem

A olivicultura nacional é recente, mas cresce rápido. Maria da Fé, no Sul de Minas Gerais, é considerada o berço do azeite brasileiro. A cidade recebeu as primeiras mudas de oliveira na década de 1930, trazidas por um imigrante português que notou semelhanças entre o clima local e o de sua terra natal. Décadas depois, em 2008, pesquisas da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) resultaram na primeira extração de azeite extravirgem do país.

produtor de azeite colhendo azeitonas
Herbert Sales, produtor do azeite Mantikir, durante a colheita da safra 2026. Foto: Régis Silva/Divulgação

Hoje, regiões como a Serra da Mantiqueira e o interior do Rio Grande do Sul reúnem produtores que aplicam tecnologia de ponta na produção. E seguem rigorosamente o controle de temperatura da extração a frio, para colocar o azeite brasileiro no mesmo patamar dos grandes produtores internacionais.